O monstro de olhos verdes

A primeira vez em que vi essa referência do título – foi quando li “Glorinha Radioamadora” – eu nem sabia do que se tratava. Depois aprendi, sempre por meios transversos – acho que lendo Agatha Christie, onde aprendi tanta coisa. Há nos livros dela várias referências a Otelo, a Iago, ao “green-eyed monster” do ciúme. Ciúme que leva Otelo, fora de si, a  matar Desdêmona, para depois descobrir que era tudo invenção de Iago, e que ele tinha se deixado levar. Shakespeare sabia do que estava falando….

Gosto da imagem do monstro de olhos verdes. Porque é um monstro. Um monstro que pode matar, em circunstâncias extremas, mas nem precisa matar pra fazer tanto estrago. E aí, a minha pequena reflexão viaja pela seguinte linha: o monstro de olhos verdes mora dentro de tantos. Poucos são os bem-aventurados que podem dizer, sem piscar, que não sentem ciúmes. Esses são felizes e esse texto não lhes dirá nada. Mas o comum dos mortais, ah… o monstro de olhos verdes mora dentro deles. Tá ali, à espreita. E a gente não precisa nem de Iago pra fazer fofoca e falar mal de Desdêmona: muitas vezes, Iago tá ali também, internamente alimentando o monstro a partir das pequenas atitudes. “Será? Ele olhou… ela fez… ela falou de um jeito… será?”. E tome tortura interna. E tome queimação de estômago.

Dor. Incerteza. Aperto no Peito. Quem nunca? Faz parte. Noites sem dormir, olheiras. Choros. Bares da vida. Faz parte. Tudo isso faz parte.

Mas o que me seduz na imagem do monstro de olhos verdes (“olhos verdes são traiçoeiros”, como na quadrinha que eu aprendi criança), é essa idéia. De que é ruim. De que é feio. E aí, não tô querendo sugerir que a gente – a galera, a torcida do Flamengo, o comum dos mortais – passe pro outro time: nem sei como seria isso. Controlar emoções? Se dá pra fazer, ainda não aprendi. Em compensação, pode-se, sim – e aí é que está o pulo do gato, pra mim – pacificar o monstro. Acolhê-lo, confortá-lo, e depois dizer “fica quieto aí. Não dá palpite.” Isso dá.

Em vez de gastar energia regulando o outro, vigiando o outro, observando o outro – o que, vejam, já saiu da esfera do sentimento: agora é de ação que a gente está falando -, que tal respirar fundo e tentar dar uma acalmada no monstro? Que tal ir dar uma caminhada, fazer algo que lhe dê prazer, encontrar os amigos e conversar, comer bolo de chocolate, chorar até se afogar… mas deixando o outro em paz? Tentar lembrar que a gente não é dono, que o outro é outro e que isso implica liberdade – mesmo se a gente for casados, mesmo se a gente morar juntos, mesmo se houver compromisso?

Estou falando de ciúme e da dor que a gente sente. Não estou falando do que o outro fez, que isso fique claro. Isso não importa pra conversa aqui. Porque no caso de Otelo e Desdêmona, ela não tinha feito nada e era intriga de Iago. Mas e se tivesse? A morte dela seria justificada? Claro que não, e aí é fácil porque é de morte que a gente está tratando. Nesse caso é fácil ver e tomar posição. Só que a vida é feita de zonas cinzentas: intenções, fantasias, encantos, frissons. É no mundo das zonas cinzentas que a gente tem que aprender a navegar. A gente não é dono do outro, nem do desejo do outro, nem dos sonhos do outro, nem da intenção do outro. A gente sempre soube disso, mas age como se fosse, tantas vezes. Deixa o monstro de olhos verdes decidir em nosso lugar, agir em nosso lugar. É aí que pega.

O respeito ao outro, a meu ver, passa por entender isso. Por entubar que a gente não é dono e agir em conseqüência. Estou falando de pequenas coisas. Não preciso saber onde vai, nem a que horas volta. Não preciso saber dos telefonemas, não quero a senha do computador. Não tenho foto de feicebuque conjunta. Não sou amiga de todos os seus amigos, nem ele é amigo de todos os meus – e, se é assim, seria óbvio (mas tantas vezes não é) que haja dias em que eu quero sair só com meus amigos, que ele quer sair só com os dele. Tem coisas que eu não conto, tem coisas que ele não conta. Pequenos gestos. Mudanças de leve. Uma forma de respeitar, de dar espaço. Sutil e poderosa. Difícil e compensadora. O outro é outro e merece respeito em sua integridade.

