Sentidos

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Tem sido uma quinzena caliente não lhes parece?

#Erotismo em Nós
Sentidos, Borboletas nos Olhos

Chico Buarque cantou e eu não sei responder a ele nem escrever este post. Porque o erótico, é, quase sempre, inesperado. O susto que prende o olho e tira o fôlego. Surpresa. Mas passa o tempo, é preciso um texto e só me apetece ver Bardot e Michel Pic­coli:

Bom, vou tateando. Erótico, é, talvez, em mim, o que se inscreve na pele, seja em ausência ou presença. O erotismo, em mim, é passivo, a voz rouca penetrando em meu ouvido, o tecido delicado escorregando dos ombros, a língua audaciosa provando os lábios (quaisquer lábios), o odor do sêmen na colcha da cama, um vislumbre de torso. O erotismo, em mim, é ativo, despir-me sem espetáculo, nenhuma desculpa para o desejo, só o incisivo ato de ficar nua para os olhos outros. Deixar o nariz fazer trilha no corpo alheio até reconhecer nuances. Lamber, chupar, saborear. Sussurrar sugestões, indicar posições, sugerir lugares e formas. Tatear e ler o corpo amante em braile. O erotismo, em mim, é lacuna. É entrever. É buraco de fechadura. O entreaberto. Seja da porta, seja das coxas.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: O Erotismo, George Bataille/ Uma sugestão de escuta: Âmbar / Uma sugestão de filme: Livro de Cabeceira / Uma sugestão de textura: areia da praia / Uma sugestão de comida: cogumelos *

Porque as águas do desejo são turmas
e o que percorro tem cheiro de sexo.
Aqui, eu o tenho nos olhos,
mas o sinto entre as pernas
E lateja o corpo
A pele pede mãos
pede língua
pede sonhos.
Porque em vermelho eu sentiria o teu gosto
E saberia a sabores, em rubro, em rubro.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: La Nuit Sexuelle (o post é em português)/Uma sugestão de escuta: Estranho Rapaz / Uma sugestão de filme: Ata-me / Uma sugestão de textura: água / Uma sugestão de comida: ostra *

Eu só queria me despir pra você. Tornar-me a paisagem árida, difícil e intensamente bonita que você se acostumou a desejar. Eu só queria me despir pra você. Deixar que meu corpo nu apague todas as palavras de amor que nós não vamos dizer. Eu só queria me despir pra você. Ser entendida em uma língua que nunca falamos. Em braile, talvez.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: Quando todas as coisas são puras /Uma sugestão de escuta: Cheiro de Amor / Uma sugestão de filme: A Bela da Tarde / Uma sugestão de textura: algodão / Uma sugestão de comida: uva

E se for mesmo simples? Um dia, um lugar, uma vez? Uma esquina? E se for mesmo simples, um querer e a rima? E se for mesmo simples? Sem dor, sem medo, sem esperas? E se for mesmo simples, eu, você e o tempo espiando a gente aprender o prazer? E se for mesmo simples, eu vou, você vem, as estradas se fazem quarto para um tempo sem amanhãs. E se for mesmo simples, café forte, música na vitrola e olhos se fazendo poços? E se for mesmo simples, a pele arisca, os desejos inquietos, as saudades antecipadas? E se for mesmo simples, gentileza, malícia e aquela vontade de não dormir nunca mais? E se for mesmo simples: todos os verbos no presente, todas as perguntas no pretérito, todas as vontades no gerúndio? E se for mesmo simples, beijos curiosos, mãos impacientes e horas fora do calendário? E se for mesmo simples, sem memória, sem história, sem álbum de fotografias? E se for mesmo simples, um pouco sem razão, um tanto sem esperança, o reconhecimento tranquilo do outro. E se for mesmo simples: coragem?

Sentindo: Uma sugestão de leitura: O erotismo na arte acadêmica e moderna da América Latina /Uma sugestão de escuta: Me deixas louca / Uma sugestão de filme: Vítimas de Uma Paixão / Uma sugestão de textura: azulejo / Uma sugestão de comida: camarão

Às vezes eu penso nele. Ou neles. No meu, quase sempre. Penso no coração. É que quase toda a gente o traz lá, em seu frágil invólucro de carne e sonhos. Umas cartilagens, para aumentar a ilusão de conforto e segurança. Há quem o traga nos olhos, nunca sei se como filtro ou muralha. Os que andam com o coração na boca, claro, sempre a ponto de saltar e nos cair no colo. E tem aqueles outros, os que o trazem nas mãos, prontos para entrega, quero fazer um depósito, por favor. O que traz? Coração. Coração na mão – a gente se espanta com essa disponibilidade kamikase. “A gente”, penso, paro: eu. Eu me espanto com este ataque kamikase a si mesmo. Porque meu coração está no lugar certo: no meio das pernas.

sentidos

Panayiotis Lamprou, “Portrait of My british wife”, 2010

* Como se viu (ou não) eu roubei. Os filmes roubaram o lugar dos odores ;-)

Outros textos da série #Erotismo Em Nós:

Silent Night, Valmont

Sobre Beijos e LínguasAugusto Mozine

Façamos, Renata Lima

Trinta Anos Quase, Renata Lins

Orgia com Brando e Schneider, Lis Lemos

O triângulo aponta o caminho, Niara de Oliveira

Erótico Pornográfico, Bete Davis

Águas Feminnias, Sílvia

Espera, Raquel

Inverno, Perséfone

Verdes, Cláudia

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5 ideias sobre “Sentidos

  1. Nossa quinzena vai chegando ao fim e esse tá arrebentando, um passeio por gostos e toques, uma lindeza do começo ao fim. Direto sem ser agressivo, no ponto sem ser técnico, texto pra se degustar seguindo os links com vagar…
    Foi bonita a festa, pá. Inda tem um?

  2. Lu,

    Adorei! Mulher corajosa… :-) Ter o coração no meio das pernas sempre me pareceu algo menor, algo que não poderia ser considerado amor de verdade. Agora eu sei que não. É lá mesmo o lugar onde começa, vive, pulsa e termina esse tal de amor. Beijos!

  3. Uau! adorei o texto, Lu. Não só pelos links, músicas e odores, mas pelas imagens que a leitura vai suscitando em nossas memórias, os desejos que afloram e a percepção de que tudo é erotismo, pois é natural e inocente como na foto ao final do texto, principalmente quando se está no lugar certo. ;-)

  4. O amor é cru. O erotismo é cru. Em mim parece que tudo é cru e selvagem. E pelo visto ñ é só em mim que tudo começa assim. Lindo texto Lu.
    Beijos

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