Lado B

Por Dani Damaso*, Biscate Convidada

Era uma despretensiosa festa. Para encontrar e conhecer novos amigos. Mas a noite se revela. Com olhar firme e intenso, ele chega. Finjo não perceber. Eu nem bem o conheço e meu coração já está palpitando. Não vou cair nessa. Pego um copo, bebo um trago e sinto uma vontade imensa de me aproximar.

E aí a imaginação começar a girar. Será mais um romance biscate? Vou encarar. É preciso viver sem medo. Deixar aflorar os hormônios. Viver o lado B do vinil. Porque curtir o lado B do disco é sempre o melhor da festa.

Sem rodeios, o papo flui e as bocas se tocam. Nos meus pensamentos, tinha razão: ele beija lindo, faz gostoso, tem pegada, sabe a música. Tô na dele. Mas com os pés no chão. Ei, por que me policiar? Relaxo e penso: se ele não ligar no dia seguinte, eu ligo e ponto. Às cuícas as convenções de que a nós,  mulheres, cabe a cautela de não se expor.

Que saber? Não tenho menor pudor de sentir abertamente. Não há razão para resistir, envergonhar e calar. É sempre hora de abrir o salão para o sol entrar. Vou amar e permitir o romance. Desbloquear as sensações.

A música acaba. O dia amanhece. Sinto vontade de deixar um recado no telefone de que o aguardo para repetirmos as delícias. Se ele não responder, ignoro a petulância. Calar meu desejo? Jamais! Afinal, uma biscate não tem medo de ser feliz.

Lembro a primeira vez que me apaixonei e de todas as redundâncias que cometi. Tempos de utopia adolescente. Tempos de pagar mico – e de ter medo do mico. A idade passa e o medo enfraquece.

Decidido: vou ligar. Espero que não me tome por romântica, do tipo atração fatal. De fato, ser romântico pode enjoar. É preciso lamber o dedão, sem se jogar aos pés. Quero apenas mais um encontro e finito!

Ligo, marcamos. Já faz 24 horas que não o vejo. Tudo treme em mim e a biscate se veste de cara e coragem e vai atrás do amante na calada da noite, onde só se enxerga a lua como guia, numa sem-vergonhice aguda de dar nó em tripa.

 Num encontro de deixar os pés fora do chão – porque num romance lado B, delícia é ter os pés ao alcance das mãos. O arrebatador beija da nuca ao céu da boca. Uma entrega sem compromisso. Anarquista. Com intensidade, sangue grosso correndo nas veias, do tipo ame e dê vexame. Afinal, ser biscate é não ter medo de compartilhar sentimentos.

Lembro de um soneto, escrito há 15 anos, por um homem apaixonado que conheci. No papel, um pedido de casamento acachapante e apresentado na frente de todos. Acharam a iniciativa linda, sensível, especial. E sempre foi assim. A eles é permitida a exposição.  Às mulheres, prudência. Atenção para não ser vulgar, fácil demais. Ora, bolas. Quanta bobagem…

 Quer saber? Gosto mesmo é de quebrar regras e manuais. Cometer pequenas travessuras. Antes, durante e depois. E isso me traz lembranças de bons anos atrás. Num assalto de paixão, mandei flores, cheiros e sabores para o amado, em plena redação do jornal onde ele trabalhava. Fiz e morri de rir.

O ramalhete chegou a ele e pouco me importei com os comentários, tipo: “essa já está no papo”, “molinha, molinha”, “tá fácil”. De certo, durante muito tempo em redação de jornal se reinou um ambiente puramente masculino – por vezes, machista.

Ah, nem abalo. Mando flores e vejo a felicidade no espelho. Porque a vida é simples assim. Vale mais quando há liberdade de se dizer o que se quer, de ligar, de escrever, de brindar, de amar. Para mim, essa é a essência de um apetitoso romance lado B, temperado com o melhor da festa: rosas, pimentas e jambú.

E voltando ao rapaz que conheci na bendita festa, lembro que chega a hora da retirada. É momento de cada um seguir a sua margem de rio. Admiro mais um pouco seu corpo adormecido. Saio e deixo um recado biscate no papel: “Foi um prazer conhecê-lo. Ligo qualquer dia desses. Quem sabe na semana que vem. Um beijo na nuca. Adeus”.

*Dani Damaso é mulher da Amazônia, mãe, pisciana, jornalista, tuiteira, torcedora do Paysandú e do Botafogo, nessa ordem de prioridades. Adora olhar as ruas. É do rock e do samba, do reggae e do jazz. Curte paixões descalças e os botequins mais vagabundos. Mas na hora da alvorada, vai sempre atrás de sombra e água fresca.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

9 ideias sobre “Lado B

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>