E, de novo, não tô dizendo que não dói. O nosso mundo da propriedade privada, em que casamento é um negócio onde ficam definidas as posses de cada um e as conjuntas, o mundo onde “exclusivo” é algo positivo, empurra a gente pra tentar ser dono do outro. A gente cresceu nesse mundo, é aí que a gente vive. Inevitável ter ciúmes, acho. Mas e daí? Daí nada. Respira que passa. Vai tomar um copo d’água. Se distrair. Ler um livro. Ver um filme. Vai botar energia fora, jogar bola, socar saco de areia. Ciúme é inevitável, é certo. Mas o que se faz a respeito é escolha sua. Minha. De cada um.

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29 ideias sobre “O monstro de olhos verdes

  1. “Tentar lembrar que a gente não é dono, que o outro é outro e que isso implica liberdade”. Engraçado… tive uma longa conversa outro dia com um amigo, casado, sobre isso. Sempre digo que o grande erro é encarar o casamento como certificado de posse. Ser privado de liberdade é sufocante. Tão sufocante como ciúme exagerado. Não entendo como tantas pessoas conseguem viver assim. Eu não conseguiria. Sou bicho solto. Se um namoradomarido começasse a implicar porque abracei um amigo ou saí sozinha com uma turma que não tem nada a ver com ele, mas tem comigo… Provavelmente ganharia um cartão vermelho…

  2. Se há uma coisa que aprendi desde muito pequena, até nem sei se alguém me ensinou, foi de respeitar a privacidade de outros, a liberdade dos outros, os espaços dos outros.. e por pensar assim e agir dessa forma, ás vezes ( muitas vezes) fui taxada de indiferente, de não amar como convinha… sofri o reverso da história, com ciumes, desconfianças e palavras duras que não gosto de lembrar. Belo texto Renata!!!!

    • Difícil, né, Su? Eu tava com vontade de escrever sobre isso há tempos. Mas é tão delicado. Toca em uns tabus… feliz que vc tenha gostado!!!! Beijos!

  3. Rê, queridona.
    Estou te devendo há quase um mês (ou mais) as boas vindas ao BSC. Não que precises delas, mas porque eu quero te dizer que estou amando te ter todos os sábados aqui e que qualificas demais a biscatagi coletiva.
    Começo comentando nesse texto porque foi o primeiro que li (li há algumas horas, mas estou longe do meu pc e comentar do celular é osso) e porque esse assunto me diz respeito agora… Sempre me defini como alguém não ciumenta, mas possessiva. Rá!!! Não curto sentir ciúme, no meu caso ele é proveniente de insegurança, e se eu já sou meio maluca (sendo bacana comigo mesma) e descontrolada estando segura, imagina insegura. Corrão! Mas eu sou de tomar posse, embora odeie dar posse de mim a quem quer que seja. Não estou falando de controle da vida do outro, de horários, amizades, telefonemas ou mesmo de não deixar o outro viver, mas de querer exclusividade sem precisar oferecer o mesmo. Sinuca de bico, eu sei, e é injusto. Mas é assim. :(
    Teu texto serviu como um enorme puxão de orelhas e sacudida.
    Grata. ♥

    • E como a srta. não faz nada pela metade, quando comenta vem esse super-hiper-mega com direito a revelação e tudo…! Fico muito feliz pela acolhida, pra mim tá sendo uma experiência fantástica escrever e conviver com vocês aqui no Biscate (e fora…!) . :)
      E é isso, flor, o texto fala mesmo disso que você aponta aí: posse, ciúme, “desejo, necessidade, vontade”…
      Acho que a parada é essa mesma: não fazer de conta que não existe, acolher o sentimento e “amansá-lo”. Serve pra posse também. Piano piano si va lontano… beijos e boa sorte pra nós!

  4. Gostei muito. Tragédia -> Aristóteles -> catarse -> alívio. Chico. “Olhos cor de ardósia”. Ele rindo. Música. Música de me-nina. Sambar em paz. Paz = alívio. De novo. Verde. Cor predileta. E meus olhos. Gosto, tenho orgulho. Ciúme não presta, no mau sentido. O ciúme lançou sua flecha -> o Grande Chico (traveiz) -> rio -> curva de rio -> cobra. Não me cobre. Salto fora, salto longe. Ozóio da cobra verde / hoje foi que arreparei / se arreparasse há mais tempo / não amava quem amei…

