Manga madura

“Já somos adultos” – lembrou ela, fitando a paisagem da janela.
 
Sentada à beira da varanda, a vida lhe passava em poucos segundos.  A vida num piscar de olhos, correndo grande sem contar porque o segundo que lhe espiava era inteiro, e porque o mesmo segundo já não existia mais. Porque tudo cabia neste respiro, onde o expirar quente evaporava-se no ar.  
 
De repente, ela era adulta. De repente tudo tão breve. E a sua vida construída assim, meio sem querer, sem conseguir parar o tempo que escorria pelos seus dedos. Os anos somaram-se no calendário. Já haviam juntado o 3 ao 4, um junto ao outro. Já haviam lhe dado um filho com anos acumulados em quase todos os dedos de sua mão direita.  Já haviam lhe colocado desafios para mais anos de compreensão, que nunca acabariam em entendimento.
 
Os anos passavam, e contavam-lhe que a vida chegava à maturidade – com o cheiro de manga madura que invadia seu quintal. Maturidade de mulher adulta que, quanto mais vive, mais consegue contemplar o que não sabe. Que, quanto mais segue, menos tenta segurar-se nas certezas expiradas.
 
Ela espantava-se. A maturidade chegava-lhe assim, tão silente. Tão branca, e cheia de dentes. Tão sem respostas. Tão nova em meninices, tão cheia de interrogações e perplexidades. “A maturidade, talvez, fosse aceitar o espanto”, pensou com certo alívio. 
 
Esticou-se na rede, na noite fresca que ventava calma para a madrugada. Os pés arejados reverenciavam a lua, e o balanço devagar de seu corpo fazia breves ruídos de mosquito. Tudo estava ali, sim, tudo estava ali. Tudo escuro e saboroso como as mangas que caiam no chão de terra, cumprindo seu ciclo com a natureza. 
 
O cheiro invadia os arredores. Cheiro de manga madura, escorrendo líquido doce. Ela madura na varanda, balançando suas incompreensões. O cheiro vivo, a grama molhada, o frio que invadia seu coração.
 
Ela andava calma naquelas noites de raios e chuvas bravas. Estranhava-lhe a sua calma diante do caos, o seu corpo inerte sem tentar nadar contra a correnteza. Estranhava-lhe estar no fluxo sem se debater, flutuando em constante transformação. Aberta para o mundo que lhe abraçava o pensamento, sem rotas planejadas. O mundo maduro do espanto.
 
Abraçou seus medos. Eles estavam calmos, deitados no fundo do peito. Nem eles eram mais os mesmos. Caiam do pé da mangueira e abriam-se, já passados, para serem comidos pelas abelhas.
 
“É preciso cultivar o próximo ciclo das mangas”, lembrou-se. Agora passaria o tempo, a árvore ficaria nua, a lembrança do gosto doce ficaria no ar. Passaria o tempo, ela adulta, ela madura em medos comidos e novos caminhos de liberdade. Ela incógnita diante do espanto. Silente e inerte, contemplando a beleza dos ciclos que a invadiam e seguiam seu curso assim, sem aviso e sem descanso. Que chegavam ao fim, e anunciavam novos e esvaziados começos. 
 
“A vida é mesmo embalada por esse movimento”, aceitou. Aceitou os fins. Aceitou as unhas que caiam, e nunca mais cresciam as mesmas. As mangas que despencavam amarelas, quase laranjas, e nunca mais nasciam as mesmas. A mudança do que já não é mais, e nunca mais poderá ser. 
 
Descascou a fruta e mordeu sua carne felpuda. Os fios emaranhando-se nos dentes, os pés cobrindo-se do frescor molhado da grama. Saboreou o que podia tocar naquele momento. O doce, o verde, o escuro. Momentos fartos que antecediam a estiagem. Enfastiou-se.
 
Sobrou apenas o espanto, duro e cru como o caroço da manga – que agora roía com dentes afiados.
 
É. Ele não se come. Apenas se planta.
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