Mãe-objeto

Quem me conhece sabe: sempre quis ser mãe. Talvez tenha querido até mais do que os que me conhecem sabem, então conto melhor – sempre quis ser mãe. Desde que eu me lembro. Desde muito criança. Criança, “presente” era para mim sinônimo de “boneca”. Curiosamente, no entanto, nunca gostei muito de cuidar de boneca. Essas coisas: dar comidinha, trocar roupa… meninas muitas vezes brincam disso. Não tenho nenhuma lembrança desse tipo. As bonecas eram algo muito íntimo, muito grave. Minha parada não era dar papinha ou trocar fralda. Era “ter filhos”.

Um pouquinho maior, com uns sete, acredito, encenava histórias com minha prima Elizabeth. A gente tinha o mesmo namorado, que era o personagem do Marcos Paulo em “Carinhoso” – Edu. Eram gêmeos, nossos Edus. E a gente era amiga da Regina Duarte, a Cecília de Carinhoso. Lembro bem quando a gente encenou a história da gravidez e do parto da Regina/Cecília, que a gente apoiou de perto. Foi tudo bem, graças a Deus.

Gravidez. Parto. Mistério. Fascínio. Encanto. Magia. Medo. Medo de não ter, de não conseguir. Medo total, porque eu tava no mundo pra isso: pra ter filhos.

Corta.

Momento de plenitude: eu no quarto, os dois meninos (meus filhos) dormindo. Um bebê, um com seis anos. E a sensação: pronto. Pronto. Agora, o que vier é lucro.

Isso tudo, até aqui, nada mais é do que uma longa introdução. Uma contextualização necessária. Pra dizer que, se ser mãe (e todas as tarefas associadas a isso) foi papel que desempenhei com  tranquilidade e segurança – até porque minha irmã, seis anos mais nova, tinha sido minha cobaia -, o mesmo não se pode dizer quanto ao viver do simbólico associado à mãe em terras brasilis. Eu não tava preparada, eu não tava esperando. Eu ia ser mãe, mas eu ainda era eu.

[Aqui faz-se necessária mais uma ponta de contextualização: minha mãe sempre riu alto, contava piada de sacanagem, era totalmente sexy e usava biquínis pequeninos. Não era a mãe dos livros de histórias. Era a minha, ainda bem. E essa a imagem de mãe que eu tinha.]

Aconteceu assim: engravidei, como sempre tinha desejado, e – imaginem o choque -, de um dia pro outro,  fui sendo gentilmente empurrada, sem nem entender direito, para o flutuante mundo cor-de-rosa das grávidas. Um mundo onde as roupas de pessoas adultas são meio de bebê grandão, onde você é olhado com afeto e certa condescendência por estranhos (e sobretudo por estranhas), onde todo mundo acha que pode passar a mão na sua barriga, e onde se espera que você paire pela vida com um sorriso beatífico nos lábios: sorria, você agora não é mais você. É A Mãe.

Eu tinha vontade de gritar. Eu tinha vontade de bater. Eu queria minha vida de volta. Eu tava sem poder beber nem fumar por um tempo, é certo; mas era eu, gente, era eu! Eu não sou rosa, não sou suave, não sou tranquila, não sou pacífica. Não sou A Mãe.

E quem é, dá vontade de perguntar. Quem é essa mãe aí. Essa que esperam. Que reverenciam. Essa em cujo figurino você tem que entrar, custe o que custar. E continua. Depois que o bebê nasce, continua. Espera-se que você ostente um sorriso de paz e alegria permanente. Afinal, você não é mais você: é você-mãe. É um mundo esquisito esse daí, mundo em que a expectativa é de que a pessoa abdique da sua personalidade e da sua história pra seguir um script pra lá de padronizado, de preferência usando o tom de voz adequado – baixo, pausado. Sem barracos. Sem marolas. Porque, vocês entendem: mãe. Mãe não faz assim. Mãe não é assim. Mãe é outra coisa.

