Ser Biscate? Aprendi na Igreja

#AlmaBiscate
Por Luciana Nepomuceno

borboleta_pretaborboleta_preta

ilustração_mariamadalena lendo e borboleteando

Ela trepa. Ou não. Só se quiser, com quem quiser, mas não sempre que quer, infelizmente. Essa biscate se debruça na janela, vê a vida passando e faz fiu-fiu pra ela, enxerida e animada. Essa biscate canta alto, lavando a louça, e baixinho, lavando a alma. Porque uma biscate faz essas coisas de quem vive: limpa a casa, cozinha e, vez ou outra, sente o oco no peito e lembra de chorar. Essa biscate troca o dia pela noite, manda mensagem de Natal atrasada e bebe sozinha que os amigos ficaram do outro lado do mar. Essa biscate toma dois banhos por dia e ri de si mesma, tremendo de frio na frente do espelho borrado de vapor. Uma biscate esquece futuros e vive as alegrias que se apresentam. Viaja muito, essa biscate e deixa o olhar se perder na estrada como se fosse em encontros. Dorme de conchinha, vez ou outra, mas não se importa de ficar sozinha. Se sabe ótima companhia e descobre a nova cidade, rindo alto nas esquinas e pedindo cerveja nas pequenas vendinhas escondidas nas ladeiras. Essa biscate paquera no metrô, só pra não esquecer como é. Essa biscate soletra saudade e escreve emails doloridos pro filho. Outros dias não liga pra casa nem pra dar bom dia. Essa biscate passa a noite acordada, consolando a amiga, mas trocou o telefone pelo skype. Essa biscate diz sim. E não. Diz quando, encolhida na cama. Biscate tem cerveja na geladeira e se dedica a aprender outros sabores tão longe dos seus. Tem camisinhas na gaveta ao lado da cama. E livros empilhados no travesseiro. Essa biscate gosta de massagem no pé, banho de mar e mordidinhas ao pé do ouvido. Essa biscate curte palavras de ordem, movimento na rua e de uma série de revoluções por minuto. Essa biscate se preocupa. E se esquece. Dança na rua. Pula de um pé só. Compra guarda-chuva lilás. Essa biscate paga suas contas, paga mico, pede passagem. Samba sozinha, na rua e na lua. Essa biscate é em fragmentos e se faz na beleza de se saber senhora desses pedacinhos todos que, juntos, soletra assim: eu.

Esse texto aí em cima foi inspirado no primeiro post que escrevi aqui pro Biscate. Um e outro dizem da minha alma biscate. Como, aliás, cada um dos que postei por aqui. Entre mulher incrível e biscate, não tive dúvida: biscate. Eu sou biscate. Eu sou o Biscate (e o Biscate é cada um de nós, cada escrevente, cada leitor, cada um que divulga…). Dizer como cheguei a isso é tarefa que não dou conta, se soubesse psicologia e sociologia estavam resolvidas. Sei que me vi em cada post de #AlmaBiscate aqui deslindada. Relutei muito em escrever o restinho que não apareceu ainda. Porque eu sei que é bem esquisito dizer que grande parte da minha biscatagem eu aprendi na Igreja. Aquela mesma, Católica Romana, com um pezinho no ziriguindum cearense.

Uma das coisas que lembro, preparação da 1ª Eucaristia e a Ir. Eneida dizendo: quando Deus quis que Maria ficasse grávida de um filho dele não perguntou pra o pai da Maria nem pro irmão nem pro noivo de Maria. Perguntou pra ela e foi ela quem disse sim… e houve grande regozijo. Aprendi: é a mulher que sabe do seu corpo, da sua vontade e dizer sim é bem gostosinho.

Lembro das aulas de interpretação de texto com as histórias de Rute, Ester e Judite. Foi lá que aprendi: não se deve temer a sexualidade. Nem seu uso nem seu usufruto. Outra coisa, essencial pra minha biscatagem: cada pessoa é única, insubstituível, importante na sua particularidade. Como  diria o Gonzaga: essa égua eu não vendo, não troco, nem dou.

Lembro dos meus pais participando do Encontro de Casais com Cristo, lembro da casa invadida por pessoas em festa, luzes apagadas, todo mundo cantando, o casal valsando e o clima de recordação, promessa e sexo quase palpável no “beija, beija, beija” do final. Aprendi: intimidade é essa beleza.

