Ao vencedor, as batatas!

Meio dia, sabe. E eu, no meio do tempo. Meio perdida. Meio vazia. É fome, penso e vou tratar de disfarçar esse vazio que me acostumei a chamar: eu. Porque sou incompleta e tenho essa vontade do que desconheço. É fome, penso, mas não me convenço, essa necessidade de mais, de outra coisa, de outro tempo, mais, mais, voracidade, angústia. temo. Fome. De mim, De quem sou e de quem não aprendi a ser. Uma outra. É fome, insisto. Por enquanto, então, comida. Abro a geladeira e me vejo lá: tem bacon, mussarela de búfala, batata, peixe, muita cerveja, manjericão… só tem o que gosto, sabe, não o que é certo, não o que combina. Tem o que me apetece.

Fico pensando nisso, nos meus excessos. Na minha vontade de prazer. No gosto pelo fácil. Gosto de mim quase sempre, mas tem dias em que sinto falta de coisas que eu não sei ter. Como hoje. Hoje que olho no espelho e vejo as outras que poderiam ter uma felicidade diversa. Uma que não fosse de tantos risos mas que também não fosse de tantos abismos. Que não tivesse tantas letras. É isso: uma que fosse um tantinho menos. Que risse mais baixo, gesticulasse menos, que falasse depois de pensar e polisse as palavras. Uma que soubesse que menos é mais e escrevesse em contenção. Uma que não escolhesse: batatas. E que não colocasse Casuarina pra tocar.

Vaso Ruim não quebra, alertam e eu danço e choro. Não vai cicatrizar, melhor é deixar sangrar em suor.

É fome, é falta. Ausências. Então, batatas. A alegria do carboidrato. Do morno. Do que parece saciar. Amaciar o futuro: cozinho as batatas, muito e muito. A comida pede tempero, mas pede, também, paciência. Vou aprendendo a me esperar. A me aceitar. Paciência.

Por enquanto: faca amolada. Cortar o bacon em quadradinhos, Cortar uma cebola roxa em pedacinhos pequenos. Cortar a mussarela em tirinhas. É em cortes o viver. Talhos. Fendas.

Se tiver farofa de castanha, é bom. Por agora, torrar o bacon e escorrer a gordura, deixando só os pedacinhos crocantes. É a hora do chiado na frigideira, do cheiro bom na cozinha, os sabores fartos, os gestos amplos, os prazeres fáceis.

E os meninos tocam os sonhos calçando sandálias amarelas: mas se a vida melhorar, eu mudo, vou construir um cantinho bem arrumadinho com flores e tudo.

Tudo pronto, é hora de fazer de conta. fazer de conta que tudo combina. Que tudo se ajeita. Que os sabores  se acertam. Fazer de conta que tenho o controle e sei o sabor. Batata cozida: descasca, amassa, tempera com sal, manteiga, orégano e açafrão. Mistura bem com os demais ingredientes, como se fosse a vida: o excesso do bacon, a liga do queijo, o picante da cebola, o duro das castanhas.  Sabe fazer bolinhas? deixar que as mãos reinventem formas, brinquem de modelar o mundo. Passa no parmesão ralado e leva ao forno. Assou? Faz uma cama de azeite com manjericão e deita as bolinhas de batata.

E as despedidas se fazem em questões: Pergunte pr’o seu Orixá, o amor só é bom se doer... O meu diz que não. Mas ainda não sei se acredito.

Por enquanto: ao vencedor, as batatas.

batatas

Touch, batatas

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