Da segunda vez, eu já tava escolada e não me assustei tanto – já sabia me proteger melhor do universo cor-de-rosa flutuante. A proteção, entendam, é interna. É um bloqueio mental de certas iniciativas. É claro que não teve como eu não me assustar quando, num churrasco, certa moça que eu tinha acabado de conhecer achou bonito passar o dia conversando com a minha barriga de oito meses. A barriga já tinha nome escolhido, e esse nome ela usou para dirigir-se a um ponto próximo ao meu umbigo o evento inteiro. Pensem numa situação esdrúxula. E eu nem podia beber. Tive que ficar ali, a seco. Nunca mais consegui encontrar essa pessoa sem ter leve arrepio de lembrança. Ainda bem que encontro raramente.

E daí? Minha vontade é que isso aqui seja um começo de reflexão e um desejo. A reflexão, pra mim, vai pelo caminho de pensar a mulher na nossa sociedade, a mãe na nossa cultura. Pensar pra desmontar, pra desfazer. A Mãe não existe. Existem mulheres, a quem ocorre serem mães. Juliana e Laura, que montaram o Mothern, fizeram muito pra desmistificar essas criaturas-objeto, acho. Não é à toa o imenso sucesso que alcançaram. Mais perto de mim, outra Juliana  - aquele bebê citado acima que um dia foi minha cobaia – achou de escrever um livro gostoso de ler, honesto e, segundo um amigo meu, “escrachado”, sobre como foi ser mãe pela segunda vez. Um anti-manual em tom bem pessoal. Adoro.

O desejo é de que as mães-que-ainda-vão-ser encontrem um terreno mais amigável. Onde “ser mãe” não esteja envolvido nessa aura quase santa, quase mística. Ora vejam… como se pra ser mãe a gente não precisasse trepar primeiro. Olha, parece que só a Virgem Maria. E, mesmo aí, há controvérsias.

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42 ideias sobre “Mãe-objeto

  1. Renata, adorei o post! É engraçado como há muitas mulheres que conheço, a maioria feministas, que não tem o desejo de serem mães, por se recusarem a ter que cumprir essas expectativas atribuídas ao ser mãe. Por outro lado, conheço outras, também feministas, que assim como vc, têm esse desejo e aceitaram esse desafio, de querer ser mãe e não “a mãe”, de querer ser mãe para além do essencialismo, para além do que lhe é atribuído socialmente. Essas mulheres e mães, que mesmo sendo mães, são as mesmas mulheres de sempre, convictas de suas lutas, seguras e tranquilas.

    • Ai, Tiago, eu nem posso reivindicar muita escolha aí não. Eu simplesmente não sabia. Não dimensionava o peso disso tudo. Não me preparei. Eu queria ser mãe assim visceralmente, sem nem um pingo de racionalidade. Não havia condições objetivas pra isso. Se eu pensasse, não seria, provavelmente. Ainda bem sigo instintos quase que inevitavelmente…

  2. Nunca me imaginei mãe, nem casada, nem nada. Mas quando fiquei grávida curti muito. Mas não desse jeito “inho” “inha” que as pessoas teimam em perpetuar. No meu caso, além de ser “vítima” da síndrome do “nãosacodequeelatágrávidaepodequebrar”, a cobrança era grande em cima do peso…que eu não adquiri. Tive duas gestações saudáveis mas que incomodaram muito (os outros) porque, na primeira engordei 7.5 Kg e na segunda 9.5 Kg. Mas resolvi levar todas as especulações com bom humor, até porque não me atingiam mesmo. Achava estranho as pessoas se comportando daquela forma estranha, quase patética, em relação a mim, a mesma pessoa, só que grávida. Olhava aquilo de fora e ria. Quando me perguntavam, por exemplo, “já sabe o que é?” eu respondia: “sim, é um bebê!”. Enfim, sobrevivi. Consegui ser sublime! Rs. Parabéns mais uma vez pelo texto, Renata. Como sempre falando muito pra mim . Bj!

