Meu corpo de esquerda

Pensei em escrever sobre corpo e liberdade. Sobre individualidade e massa. Pensei em acender uma vela no altar do deus das pequenas coisas. Vai essa garrafa ao mar. Que encontre seus pescadores.

Meu corpo é de esquerda. Desde que nasci, é de esquerda. Muito antes de eu saber de UNE, de JEC, de JOC. Muito antes de eu saber de Argélia, de perseguições, de brigas pra vida toda. Muito antes de eu conhecer Paris e Genebra, de eu não saber quando a gente ia poder voltar pra casa. Muito antes, meu corpo já era de esquerda.

De esquerda. Canhota. Sinistra como as feiticeiras. Canhota como o demo. Gauche, como os desajeitados. Eu. Eu, canhota. “Dominada pelo lado direito do cérebro”, que age no reflexo. Não as palavras-racionalidade: os sons, as cores, os gostos, as texturas. Impressões. Desenho desde que me entendo por gente. Canto desde que posso me lembrar. Sinto, tão forte, tão grave. Tão intenso tudo nesse corpo de esquerda.

Desenhar, pintar, colorir. Hoje em dia pouca gente sabe como isso sou eu. Como isso é natural pra mim. Recortes, colagens, superposições. Impressões. Monet sou eu. Monet, Van Gogh, Renoir às vezes. Miró. Cores. Texturas. Sensações. Cozinhar, misturar, mexer o caldeirão das feiticeiras. Juntar sabores, consistências, numa alquimia. Cores, de novo. Um pouco de sal, um pouco de doce, amargo, azedo, picante: equilíbrio e ponderações. Crocante, suave, gelatinoso, macio: texturas e consistências. Arte. E a mesma sensação de alegria.

E, como os deuses se divertem e não fazem nada pela metade, lá fui eu acabar de crescer na terra dos chocolates, dos relógios e dos bancos de conta numerada. Na terra das fondues e das raclettes. Delícias. Outros e novos gostos.
Pois bem, nessa terra, onde a minha escola pública tinha sido construída no século XVIII e a gente bebia água da fonte de ferro com cara de bicho no meio do pátio, escrevia-se a caneta. Caneta tinteiro, claro. A escola – “l’État de Genève” – dava a cada aluno uma caneta. Tinha um tinteiro no armário da sala. E mata-borrões, ufa. E não, eu não tenho cento e vinte anos: é que o tempo tem modos de passar tão diversos que vocês nem sabem.

Escrever com caneta-tinteiro: pensem num desafio para uma criança até então carioca de oito anos de idade. Canhota. No começo eu borrava tudo: passava a mão por cima, né. Escrever é para destros. Menos se você for oriental ou árabe. Canhotos: pensem numa minoria. Depois de um tempo aprendi: virar o pulso até doer; virar o caderno – melhor. Até hoje escrevo “na vertical”: e eu, tímida e espalhafatosa, tantas vezes fui surpreendida por colegas, por professores sem-noção, que no meio de uma prova paravam tudo pra exclamar: “vejam como ela escreve!”.  Mas isso foi depois, na volta. E na volta foi que tive que aprender a domar um bicho desconhecido: a carteira de braço. Céus. O que é isso. Nunca tinha visto. Em vez de mesinhas, só um braço como apoio pro caderno. E, evidentemente, numa sala de quarenta e cinco alunos, tinha uma ou duas carteiras de canhota. Adaptações e flexibilizações necessárias.

Minoria, sinistra, gauche: ser canhota me define como poucas coisas nessa vida. Me explica e me sintetiza. Eu gosto: desafios, pode trazer que eu tô pegando. E esse vem do berço. Meu corpo já era de esquerda muito antes de mim.

“Aprendi a me virar sozinha…” e é isso aí: muito prazer, Renata Lins. Canhota.

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8 ideias sobre “Meu corpo de esquerda

    • Eu tenho uma mente divagante como poucas, Rita. Ia escrever sobre tema totalmente diverso… mas aí, em cima da hora, veio esse. Beijos! Pro seu filho canhoto também!

    • Pois é, Sara. É uma sensação curiosa essa de fazer parte dessa minoria aí. E por ser tão interno, tão particular, pouco falo sobre o assunto. Mas me define, como diz o texto.

    • pois, parece que umas escolas de sampa (ia botar um adjetivo, mas não, vou deixar assim: “umas escolas”) também tinham isso… de usar caneta tinteiro porque ajuda a definir a letra. :)

      • No colégio espanhol, não. Aliás, tudo o que pudesse tornar você não-criativo, não-feliz, igual ao rebanho, sobrecarregado, não-pensante, eles adoravam. Meus pais tinham ar na cabeça pra me manter lá seis anos, certeza. Mas minha mãe era uma entusiasta de canetas tinteiro, é até hoje enfiou uma na minha mão bem cedinho. Fiquei com inveja da água com cara de bicho <3

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