O Banho

#Erotismo em Nós
Por Ana Beatriz*, Biscate Convidada

O percurso de nossa maturidade sexual envolve vivenciar experiências eróticas diversas. Essas experiências não significam o intercurso de uma relação sexual completa, mas sim uma preparação para a concretização do ato em um momento posterior. As experiências eróticas variam desde os elementos que disparam o desejo (e a masturbação em si), até as fantasias, cheiros, sensações, gostos ou qualquer outro elemento sensorial que nos cause prazer. Pode ser o suor que escorre pelas costas e faz o tecido do vestido colar na pele em um dia quente de verão. Pode ser a sensação de deitar na areia da praia e sentir todo o corpo massageado pelos grãos duros e quentes. As experiências são normalmente individuais, dependendo do nosso despertar erótico, das coisas que vimos quando não devíamos ver ou as sensações do cotidiano que foram relacionadas com o prazer sexual. Os meus exemplos são variados: o cheiro de um perfume masculino que remete a minha primeira lembrança do “cheiro de homem”; a sensação do vento desarrumando o meu cabelo; comer uma pera macia e cheia de caldo que escorre pelas mãos e pinga sobre as coxas; morder um palmito grande, fálico e macio…

Depois que se atinge a maturidade e a plenitude sexual, as experiências eróticas são, quase sempre, relegadas ao segundo plano. As sensações são direcionadas ao ato sexual em si, o intercurso da penetração e do gozo. As sensações deliciosas são abandonadas e todo o apelo erótico está relacionado com a corrida do ato sexual com uma breve pausa para as preliminares que quase sempre são apressadas e superficiais. Mas… e se fosse diferente? E se fosse possível viver cada preliminar como se fosse uma relação sexual completa? E se as sensações de cada preliminar permitissem um orgasmo intenso, violento e restaurador? E se o prazer pudesse estar em outras inúmeras possibilidades do corpo? Se existe uma resposta para todas essas perguntas, ela pode ser resumida em uma palavra: intimidade. Nada é mais erótico e provocador do que a intimidade que se estabelece com a outra pessoa. Intimidade no sentido de confiança, conexão, experimentação, misturar-se um no outro até que não se sabe onde começa um e onde termina o outro.

Várias situações remetem ao aprofundamento da intimidade: sexo oral olhando o outro nos olhos, adivinhar o ponto que incendeia o corpo, deitar a cabeça no ombro para uma noite de sono profunda, gostar de provar o gozo do outro e (por que não?) tomar banho juntos. Não estou falando aqui do banho apressado enquanto se conversa sobre os compromissos do dia… O banho ao que me refiro é aquele de descoberta, de querer cuidar, olhar, apalpar, enfim, experimentar o nosso objeto do desejo. É um banho que não objetiva o sexo, pode acontecer antes ou depois do sexo, ou mesmo sem sexo em momento algum! A experiência erótica transcende o sexo e pode ser até melhor do que o próprio ato sexual. São sensações como um instrumento de corda, no qual cada toque produz um som diferente que vai se acumulando continuamente até produzir a música. No corpo, cada toque produz uma sensação única que é sucedida por outra e por outra, até que o acúmulo produz uma sensação de prazer indescritível e, principalmente, impossível de se reproduzir em outros momentos. Entre todas as coisas diferentes que descobri, o banho é a experiência erótica mais deliciosa que já vivi.

O nosso banho começa como um banho qualquer, cada um buscando espaço debaixo do chuveiro, compartilhando o sabonete líquido e conversando amenidades. Em um determinado momento, a ação muda completamente na sua intencionalidade. Você derrama o sabonete líquido em uma das mãos e começa a esfregar os meus ombros e as minhas costas em silêncio. A intensidade do toque faz com que eu sinta o meu corpo arrepiar até a base da coluna. Não é só o toque, mas a sua atitude em me deixar imóvel, dócil e impotente enquanto você desliza as mãos e os olhos sobre o meu corpo, descobrindo e decorando cada centímetro de pele, cada curva e todos os detalhes. Adoro a sensação de que sou apenas um brinquedo na sua mão, que estou ali apenas para dar prazer a você… Viro de costas para você enquanto as suas mãos deslizam nas minhas costas até o meu quadril. Você se abaixa para esfregar as minhas pernas, passa as mãos entre as minhas pernas, desliza os dedos no rego até passar por dentro da minha bunda… Os seus dedos besuntados com o sabonete escorregam na minha pele , vão e voltam como se você não estivesse particularmente interessado em nada, mas ao mesmo tempo desejando tudo. Seus olhos mudam e sua respiração fica mais forte e compassada. Meu corpo treme e sinto as pernas amolecerem… Encosto as mãos no vidro do box embaçado com o vapor da água quente, gemendo alto. Ainda atrás de mim, você sobe os movimentos circulares em direção a minha barriga e os meus seios. Cada seio é massageado, reverberando ondas de calor que provocam um prazer intenso na confusão de espuma, água quente e calor do seu corpo. Você percebe que estou desmontando, que o tesão é enorme, desmedido, intenso e me beija na boca. Um beijo quente, molhado e delicioso no qual a sensação da sua língua na minha boca é exatamente a mesma de quando sou penetrada por você. Agora já não sou mais ninguém, meu corpo é seu, escravo, imóvel, suplicante, tenso, entregue… Beijo a sua orelha, mordo o seu pescoço, coloco o seu brinco dentro da minha boca pensando em como eu poderia devorar você todo! Não importa os próximos movimentos, estou exausta, o corpo está amolecido, as sensações estão marcadas no meu cérebro de forma definitiva tanto quanto está queimando no meu corpo. Saio do banho e me enrolo na toalha só pensando em deitar na cama ainda molhada, me enfiar dentro das cobertas e pensar sobre tudo o que senti. Não quero a sequência, o desdobramento ou o que vem depois, quero só as memórias do prazer que senti e um pouco de racionalidade para compreender os mecanismos que fazem a proximidade dos nossos corpos se traduzir sempre em prazer. Chamam isso de química. Dizem que é efeito da paixão. Eu sei que é a liberdade de amar alguém sem amarras.

    *Ana Beatriz é uma carioca que escolheu viver no Nordeste. Coisas do coração. E as praias ajudaram na decisão, ela alerta. Professora na UFPE, dirige seu olhar inquiridor e curioso buscando entender as tecnologias na Educação. Feminista, mais acirradamente ao curtir suas 3 filhas. E ainda se rebola e se fazblogueira aqui (clica e descobre). Quer seguir? @anabee.

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11 ideias sobre “O Banho

  1. Totalmente perfeito. Proponho desde já o KIT BANHO (sabonete líquido com aroma exótico, esponja bem macia, espuma para banheira, um óleo pós banho e um manual detalhado de como usar tudo). Todo homem tem que andar com um desses no carro para emergências.

  2. Nossa que texto delicioso..só reporta a gostosura de ser usada deliberadamente..vale um candelabro italiano no proceso também….o céu é o limite…… perfeito e com direito a diversos deslizes corporais enquanto escravos do prazer :)

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