  3. Renata, já disse que acho uma delícia seus textos? Gosto do jeito que você escreve, pois é fluído e a gente fica querendo mais. Gostei do texto, pois tenho vontade de entender um pouco como é ser mãe sem deixar de “ser”…rs. Diferente de vc, nunca tive vontade de ter filhos e vez ou outra tenho que enfrentar gente me olhando como se eu fosse um ser estranho ou sem alma, amor ou coisa parecida. É um saco. Sempre repito….não, não tenho nenhuma limitação física, não tenho medo e não quero bancar a revoltada…não..simplesmente nunca ouvi o tal do “chamado”. No entanto, não descarto a possibilidade de que um dia eu possa ter vontade. Enfim, se um dia o desejo chegar, espero saber lidar com isso c/ alguma tranquilidade. E se nunca chegar, espero que parem de me olhar como “a desalmada”….rs…acho que quero escrever um dia sobre “não quero ser mãe e daí?”…rs…..beijos!!

    • dou a maior força. A gente já tinha falado disso, né, Mayara? Porque isso é outra face da mesma moeda: “cooomooo, não quer viver o sagrado-sublime momento de ser mãe?” O problema – além de outros – é que não é “o momento”, amigo. É pra vida toda. Não dá pra desistir no meio.

  4. Renata, seu texto lembrou-me de uma experiência por que todos meus colegas de infância passaram. Aquele momento em que a gente, babando, descobre as meninas desabrochando com seus sutiãs, e em que tudo o que sugerisse sexo – um lápis entrando no estojo, um dedo entrando no nariz (!), o mais que prosaico verbo comer – era divertidíssimo. Certa feita, um professor de ciências, ao ouvir todas aquelas baboseiras infanto-juvenis, anuncia com escracho: “vocês acham que a mãe de vocês não trepa?”. Rá! Era preciso ter gravado a cara espantada daquela meninada, ter fotografado aquele silêncio epifânico, e, mais ainda, ter botado em crônica o esforço a que muitos de nós se dedicaram em reativar a máquina maternizante da mulher-mãe.

    • hahaha, adorei o comentário, Felipe! E isso me lembrou uma história pessoal – quer dizer, pessoal da minha irmã, que pelo visto é assunto nesse post: um dia ela e os amigos (em torno de 13, 14 anos) falavam disso. Todos achando que os pais não perpetravam mais esses atos incômodos. Menos ela, que não só achou que os dela, sim, transavam, como pegou o telefone na mesma hora e ligou pra minha mãe. Diante da resposta afirmativa, inda prosseguiu: “e vão transar hoje?” ;)

  5. Ah, Rê?! Também não pode ser assim tão radical…rsrs. Tudo bem que não precisa ser um teatro esse negócio todo de ser mãe, mas um tempo atrás eu estava lendo um texto que falava justamente sobre isso. O texto descrevia uma pesquisa científica/biológica que mostrava que tanto a recém “mamãe” quanto o recém “papai” tinham uma mudança na sua carga hormonal que levava tanto o homem quanto a mulher a um temperamento mais calmo, mais tranquilo, de proteção a sua prole (ou filhote). E que isso acontecia com grande parte dos mamíferos. Ou seja, o estado de se comportar como “A mãe” cor de rosa, pode ser nada mais nada menos que um efeito – em alguns casos – de uma mudança hormonal na mulher que as torna mais feliz, calma, tom de voz baixo e etc. Até os pais também mudam segundo essa pesquisa, o que não seria o ser “A mãe” boazinha um estado anti-feminista ou um efeito “padrão” de “representar”, artisticamente falando, o papel de ser “Mãe”. Apoio as feminista, mas é tão bonito ver aquela mãe toda boazinha com seu filhote…rsrsrs.

    • Olha, a questão é que não lido aqui com biologia, Raphael. Sendo totalmente sincera, aliás, se tem algo que me tira do sério é querer tratar de gente, construída na sociedade e na cultura, como ser biológico… não entendo nem me arvoro a dar palpite sobre o assunto sob essa ótica. O que sei é que essa mãe cor-de-rosa não me representa. Mais: não conheço, não sei quem é, nem simpatizo. Sou mãe e tenho montes de grandes amigas mães. Nenhuma delas vive flutuando nesse mundo cor-de-rosa aí… sinto muito se tiro suas ilusões… mas realmente acho que essa mitologia particular é extremamente nociva. E não estou falando de feminismo, veja: estou falando de ser mulher. Só isso… beijos!

