Águas femininas

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Será uma quinzena caliente não lhes parece? 

#Erotismo em Nós
Águas femininas, Sílvia Badim

Foi de repente que eu, enfim, mergulhei naquelas águas de quereres fartos e livres. Eram águas femininas, e eu sabia que um dia nadaria ali, em braços férteis e interiores quentes, buracos onde eu entraria com vontade de saber mais sobre mim mesma, e sobre os desejos que brotam em terras de intimidade e semelhança.

A pele suave, o cheiro doce, o toque forte e sutil, os seios arrepiados, o beijo intenso. Cumplicidade e tesão de carícias improváveis. Surpresas de toques impensados. Fantasias impronunciáveis para quem cresceu cercada pelos moralismos das tias e das avós que ainda reverenciavam as moças virgens e os casórios que, mesmo inventados e vazios de transcendências, eram tidos como “certos”, como se certo fosse o protocolo e não o conteúdo de qualquer vivência.

Em meio a tanta falácia moral, uma assertiva sempre me impulsionou, e me tomou de assalto: a sexualidade é livre. É um mar aberto para se nadar de braçadas. É um reino sem lei, sem dogma, sem certo e errado, sem definições e categorias. Porque a gente também é bicho-sexo. Porque a gente também é sexo-instinto, e o instinto é voraz. Depois das tantas descobertas escondidas no fundo do quintal (que compensavam as palmadas recebidas), eu soube: quando a gente não vive, ele come tudo por dentro. A gente adoece, enlouquece, explode contido. É preciso dar vazão ao que não se explica. É preciso gozar essa vida de pele e músculos, de desvarios de corpo nu.

E quando se começa a experimentar o prazer de mulher-bicho o caminho se abre em possibilidades: eu posso. E eu posso. Timidamente antes, agora num declarar de janelas. A gente pode ser fiel ao próprio desejo. E isso é bonito de se gritar e sorrir na rua. Isso é bonito de ser visto. Quem sabe que pode viver o próprio desejo tem sorriso largo, que não se apaga com julgamentos ou dedos em riste. A gente pode.

E dentre o que pude, e posso, encontrei-me com o feminino, dentro e fora de mim. Experiência para nunca mais voltar a mesma. Experiência de quem esquece o caminho de volta. Quando se abre os portões da sexualidade, o mundo não cabe mais em caixinha com tampa ou molde apertado. O mundo é possibilidade.

O que nos excita é incógnita que sempre pode ser mais. Tesão é qualquer coisa parecida com mágica. A gente sente o incêndio e ele chega em instinto cego. Tesão brota de repente, dos mais diversos pensamentos e estímulos. Às vezes em sonho que faz a gente acordar excitado, às vezes no meio da reunião de trabalho, às vezes num beijo sem graça, às vezes em cenas explícitas, às vezes e sempre. Às vezes surpreendente e muitas vezes mais, para além do que podemos conter com a nossa parca, e pobre, racionalidade.

E quando duas mulheres se tocam coisas mágicas podem acontecer. E não só, acreditem, na fantasia masculina. Erotismo sutil, transbordando essência doce e gosto de fruta mordida. Cheiro e suor, possibilidades muitas de sexo reinventado, toques nunca experimentados, suavidade e aspereza, criatividade quente de mulher. Gozo intenso e desavisado, prazeres que vem de lugares onde nunca se pensou que se pudesse ter prazer. Fantasias puramente femininas, potencializadas por bocas que trepam e se beijam em metros e metros de equivalência.

Todo homem – ou quase todo – tem a fantasia (talvez machista) de ser o falo dominante entre duas mulheres. Já ouvi frases como: “ah, fala sério, o que duas mulheres fazem na cama?”. A resposta, meu amigo, é o erotismo que você nunca pensou para além do falo. O erotismo que pode ter ideias das mais diversas, e sensações das mais novas – novinhas em folhas – para sempre se descobrir mais. Liberdade de sexo sem rótulos, e de desbravar corajosamente tudo que dá prazer.

Da próxima vez que você ver duas mulheres rindo com as mãos próximas das coxas uma da outra, pense outra vez. Quando duas mulheres forem juntas ao banheiro, pense de novo, que pode ter um universo extremamente erótico encostado nas paredes sujas do bar, roçando prazeres e exalando sexo vermelho.

Sexo entre mulheres não tem a ver – não só – com lesbianismo. Tem a ver com liberdade.

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15 ideias sobre “Águas femininas

  1. Muito homem e muita mulher inquieta! hahahahaha Silvia, como sempre me acertando em cheio sem ao menos me ver. caso não seja muita pretensão minha, me arrisco até dizer que eh muita sintonia de olhos fechados. E escrever eh isso né? se sentir e deixar que as pessoas se sintam com suas letras “arrumadas e enfileiradas”, que nesse caso de pura liberdade. Silvia, querida, beijos biscateiros e muito obrigada pela pílula de liberdade!

  2. Caramba! Que texto lindo é esse?! Eu estou lendo, relendo, e relendo, e relendo! (daqui a pouco decoro e saio declamando por aí! rs) É tão intenso e erótico e, ao mesmo tempo tão suave e poético… Torna a coisa tão imensamente bonita! É quase um convite ao experimento…
    Nunca tinha ouvido ou lido o sexo entre duas mulheres ser tratado com tanta potência.
    Mulheres que fazem não comentam, mulheres que não fazem desenham uma expressão de nojo, bichas desdenham, heteros fantasiam de forma utilitarista.
    Nunca vi de forma tão linda!

  3. Pingback: O triângulo aponta o caminho |

  4. Poooxa que sensibilidade é essa aí menina!?
    Acho que ocê não fala de um sexo vulgar, acho
    que fala mais de experimentações, sensações…
    Mas veja que tem muita “moça” trepando que
    nem bixo Machista por aí, viu. Tenho preguiça dessas.
    Tenho preguiça dessa gente sem cuidado.
    E tenho preguiça até do sexo pelo sexo; gosto mais
    da liberdade e da experimentação do corpo como Corpo,
    do Corpo como Gente.
    Experimente se esticar numa árvore, ou plantar bananeira,
    ou dançar… A gente também se experimenta
    na gente mesmo.
    No outro,
    mas com cuidado, que o outro também é gente.
    Será que o outro dança? :D

    • Sabe, Camila, tenho cá pra mim que, talvez, você não tenha compreendido bem o sentido do texto e, também, do blog. Este espaço surgiu e se mantém justamente na ausência de vigilância e julgamento sobre o outro – ou, no caso, como é mais comum mesmo na nossa cultura, sobre a outra. A gente por aqui trepa mesmo. Ou não. Se, quando e como quiser. Tem umas por aqui que acham mais gostoso trepar que plantar bananeira. Tem outras que plantam bananeira. Tem as que trepam plantando bananeira. E tem as que estão sem trepar faz um tempão – com vontade ou sem. E não tem hierarquia. Tem respeito. O que você gosta mais, é bom pra você, não significa que é melhor para a outra ou que você é melhor que a outra por essa opção.

    • sim, sim! coisa linda Camila, é isso mesmo que penso, sinto, e procuro: experimentações e sensações. vivências, danças, misturas boas de se viver. contato, troca. é disso que a gente se alimenta no amor, no sexo, na paixão. e é para mim o que vale a pena!

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