Do Adeus

Foi assim:
abri porta, peito, pernas,
e fechei os olhos.

do adeus

E por todo o tempo em que pensávamos que era chegada, eu já estava de partida. Eu nunca estive aqui. Eu nunca estive em ti . O corpo é triste depois do sexo, citávamos a sério como se fosse uma brincadeira e vasculhávamos o olho do outro, o corpo do outro, revirávamos as entranhas do outro, pra ver se nos víamos. Como em um estudo de anatomia comparada, matávamos os nossos quereres pra melhor conhecê-los. Esperávamos que, bem pensando, bem sentíssemos e insistimos em nomear.  Dizíamos olá com tal nostalgia que devíamos saber traduzir como até nunca. Um adeus. Mas nos vendávamos em erótica rotina de ignorar o só e nos conhecíamos no agora. Eu pensava que ficava e você nem me sabia tão longe. Seguíamos tristes, como se sempre estivéssemos a fazer sexo. E estávamos. Era constante noite quando eu te queria e não havia luas em mim. Eu ignorava o percurso e palmilhava teu corpo. Julgando encontrar-me em teu braço, corria ansiosa em direção aos abismos. O teu soluço de gozo, escuto em eco. E ainda desconfio que pode ser só o repetir do coração cantando o oco. E por todo o tempo em que pensávamos que era chegada, eu já estava de saída. Então, te dou as costas, como última insinuação de um abraço.

Felicidade é aquele intervalo
entre uma dor e outra maior ainda.

Eu me lembro do teu abraço. Não me cabia toda. Muitas coisas mal-ditas. Muitos silêncios. Um excesso de trajes. Eu lembro o teu abraço, meio de lado, apressado, atropelado em muitos ditos ansiosos. Eu lembro o teu abraço e de como eu queria ficar nele. Apenas isso: estar contigo. Te contar que a amizade é um amor. Mas você não acredita no amor. E todos os seus abraços são plataforma de estação na minha memória. Havia sempre a possibilidade da partida. Eu reviso letra a letra todos os abismos que construí. Porque, sim, eu carrego essa distância como uma culpa. Saber que a vida é maior que eu não me conforta. E eu demoro no nunca mais. Nunca mais não saber o que te responder. Nunca mais a conversa instigante. Nunca mais me saber no seu olho. Nunca mais querer acertar. Nunca mais rir tão fácil. Nunca mais comparar expressões. Nunca mais um novo velho filme. Um velho novo livro. Nunca mais Minnie. Nunca mais cangaceira. Nunca mais ir longe demais e voltar, assim, segurando firme outra mão. Aquela dor de saber que não nos lembraremos das mesmas coisas, talvez nem mesmo das que vivemos em conjunto.Eu sei que você tem esse sofrer. Uma dor que não é minha, feito um peso que não se pode dividir. Esse medo. Sei que o seu corpo se curva e sua testa se enruga nessa angústia tão mais material que a minha. E entender isso me dói tão mais. Por saber que meu abraço não te serve. Mas ele está aqui. Eu estou aqui. Querendo o de sempre: caber no seu peito. Mas não vou. E não fico.

Pode, por favor,
desamarrar os nós da minha garganta?