    • Raphael, olha só, para o seu governo eu tive uma filha e no pós-parto desenvolvi uma pressão alta violenta, não foi nada dessa calmaria aí não, foi é uma paulada! Só lhe pergunto uma coisa: se é pra escolher entre o que dizem os biólogos e o que você vivencia na prática, com qual dos dois você ficaria? Pois eu tenho a minha vivência, mais forte do que essas teorias aí… E Renata, seu texto tá muito bom! :)

  6. :) Adorei. Penso bem como você. Odeio essa imagem divinizada e assexuada “A Mãe”. Mater dolorosa. Acho que se tornar mãe não significa deixar de lado tudo o que já se era. Erro feio. E arrisco dizer que os seus filhos estarão muito mais preparados para o mundo, quando chegar a hora de bater asas, que os dessas mães que passam a viver unicamente para eles desde o nascimento, como se esse fosse o papel de suas vidas.
    Beijos!

    • Olha, Bárbara, eu muitas vezes acho que dei muita sorte de ter sido criada do jeito que fui, com a mãe que tive e frequentando o grupo de mulheres que eram amigas da casa. Gente que, para além de desafiar montanhas de estereótipos, era sobretudo gente que gostava da vida. Que tinha e tem prazer com a vida. Os filhos entravam nisso, claro; mas não substituiam nem eram justificativa pra nada. E espero, sim, que os meus tenham a certeza do meu amor e da minha presença. Sabendo que eu sou gente como eles. E não uma divindade cujo propósito é exclusivamente estar ali para ampará-los… talvez seja mais difícil. Mas acredito que é mais proveitoso também. :)

  7. Adorei td, principalmente e final hahaha. Acho que realmente as pessoas não acreditam que aquele “anjos” de mãe, com aquele barrigão possa ter falado coisas chulas e ter gostado de fazer safadezas para conceber uma criança. Chega a ser incoerente essa forma de pensar das pessoas. Mães são mulheres e nem todas elas querem ser mães. :)

  8. Renata, excelente texto, comme d’habitude, né?
    Ser mãe não precisa ser uma violência contra nós mesmas. É uma aventura enorme e a gente tem que estar ali, né? A gente, não o papel que nos passaram.
    Um beijo, querida.

  9. hahahahaha

    Adorei. A minha cara, sério.

    Quando fiquei grávida, me senti muito, mas muito incomodada com essa “aura de santidade” que, de repente, passou a me permear quando a barriga começou a despontar.

    Vi isso mais claramente na Marcha das Vadias. Eu lá, toda serelepe nos meus sete meses de gravidez, com a barriga pintada “sou livre, sou vadia”, de repente me tornei o centro das atenções. Todos queriam tirar foto comigo, me entrevistar… a Grobo bendita me entrevistou, mas censurou o barrigão. Já a Record usou o mesmo como artifício para fechar a matéria com um pouco de sentimentalismo.

    Impressionante, por causa de uma barriga – eu me tornei de repente um símbolo de quem estava lá. Como se mãe não marchasse, não lutasse por direitos, não fosse vadia… como se a Virgem Maria estivesse lá “abençoando” a luta. E aí foi esquecido meus anos de luta em direitos humanos, minha atuação no Nossa BH, na Rede Social de Cidades… esquece, o que estava lá era uma MÃE, isso que era importante.

    Com apenas 30 dias, saio com o Leon na rua e todos continuam me olhando como se eu fosse algo sobrenatural. Hoje me falaram: nossa, está com cara de mãe!

    O que é cara de mãe? Cara de quem não fala palavrão, não toma porres, não fuma nem trepa? Ah, tenho essa cara não. Sempre tive cara de sem vergonha. No máximo estou com cara de cansada, morta, estrupiada, de tanto sono que ando.

