Que seja doce.

Para você, M. Hoje e sempre.

Seu cheiro ainda está aqui. Em mim. Fico sentindo ele no ar, nos meus dedos, lambendo e lembrando o seu rosto triste, dos seus olhos verdes brilhando lágrimas e me olhando com amor e incompreensão. Meu corpo ainda está mole e adulado pelos sentidos do nosso sexo, das suas mãos me apertando forte, do meu gozo intenso grudada em você, do seu gosto de ressaca e dor, do seu prazer fresco, do seu interior úmido, do seu sorriso que me fascina, do tesão que me brota quando você me toca assim, e sempre.

(Sentada na varanda converso com você em silêncio, fumando aquele cigarro que você odeia e devorando desesperadamente o Caio Fernando Abreu – que me oferece frases de cachaça para amortecer os lábios).

Esse meu caminho das palavras faz-se escrita vez em quando. É meu confessionário, e aqui lhe chego mais uma vez para me confessar um pouco, e mais, no meio desse turbilhão de coisas que nos assola. Paixão de astros. Paixão de pele. Amor. Dor, desencontro, sexo, discussão, conversa, risada, diversão. Mais um bocado de amor louco e desvariado. Amor baleia azul, amor correnteza, amor acelerado, amor latente, amor desavisado, amor pedrada, amor gigante, amor muralha, amor trepadeira, amor ipê. Vício. Abismo. Certeza, casa e contas, bebedeiras, fluxos, madrugadas e manhãs de dois em um. Cheiro inebriante, delírios, vontades que nunca passam. Somos nós assim, intenso e revirado, em busca do prazer, do tudo-que-pode e do tudo-que-é inteiro. Somos nós na travessia.

Eu já lhe falei tanto hoje, e ontem no nosso encontro desamparado. Mas eu quero sempre enfeitar os dizeres e as falas que lhe chegam pensando em arrancar-lhe sorrisos e suspiros. De lhe fazer carícias com todas as vírgulas, de lhe excitar crescente na medida em que seus olhos passam as frases. Pensando em mostrar e declarar ainda mais esse meu amor já tão declamado, e sorrir de orgulho desse nosso relacionamento ridiculamente lindo e único.

E eu chego aqui hoje com a sensação de tempestade e lagoa fresca depois da chuva. Com sensações que nunca experimentei, com vontades novas de descobrir com você o mundo. Como diz o Caio: “Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro”. E é isso. O que me resta, depois da tempestade forte que nos assolou e nos derrubou as paredes, é cada dia mais essencial e verdadeiro. E é por isso que eu estou aqui, com as mãos enlaçadas às suas.

Mesmo com tudo ainda revirado dentro e fora da gente, eu consigo mirar e sentir a lagoa com suas águas plácidas e frescas de mansidão. Lagoa calma depois da chuva forte. Sentidos aguçados. Paz de dias felizes. Nossas mãos dadas e nossos pés fincados na terra. Mergulho conjunto de arrepiar a pele e deixar a gente toda desperta por dentro. E eu estou aqui, pronta para o novo mergulho.

É, eu sei que a ferida ainda dói. Que dói muito pensar no que foi, e que é inevitável a desconfiança do que ainda é. Dói e a gente vira bicho ferido. Arrisco, protegido e pronto para correr, para fugir, ou para lutar. Para não se deixar morrer. O Caio nos conta: “Menos pela cicatriz deixada, uma feridantiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva” . Uma ferida que talvez sempre doa nos dias de chuva. Mas é aqui que eu quero aprender. É aqui mesmo na dor dessa ferida que quero ir além com você. Eu tento, e eu consigo, acredita em mim, uma hora eu consigo.

Às vezes parece que tudo vai se perder para sempre. É verdade. Mas a gente fica, eu e você e as nossas fragilidades. Porque, é fato: “O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade”. Eu também sou frágil e eu também preciso. Eu também não quero mais eu sou. Eu sou sim, a gente é, quando a gente ama a gente é pequeno e grande ao mesmo tempo, a gente tem medo e fala besteira, a gente magoa, a gente enlouquece, a gente tem raiva e tremedeira, a gente tem olheira de sono não dormido, a gente é tão humano que até dói de tanta humanidade. A gente é fraco, a gente é pouco, mas a gente é extraordinário, daquele extraordinário feito das coisas mais simples e mágicas que a vida pode nos oferecer. Amor é sorte e não é processo pouco. Às vezes é até violento. Amar é quase como nascer de novo para tanta coisa dentro da gente. Eu estou nascida de novo.

Lá vem o Caio mais uma vez e me diz: “Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada ‘impulso vital’. Pois esse impulso ás vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como ‘estou contente outra vez’”. E tudo que mais quero é que passe, que chegue o verão, que sempre tenha sol e sombra e vento forte e que a gente se arrepie a cada pingo d’água caído do céu, a cada nuvem cinza desenhando espaços imaginários, a cada manhã de domingo, a cada suspiro, a cada xícara quente de café compartilhado depois da noite de sexo.

Eu quero a felicidade desvairada. A gente pode. A gente consegue. Tá duro, a gente tá cansada, eu sei, tá tudo dolorido, o estômago revirado, os olhos nublados. Mas solta os braços e flui, vem para mim sem medo. Que eu estou inteira para flutuarmos junto. Não dá para não esperar nada de uma relação. Viver sem expectativas não é humano. De novo o Caio: ”Seria tão bom se pudéssemos nos relacionar sem que nenhum dos dois esperasse absolutamente nada, mas infelizmente nós, a gente, as pessoas, têm, temos – emoções”. Eu vou esperar o melhor. E viver para o melhor.

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3 ideias sobre “Que seja doce.

  1. Silvia, do avesso pra quem quiser ler. Escutar, sentir, refletir. E eu como sempre me sentindo mexida por suas palavras tão suas, minhas.. nossas! Sempre aqui pra enaltecer e agradecer pelo texto. um bjo querida!

    • Amo o Caio, de paixão. Ele consegue respirar entre as minhas partes mais íntimas da minha alma. Me alimenta, me sufoca e me enlouquece. Absurdamente. Desde do primeiro livro há uns quatro anos. Boa escolha Silvia! Mas de vc e da Lu, eu já não me assusto com mais nada, vcs são fantásticas e ponto.

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