Seguro tua mão, com delicadeza. Aquela delicadeza que sempre encontrei no teu olhar. No seu olhar encontrei tanto, mas nunca me vi. E, olha, eu procurei. É isso que digo enquanto seguro tua mão. Tua mão, inquieta, reluta em se deixar amansar, mas eu insisto, suave, em tentar-me barragem, necessária aprendizagem de um fim. Continuo, como se houvesse sempre sabido o que dizer, embora agora a pouco já nada pensasse em falar e quisesse me deixar nos seus lábios. Mas não, digo, não é isso. Ou é e nós é que não somos. Ou somos, mas o tempo é que não fica. Sua mão desafia a minha e se faz pouso pro meu rosto. Faço silêncio, faço uma prece: que seja agora, então. Por favor, uma encruzilhada, por favor, por favor, por favor, porque quero tanto. Escuto: tão querida e por sentirmos tão igual eu sei que é mesmo uma despedida. Eu sinto toda a tristeza de um encontro que poderia ter sido e nunca foi. Eu sinto toda a ternura que não sabemos ter um pelo outro. Quase sinto como seria saber repousar no teu ombro. Quase. O quase na ponta da língua lembra a sangue e fecho os olhos pra continuar. O espaço desencontrou-se e não há um tempo que podemos chamar de nosso, digo e me sei pedante, você nunca entende, eu sou tão simples, eu sou apenas o que digo, mas você insiste em entender não as linhas, mas o que supõe que eu diria e não me vê. Nunca me vê, eu já reclamo e você tira a mão do meu rosto e volta pra gruta onde me perco e me irrito e me exalto e você se cala e o meu rosto fica frio de saudade da sua mão que já não permanece. Estamos sempre a nos querer mas sem saber quem é este outro que queremos, eu teimo em nomear as distâncias, mas sei, envergonhada, que isso é uma tentativa a mais de fazer contato. Eu sou em desejos: pele, cheiro, língua e tua língua é de “ses” e sonhos. Não há infinito pra nossas paralelas, embora elas teimem em se encostar ansiando ser traço único. Mas não é, não somos, cada um, letra só, palavra separada, texto a completar. Eu tenho você em mim, sabe. Digo e não sigo, mas sei. Sua voz, seu ritmo, seu gosto. Seu jeito de inclinar a cabeça quando me escuta com atenção. Suas perguntas inesperadas. Suas certezas absolutas. A forma desengonçada que coloca a mão no meu ombro. O passo mais lento quando pensa no futuro. Recomeço, antes que me perder no seu sabor volte a ser uma opção. Estou cansada, cansada de tentar dizer, de esperar, de não saber. Estou cansada de ser sempre possível. Não quero mais horizontes, meus olhos ardem, você entende? Sou eu, chorando. Você se emociona, porque você é bom, eu sempre soube que você era, eu vi no cantinho da boca e no jeito sereno de me morder o queixo. Mas não basta. Você chora e eu já quero consolar, faço um gesto com a mão, mas desisto. É tempo de muros, não de estradas. Baixo a mão, os olhos, a guarda e digo: não. E dói tanto que só pode ser felicidade. Vou pra rua com o sangue pingando e o rastro que fica são arabescos pra você decifrar. Eu não quero mais enigmas, sigo cantarolando: medo que dá medo do medo que dáE não paro.

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6 ideias sobre “Do Adeus

  1. Foi com muita emoção que li a pouco o seu texto.

    Acredito que seja uma característica universal gostarmos/apreciarmos tudo aquilo de certo modo nos identifique, quando somos apresentados para nós mesmos, algo que venha de encontro as nossas convicções e/ou aos nossos momentos, como se estabelecêssemos uma espécie de comunhão com “esta coisa”, que pode muito bem ser um texto, filme, musica ou uma simples lembrança.

    Em uma primeira análise, fui arrebatado pelas tuas palavras e tentei imaginar cada emoção vivenciada enquanto as palavras eram digitadas, imaginei caras e bocas e alguns silêncios de abismo entre um parágrafo e outro. Já na segunda leitura não eram palavras que entravam, e sim palavras que saiam, como se a cada palavra lida eu pudesse observar os meus lábios pronunciando-as, e foi neste instante que me dei conta que me “apropriei” não só do que escreveu mas também do que eu supostamente imaginei que você estava sentindo.

    Quanto ao que escreveu, uma amiga certa vez me disse, “..a perda é experiência somada….”; acredito muito nisso. ultimamente tenho registrado alguns dos meus destemperos emocionais, através de algumas poucas palavras e citando referências que falam por mim, tenho dúvida sobre estar sendo ou não uma boa “terapia”, enfim, deve ser algo interessante olhar para trás e enriquecer as lembranças com detalhes de algo que normalmente se perderia com o tempo, enfim…..

    Não sei ao certo como cheguei aqui (neste blog), mas tenho apreciado cada detalhe, como se Lou Salomé, Frida Kahlo, Anais Ninn, Pagu, Sabina Spilrein, Camille Claudel, Clarice Lispector, Iris Murdock, Virginia Wollf estivessem todas vivas publicando posts ao invés de estarem escrevendo livros/pintando quadros/esculpindo/estudando medicina…(risos).

    Parabéns a todas.

    Obrigado pelas tuas palavras, sigo lendo…..

  2. Pensando aqui nos tantos “ses” que a gente inventa. E que na verdade, não inventa… são. E que amor, verdade, mentira, sexo, nuca e medo são mesmos paralelas, talvez infinitas (minha única discordância conceitual, se é que se esta a discutir conceitos…).

    Beijo, borboleta.

    • Só pra dizer q gostei do coment do Fabio acima. E q eu sou a Lou Andreas-Salomé. E nem adianta chorar pq peguei primeiro. Vocês tem um monte aí p escolher. Rá. ;)

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