    É isso aí. Estou amando ser mãe, mas continuo sendo Adriana Torres, chata, prolixa (olha o tamanho do comentário), briguenta, geniosa, apaixonada, a mil por hora… enfim, continuo sendo eu, ser único, nem tão boa, nem tão má, bem mais ou menos, mas acima de tudo, eu. O ser mãe é só parte do processo.

    Beijos Re!

    P.S Não sei se viu a foto LINDA que o Tulio Vianna fez na marcha da minha pessoa, mas vale a pena espiar: http://www.adrianatorres.com.br/viajando-na-maionese/sou-livre-sou-vadia.html

    • Putz, Dri, amei seu comentário. Arrepiei aqui, juro. Tudo o que eu queria dizer, na prática… tudo o que eu senti, de novo. Era isso, era isso… e se eu tivesse lembrado, se eu tivesse pensado, tinha botado a sua linda foto pra ilustrar o post. Mas foi bom assim, você deixar o link do seu texto, que vale tanto a pena ser lido. Que complementa o meu tão bem. O que te aconteceu na Marcha das Vadias é emblemático disso que me assustou tanto quando eu tava grávida. Exatamente. De repente você não era mais você, mas uma representante da categoria “grávida”, e por isso o choque, o impacto, o uso da barriga pra comover. Duro de engolir, quando a gente tem história e coisa pra dizer. Por mais que a gente esteja feliz de engravidar, de parir, de cuidar dos pequenos. Beijo grandão, companheira, a gente continua na luta. Quem sabe um dia isso vai mudando. Né?

  10. Eu um dia também vou escrever um livro sobre o lado nada cor-de-rosa da gravidez, de ser mãe. Pra que as mães de carne e osso saibam e entendam que as coisas que sentem não são anormais, que todas nós já tivemos vontade de largar aquele bebê chorando e sair correndo que nem umas malucas, que todas nós choramos enquanto fazemos nossos bebês dormir, de cansaço e de amor.

    Eu sou uma mãe meio ‘anormal’. Eu não sinto culpa. Nunca! Não me violento pra ser a mãe de revista! Sou a melhor mãe que eu consigo ser, preservando a minha individualidade, as minhas vontades, e aprendendo a lidar com as frustrações que, por ventura, a maternidade me traz. Sou uma mãe feliz, e só mãe feliz faz filho feliz! :)

  11. “Um mundo onde as roupas de pessoas adultas são meio de bebê grandão, onde você é olhado com afeto e certa condescendência por estranhos (e sobretudo por estranhas), onde todo mundo acha que pode passar a mão na sua barriga, e onde se espera que você paire pela vida com um sorriso beatífico nos lábios: sorria, você agora não é mais você. É A Mãe.” – taí a coisa que eu mais odiei/odeio em ser mãe: os olhares, o “direito” que os outros passam a ter automaticamente sobre o seu corpo – e aí de você se reclamar! Vira automaticamente a reclamona, a anti-social, a chata, “aquela que não serve para ser mãe”. Quanto mais a barriga cresce, mais pública ela fica – odeio. E a obrigação de estar sempre feliz? Experimente reclamar que não dormiu, que está cansada, que o menino gritou o dia todo – só vale se for com um sorrisão no rosto, senão você é automaticamente a “mãe desnaturada”.
    Olha, bom demais o seu texto. Tenho certeza que muito mais mães do que a gente imagina pensam tudo isso que você falou, mas ficam com medo de admitir e ganhar um carimbão na testa de “não serve para ser mãe”.

    • Olha, Carla, tô adorando os comentários por aqui. Escrevi esse achando que ia levar muita pancada… mas pelo visto tem mais gente incomodada com essa coisa esquisita aí! Viva!

  12. Mais um texto muito legal porque me pego pensando que em várias instâncias também me vejo obrigado a ser algo que a sociedade espera de mim e não correspondo porque simplesmente não quero, porque simplesmente sou mais indivíduo que qualquer tipo de tradição ou convenção social. Perdoe-me, mas pras picas com esse negócio de ficar num quadro, todo modo de vida tem de ser reinventado. Beijos, Rê!

