Útero

Recentemente tomei uma decisão bem complicada que acabou em uma cirurgia há muito adiada: fiz uma histerectomia. Retirei útero bichado, colo, essas coisas. Sobraram os ovários que não são bichados, amém!

Digo que adiei muito a cirurgia porque tenho pânico de anestesia. Pra mim não existe nada tão estranho quanto a tal da anestesia. Um cara vem, coloca uma agulha na tua coluna, injeta um treco lá dentro e, voilá! Você perde todas as sensações da cintura pra baixo, no meu caso.

Decisão tomada – porque eu já não aguentava mais sofrer com a coleção de miomas que habitavam meu útero – fiz toda aquela quantidade de exames que se tem que fazer e comuniquei à empresa em que trabalho que precisaria de 15 dias de licença pós-cirurgia.

E foi aí, nesse período pré-cirúrgico – delicado, de ansiedade, um certo medo, afinal é uma intervenção cirúrgica – que uma pessoa me perguntou: ‘Você já conversou com o teu médico pra saber se você vai conseguir ter orgasmos normalmente sem o útero?’

Devo admitir que não sei que cara fiz na hora porque pra mim é óbvio que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Sabe quando você olha pra pessoa e pergunta: mas o que é que o rabo tem a ver com as calças?

O mais estranho é que essa colega é formada, está terminando a pós-graduação, toda antenada em coisas modernas, novidades de todo jeito, moda e tal e coisa.

 Eu ainda fico admirada que as mulheres-cis*, por mais instruídas, portadoras de diplomas, cheias de informação, ainda tenham tão pouca ideia do que acontece com o próprio corpo… Onde é que foi parar o autoconhecimento?

 Confesso – eu sempre falo demais – que não sou das pessoas que têm múltiplos orgasmos facilmente. Há que se ter um certo trabalho para chegar neste estágio da conversa, mas daí a acreditar que eu nunca mais gozaria ou a perguntar pro meu médico a respeito, seria a mais completa tolice.

 E quem disse que o orgasmo é a finalidade única e exclusiva de uma relação sexual? Sei lá, pra mim é mais que isso, mas é papo para divã de analista.

Eis que na mesma semana fatídica uma outra colega perguntou se eu não achava que ficaria menos feminina por não ter útero… Em que século a gente está mesmo? Eu só posso ter perdido o bonde da história e não sei.

São pensamentos tão estranhos pra mim porque em nenhum momento eu pensei que não teria mais orgasmos (não, eu não pensaria isso porque sei que as mulheres não gozam pelo útero) ou ficaria menos feminina sem meu útero, nem pensei que deixaria de ser atraente (não que eu seja, depende do gosto) ou gostosa (não que eu seja também, idem) porque não teria mais útero.

Eu só pensava: tirarei útero e me livrarei da dor e desse incômodo todo. E agora penso: nunca mais aquela dor horrível.

Estas duas conversas só serviram para me provar que muitas mulheres-cis* não se conhecem, não sabem nada de si mesmas, não sabem do próprio corpo, não sabem o que realmente as torna atraentes, bonitas, gostosas ou desejáveis aos olhos de outrem.

Antigamente, e isso eu sei por causa de umas histórias de família, realmente havia um estigma sobre a mulher que extirpava o útero, toda uma comoção por duas razões: primeiro porque ela não mais geraria filhos – função única e exclusiva do tal do útero no corpo feminino; segundo porque sim, acreditava-se – ou as mulheres acreditavam – que deixariam de ser tão mulheres sem útero.

Tirei o meu útero que há muito incomodava. Hoje acho que devia tê-lo feito antes, evitado uns anos de sofrimento, e não me sinto mais ou menos mulher por causa disso.

E, sejamos honestos, é de uma total deselegância (rsrsrs) fazer qualquer das duas observações que eu ouvi na semana que antecedeu à minha cirurgia, né? Ainda bem que mesmo tendo uns parafusos de menos – ou a mais – na cachola eu não me deixo perturbar por essas coisas. Ainda bem.

 #Ficadica: Não se define uma mulher por partes do seu corpo.

 E o que é mulher-cis? Cisgênero (ou simplesmente cis) é um termo que designa as pessoas que não tem seu sexo questionado, ou seja, elas se identificam com um determinado gênero que converge com o gênero que a sociedade a designou. Quer entender melhor? Leia aqui.

útero

*Cris Rangel é atleticana de corpo, alma e ventania. Jornalista na fria e carrancuda Curitiba. Mãe de menina. Audaciosa. Corajosa. Encrenqueira. Louca por cinema, rock’n roll, vinho e conversa afiada. Corredora amadora, aficcionada por academia. Biscate exigente, livre e liberta.

 

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9 ideias sobre “Útero

  1. Renata, eu até demorei pra digerir o que tinha ouvido de tão pasma que fiquei. E realmente foi um trem dolorido, mas passou. Voltei à vida normalmente, o que inclui a minha sexualidade. E orbigada!

  2. Eu também fiz essa cirurgia no ano passado por conta dos miomas e hemorragias, ouvi muito isso que não teria mais orgasmo, e ainda me perguntam… mas, agora respondo como você:
    ” acho que devia tê-lo feito antes, evitando uns anos de sofrimento, e não me sinto mais ou menos mulher por causa disso”. ao contrario estou muito melhor em todos os sentidos.

  3. Mira, tb me sinto muito melhor! Acredito que só o fato de acabar com a dor já nos faz um tanto melhores. E tem ainda o lado ‘relaxei’ na vida! rsrsrs. E que sejamos cada vez melhores!

  4. Huahuahuahauh, Cris tive que fazer uma cirurgia dessa e ouvi os mesmos questionamentos que vc, mas o pior de tudo foi na facul quando uma colega me perguntou se eu não tinha medo de não ter mais orgasmos e uma outra respondeu: na idade dela, acha que vai se preocupar com isso??? Orgasmo é pra gente jovem. Detalhe, eu tenho 40 anos e sou sexualmente ativa.

  5. Mas Jane?! Quequéisso produção? Se só gente jovem ter orgasmos, tô ferrada. Hahahaha. Tenho 41 e cada vez que tomo conhecimento das asneiras que o povo fala por aí tenho três tipos diferentes de chiliques. E, a julgar pelos comentários o que eu ouvi é mais comum do que eu imaginava. Triste, porém real! Mas, ainda bem que somos quem e como somos, né?
    Beijos

    • Pode uma coisa dessa menina???? huahuahuahuah, mas sabe o que decidi???? Pessoas assim ignorantes, eu ignoro. Beijão e obrigada pelo poste maravilhoso.

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