  5. Essa coisa de ciúme fui aprendendo na vida. Com o 1º namorado nenhum do dois podia olhar pro lado e foi mais de um ano de tortura. Tortura senimental, pq ñ podia vê-lo conversar com ninguém, e a tortura q vemdo outro lado, pq eu ñ tinha direito de ter amigos. Muita doença para meus 17/18 anos. O 2º namorado foi coisa mais solta. Biscateei batante no intervalo. Eu tinha 21 e ele saia pra onde bem entendesse sozinho. Me traiu, eu perdoei, mas qdo me viu em conversa animada com um cara boa pinta, deu piti e o namoro desandou. Aí os 9 anos de casamento tataram de ensinar o resto, que ainda tô aprendendo… E é muito fácil falar de liberdade e de ser de si mesmo qdo estamos olhando do lado de cá. O q mais tenho aprendido é q meu marido tb ñ é meu, q ele tb pode olhar pro lado, ser curioso, ganhas sorrisos de admiração. Pq se eu admiro, o resto do mundo tb tem olhos e percepção, tb vê esse cara legal. E se eu vejo no resto do mundo um monte de outros caras legais, também tb vejo um monte de biscas interessantíssimas, e ele tb consegue ver. É difícil assumir isso, mas é de uma riqueza q ñ tem tamanho.

    • Mas Paula, você entendeu que o texto falava de algum lado? Porque o que pretendia, o que tava na minha cabeça era tanto o lado de cá quanto o lado de lá. Todos os lados. Em cima, embaixo, na frente, entre. Enfim. Viver é muito perigoso, já dizia Riobaldo Tatarana nas veredas do Grande Sertão. Pra todo mundo. Mas minha idéia é que não há opção: o negócio é viver ou viver. E tar na vida implica entender que alteridade compreende independência. Mesmo que a gente tenha a ilusão de que, guardando o outro em uma redoma, ele vai ser nosso pra sempre. Não vai. E nunca foi.

        • Ah, então tá ótimo! :) É que fiquei na dúvida quanto ao final do seu texto… se era pra mim ou se era parte da sua reflexão. Que aliás achei ótima e nem comentei antes. Acho que tod@s nós temos uma história parecida pra contar… e a atenção é permanente pra não cair de volta em velhos padrões. Porque tudo leva ao casamento como “submarino de controle”, né. Sair disso exige consciência e exercício diário de desapego…

  6. acho interessante q todo mundo tende a ter pena de quem tem ciúme (doi, etc), mas ninguém fala da dor de quem é o alvo do ciúme.

    Eu já fui ciumenta, mas deixei de ser quando algumas experiência me mostraram que ciúme é, principalmente, uma manifestação de desrespeito com o outro. É também manifestação de insegurança, sentimento de posse e paranóia. Não tem absolutamente nada a ver com amor.

    Eu sofri sendo ciumenta no passado. Mas, sofri muito mais por ser alvo de ciúme. A sensação não é nada boa: vc tá ali, num relacionamento com uma pessoa q você ama, e, do nada, a tal pessoa q vc ama acha q vc vai sacanear ela. Sim, essa mesma pessoa q vc ama.
    Porra, que troço mais sem noção. Por que eu estaria me relacionando com alguém se a minha intenção fosse sacanear esse alguém?
    Pra mim é uma falta de respeito comigo e com os meus sentimentos. E pior, quanto mais você demonstra que não tem ciúme, mais a pessoa vai ter. Porque na cabeça doida dela, se você não tem ciúme é porque não ama.
    Cara, esse assunto me tira do sério. Desculpa aí.

    • Comentário totalmente na mosca, Aiaiai. Nada de que se desculpar…
      eu acho – e tento no post e na vida fazer essa diferença – que sentimento é sentimento: se a gente tem ciúme, tem. É interno. Lembro por exemplo de uma vez em que estava num samba com um então recente namorado, que também era recém-separado, e flagrei seu olhar para a ex-mulher. O que eu senti foi perto de uma pancada no estômago. Mas ele nunca soube. E só saberá se algum dia chegar aqui, e entender que é dele que falo. ;) Aquele problema era meu. Como dele eram os sentimentos. Cada um com seu dodói.
      O que eu acho inadmissível (e é o que você comenta) é o “agir sobre” esse tipo de sentimento. Que é mesquinho. Que não tem a ver com amor, você tem toda razão. E isso a gente pode mudar. Mesmo que seja uma batalha de todo dia: pode mudar.

  7. É isso, se sentir ciúme, resolva sozinho, ñ encha o saco da pessoa q vc ama, que provavelmente tb te ama. Se acha q a pessoa ñ vai seguir o tal acordo de exclusividade, não faça o acordo. Se o acordo for importante para você, termine logo com o relacionamento. ñ desrespeite a pessoa e use a justificativa de que tá fazendo isso porque ama ela demais (sei…)
    O ciúme é um sentimento inútel poque é simplesmente impossível você tem absoluta certeza de que a outra pessoa não terá sentimentos, tesão, vontade, ação etc com um terceiro ou quarto kkkkkkkkkkkkkkk.

  8. Pingback: Inventário de uma alma rebelde, de bisca |

    • Que bom que você gostou, querida! Isso é uma história de aprendizado pessoal.. de conseguir viver conforme minhas próprias crenças! Difícil, mas compensa, acho.

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