    • Pois é, Dandi. Esse daí é um bem difícil, viu. Tanto peso, tantas expectativas em cima desse estereótipo. Vai demorar um monte pra desmontar… beijo grandão! :)

  13. Eu gostei do segundo trimestre de gravidez, mas os outros foram marcados por um grande choque…primeiro vc realmente deixa de ser vc e passa a ser – A Mãe, como bem colocou Renata. Uma das coisas que me incomodavam bastante quando encontrava alguém era a pergunta: – Oi! Como vai o bebê? Já não era mais “Oi Josy! Como vai?” Deixa-se de ser uma pessoa, eu ficava tão chateada e respondia: “ele deve estar bem, come e bebe de graça…agora eu estou super enjoada…”rsrsrs…Ser mãe, não é esse mundo beatificado e cor de rosa, mas um sentimento que você tem por uma outra pessoa ou pessoas…que um dia vão crescer e ter opiniões diferentes de você. Eu penso isso, pois minha mãe tem essa relação e visão de ser “mãe toda feliz” e não aceita de forma algum filho discordar de suas opiniões..

    • Hahaha adorei a sua resposta, Josy! Realmente, a sensação é bem essa. E continua depois do bebê nascer, quando todo mundo acha que você deve estar sempre com um sorriso idílico… o blog e o livro que indico acima ajudam a entender que tem mais gente como a gente. Mas precisamos de muito mais. Beijo!

    • muito bons os posts, Diana. E, sim, “início de longa caminhada”… boa sorte nela. Dá pra fazer, mas é exercício diário mesmo. Hoje meus filhos estão com 18 e 12, e acho que foi um caminho bacana até aqui. Não foi simples nem fácil: mas foi intenso e com muito amor envolvido. Amor, desconstrução, angústia, tensão, alegrias, comemorações, compartilhamentos… vida se deixando viver. Beijos!

  14. Gostei tanto, Re.

    Perfeita a imagem de ser gradativa, tácita e quase inescapavelmente arrastada para esse mundo cor de roa sem matizes, sem contrastes… (enquanto do lado de dentro o termômetro enlouquece, a anatomia perde a razão, sombras e cores aparecem numa intensidade quase sufocante – você precisa lidar, e só você; e é na delícia e na dor, é no medo e na realização absoluta, na realização do absoluto, do irreversível, o ápice do concreto.)

    …e com que eficiência nos empurram! Os olhos que esperam a emergência da mãe – esse ente que todas deveríamos ter (embrionário) em nosso íntimo – são vigilantes e não perdoam a infelicidade, o vacilar das ideias e dos humores injustificados. Esqueça as suas angústias e seus desejos, rasgue seus velhos cadernos, aposente a lingerie, resolva-se com seus fantasmas: agora você é uma cápsula do perfeito ser humano, cândido, quase imaculado. E assexuado.

    Esqueça que você é mulher. Não se deve, não se pode olhar para uma grávida de outra forma que não sob esse filtro tenro, como uma luz quase celestial.

    E todo ato, todo gesto, cada simples movimento ou olhar que rompe com isso é resistência, é uma pequena revolução.

    • Impressionante, né, Lu. Como parece tão pequeno, como é mesmo resistência. O mito da grávida cor-de-rosa e intocável está tão vivo nessa nossa cultura. Ecos da Virgem Maria mesmo. E a gente – que continua sendo -, perdida no meio dessa imagem na qual a gente não se reconhece. A santidade da mulher grávida é também sua despersonalização. E, como você diz, uma redução a cápsula.
      Um beijo, querida. Visite sempre! :-)

