Quero Ser Biscate!

*Alessandra Trindade

Nunca pensei que pudesse um dia ter como objetivo ser uma biscate. De onde venho, aliás, nem era comum o adjetivo ser direcionado à mulher (ou seria contra a mulher?) como sinônimo de puta.

Na fronteira oeste do Rio Grande do Sul – confirmem ou desmintam as conterrâneas que porventura vierem a ler este texto  – biscate é trabalho de ocasião ou, conforme o dicionário, “serviço pequeno e avulso; bico, galho, gancho”.

As putas eram  chamadas  pelas “pessoas direitas” de “a outra”, a “amante” (ou, para soar mais ofensivo,  “a amante de homem casado”), a “vagabunda”, a regional “china”, a rampeira, a prostituta  e – claro! – a própria “puta”.

A realidade por lá parece ser experimentada de um jeito bem peculiar, restringindo-se as opções  a um leque estreito de possibilidades simplistas. O machismo predomina na cultura local com a mesma naturalidade do nascimento, da doença ou da morte; afinal, é porque é, quem não vê? Falando em olhares, se quiser experimentar  os de julgamento, opte por  “sair dos trilhos” e ser mãe solteira, casar grávida, casar mais de uma vez, ou ainda, simplesmente, não casar.

De onde venho,  ou se casa, ou se fica solteirona (chiba, no linguajar típico), ou se “anda com”.

À boca pequena (ou nem tão pequena assim), corre o equivalente:  “Fulana, filha do seu Sicrano, anda com o marido da Beltrana”. No caso, o marido é no máximo tachado de “sem-vergonha” e a mulher, chamada de esposa,  é a vítima. A Fulana? É  a puta, ora! A ela cabe o papel de vilã da história, malvada destruidora de lares (onde já se viu andar com homem casado?).  Se ela também é casada, além de puta, o marido é corno. Ah, a democracia do machismo provinciano! Verdade que não é lá muito criativa, mas contempla todo mundo com papeis previamente determinados e definitivos, como a marca que se faz no gado para mostrar a quem ele pertence. Nesse cenário, condenação sumária para a puta e seus descendentes – porque dela vêm os futuros filhos da puta, referenciados nas sucessivas gerações mais pela mãe do que por qualquer eventual mérito ou demérito que possam vir a ter.

Onde cresci, escapar do machismo equivaleria a negar preceitos básicos de educação. A despeito de quaisquer outras conquistas, o pressuposto para a completude feminina estava no binômio casamento-filhos. Durante muitos anos, o machismo restringiu meus horizontes, apresentando-se sob diferentes aspectos conforme a ocasião, colocando limites onde não havia. De tão presente era possível senti-lo, vê-lo e quase tocá-lo: ele diminui e machuca suas vítimas de um jeito que beira o palpável.  A consciência de que ele existia era menos apurada do que hoje, mas eu o identificava em suas formas mais grosseiras.  Triste reconhecer que outros corpos e mentes continuam sendo doutrinados por uma educação essencialmente preconceituosa.  Triste, porque traz sofrimentos desnecessários para os envolvidos, independentemente do papel que desempenhem.

Eis que as vivências se sucedem e nos moldam, mostrando situações com outras roupagens. O julgamento deixa de ser parte da história original e precisamos de disposição para ajustar o olhar à dimensão meramente humana dos personagens. Oh, sim, necessitamos não só de disposição, como de esforço, uma boa dose de humildade e outra maior ainda de desapego para reconhecer o engano e curar a vista viciada. Dói. Dói uma dor boa, necessária para adaptar o comportamento ao novo.

Ano passado encontrei este blog. Nele, a definição redentora:

“Biscate é uma mulher livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser”.

Como assim? Então somos, éramos e sempre fomos livres? O que fazer com o machismo enraizado?  Isso eu resolveria depois. Essencial era a decisão de querer ser uma biscate, abandonar a zona de conforto e degustar a liberdade proporcionada pela biscatagi. Levar a vida com leveza é típico de uma boa bisca. Ah! E ter amores – vários, de diversos tipos, por toda parte e por toda gente.  Além de amorosa, a biscate é satisfeita com o seu corpo, suas dores, seu tempo e sua história. Por justiça, ela dá ao outro, sem dó, os mesmos direitos e privilégios que arroga pra si.  Imperfeita, erra e aprende. Quase completa, nela cabem a esposa, a provedora, a mãe, a trabalhadora, a ativista, a puta e quem mais ela quiser ser.

Desde então venho me livrando das tralhas, rompendo velhas amarras e exercitando sempre que possível a fina arte de biscatear. Nem sempre é fácil, mas compensa: a cada elo aberto, uma libertação e a deliciosa confirmação de que ser biscate é bom.

* Alessandra Trindade, caótica, imperfeita, amante da vida, mãe, feminista, humanista, criatura curiosa e aprendiz esforçada (tudo junto e misturado). Facebook: https://www.facebook.com/alessandra.trindade4

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10 ideias sobre “Quero Ser Biscate!

    • Obrigada, Suzana! “Camanga” eu não conhecia. Peguei as palavras daí porque foi o lugar de boa parte das minhas vivências, mas suspeito que rotular mulheres seja bem comum mundo afora. Bora nos apropriar desses termos e ressignificá-los! Beijos!

  1. É … sou de cidade pequena e sei bem como é!!!!! Me identifiquei muito … quem dera um dia eu possa ter esse nível de consciência que vc atingiu e essa coragem. Acredito que estou em processo … mas sem prazo pra chegar lá. Adorei o texto, Ale!!Parabéns!!! A tua cara!!!! Forte e contestador!

  2. Adorei o texto. Realmente, é difícil se livrar das amarras. E como é triste, quanto mais nos libertamos, ver mulheres de todas as idades ainda carregando tanta tralha da cultura machista… Mas, enfim, vamos vivendo e tentando dar um bom exemplo!
    Em tempo: só a Suzana Dornelles pra puxar lá do fundo do saco a “CAMANGA”!!!! hahhahahha #MeMijandoDeRir

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