  15. Rê.

    Adorei o texto. Eu também sempre quis ser mãe, sempre. Eu era uma criança que adorava ajudar a cuidar de outras crianças, ficava perguntando tudo sobre os bebês que encontrava na pracinha e o dia o qual lembro como o mais feliz da minha vida foi quando vi o meu irmão Bruno pela primeira vez, eu tinha cinco anos. Ele era rosinha, com uns olhos muito pretos de jabuticaba e eu sabia que ele era meu. Também sempre adorei bonecas, bebês, brincava que estava fugindo com meus filhos de alguma guerra, alguma tragédia. Eu sempre quis ter filhos nova, dizia que no máximo até os 26 anos eu queria ter um bebê, não importava se estivesse solteira. Mas quando eu tinha 20 anos, veio a Nina, a minha menina. Não, não é minha filha, é minha irmã. Como minha mãe não parou de trabalhar e eu fazia faculdade de noite, ficava o dia cuidando da Nina, olhando a Nina, carinhando a Nina, cheirando a Nina. Cuidei dela até os 2 anos, e nunca achei nem um pouco difícil, nem um pouco pesado. E achava o máximo levá-la pra tudo quanto é quanto e acharem que era o meu bebê. Quase morri (quase morremos) porque eu me mudei para Vitória. Nunca tinha sentido uma saudade assim, entramos as duas em depressão, e eu gastava todo meu salário em passagens de avião. Foi muito por ela que voltei, 3 anos depois. Moro em Porto Alegre e visito a Nina de, no máximo, 15 em 15 dias. O cheiro dela é o melhor cheiro do mundo. Continuo muito querendo ter filhos, claro, e já estou com quase 4 anos a mais do que aqueles 26. Meu único medo é faltar grana, preocupação que eu não tinha quando cuidava da Nina, por isso talvez achasse tão fácil. O estranho de tudo isso é que eu nunca tive vontade de estar grávida. Nunca tive medo também, nem acho que enfeia, nem que nada. Para mim não faz a menor diferença. E como não faz diferença, deixo essa coisa de parir pra quem tem esse desejo. Quero ter filhos, mas quero adotar, um parir pelo querer. E quero que a minha irmã-mais-nova/filha-mais-velha me ajude a cuidar.

    Adorei teu texto. Desculpa pelo comentário gigante, mas fiquei com vontade de te contar.

    Beijo,
    Bê.

    • Que comentário lindo, Bethânia! Amei conhecer a história, sua e da Nina. E vê, eu também tive um irmão de olhos de jabuticaba, e até hoje lembro de quando ele nasceu. Eu tinha dois anos, ainda nem (ia fazer dali a cinco dias), e me lembro do berçário, eu olhando encantada aquele bebê no berçário, que era o meu.
      Mas eu adorei estar grávida, vê: adorei mesmo. Eu, o bebê na barriga. De cada uma das duas vezes. Meu estranhamento era quanto ao mundo lá fora: o que eles achavam que era ser mãe. Como eles achavam que eu tinha que me comportar, grávida. Quem achavam que eu tinha que ser. Porque eu, grávida, era apenas eu. :-)
      Beijo enorme!

  16. Me identifiquei muito com o texto! Tenho uma mãe parecida com a sua “fora dos padrões” e um irmã com seis anos de diferença na qual também treinei um pouco rsrs. E vivo me perguntando quando eu for a próxima presenteada pela cegonha, o que é ser mãe?
    Abraços!

  17. “Quando me perguntavam, por exemplo, “já sabe o que é?” eu respondia: “sim, é um bebê!”.”
    ehehehehehehehehehh Adorei, Clara.
    Renata, agora falta um post sobre “filho de biscate”. Lembrei-me de vc contando do seu filho falando sobre o blog para os amigos. Pareceu-me que ele sabe bem que vc é mãe dele, mas também é vc. É uma pessoa só, mas relações diferentes (se é que me faço entender).
    Então, me parece que vc é uma boa mãe, uma excelente pessoa e uma ótima amiga ;c)

    NB – Rita, claro que o “comme d’habitude” foi mera coincidência. ehehehehehehheh
    Deborah, cadê vc que tb quer ser mãe?

    • Ai, Claudio, comentário desses de esquentar o coração.
      E, apesar da dica ser boa e pertinente, tenho certo pudor de escrever sobre eles. Os filhos. Os meus. Quer dizer, lá no meu bloguinho já escrevi, mais de uma vez. Mas é menorzinho, né? Aqui… mais delicado. Maior visibilidade.
      E <3 por todos os elogios, não sei se merecidos mas recebidos com alegria e gratidão. :-D

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