Lembro do meu padre querido dizendo que depois do primeiro milagre Jesus não podia ver um balde dágua…e se não foi ali que aprendi a rir, foi um dos espaços em que entendi que rir de si mesmo é uma libertação. Foi com a Teologia da Libertação que aprendi o que era uma vaga intuição: o conceito de classe. E que a corda sempre rompe do lado do mais pobre. E, mais ainda, da mulher mais pobre. Foi lá que aprendi que luta rima com prazer. E com corpo que dança.

Lembro das Romarias da Terra, mulheres fortes e sensuais puxando a fila. Lembro dos Encontros de Jovens, todo mundo dormindo nos mesmos quartos, sem diferença de gênero. Lembro de namorar todos os moços do mesmo grupo de jovens e nunca ser apontada, julgada, rotulada.

Nunca fui religiosa, nunca tive aquela centelha, nunca tive fé, a não ser na vida, no homem, no que virá. Hoje, ainda menos, não digo atéia porque nem nisso acredito. Mas lembro. Lembro das palavras que foram ganhando sentido feito desfiar um rosário: liberdade, respeito, diferença, tolerância, gozo. Foi na Igreja que aprendi: o corpo pode, o corpo quer, o corpo é. O meu. O do outro. O da outra. Depois veio Monsieur Freud e outros aprendizados mais, mas isso fica pra uma outra conversa. Bem biscate.

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7 ideias sobre “Ser Biscate? Aprendi na Igreja

  1. Coisa mais linda esse post Lu! De uma certa forma, tbm foi a Igreja quem deu uma mãozinha para esse meu processo de liberação, a partir da Teologia da Libertação, das Comunidades Eclesiais de Base, do CVTS – Curso de Verão na Terra do Sol (do qual ainda sou colaborador) e das muitas pessoas extremamente livres que conheci nesse meio. Infelizmente, há um poder muito maior por parte da eclesia conservadora e esse foi o motivo do meu afastamento. Mas fui muito feliz na comunidade, mesmo não sendo nem muito religioso e nem muito discrente. Disso eu nunca me esqueci porque carrego no corpo o que aprendi com ela.

  2. Adoro, Lu. Tava faltando isso, a Biscate de Igreja!!! Hahaha…. tinha que ser você…. se bem que a xará Rê Lima já tinha dado umas pinceladas (“vem, Jesus, seu lindo, me chama de Madalena” – frase do ano). Mas esse post dá concretude. E eu não disse no meu ( http://biscatesocialclub.wordpress.com/2012/12/29/uma-biscate-de-familia/) que minha mãe-biscate é de igreja, e isso foi importante na minha vida. Meus pais foram de JEC (Juventude Estudantil Católica) e JUC (Juventude Universitária Católica) – Recife, Dom Helder, tudo isso. Muitos padres e freiras vinculados à Teologia da Libertação passando por casa, amigos. Eu, mística toda vida, fiz anos de catecismo: gostava das histórias. E gosto. Gosto de histórias. Não sou católica, mas fui criada aí e isso me faz o que sou. E paro por aqui porque senão isso vira post! Beijo!

  3. Opa! Mamãe na Igreja na época da Teologia da Libertação de bracinhos dados com os “padres comunistas”? Presente! Jornada Cristã, Encontro de Casais e por aí vai…eu parei na Primeira Comunhão, que fiz pelo colégio mesmo, um colégio da Ordem dos Jesuítas. Adorei a relação que vc fez entre Biscatagem e Igreja, Lu. Fiquei com aquela cara de; “né que era?” Bj!

  4. Foda como sempre, Lu.

    Pena que pra mim não houve essa colheita na religião católica, mas pra bons olhos tem leveza até onde a fala é sempre sobre culpa e pecado. A única coisa biscate que peguei no catolicismo foram as paqueras enquanto o padre fazia o sermão. Minha comunidade era de um catolicismo bem conservador e travadão, mas por causa das menininhas eu cheguei até a crisma, o mais longe nas escolas dominicais. Na fila pro confessionário o pe. Wilson me dizia o número de ave marias e eu de olho nas cocotas aqui e ali. Não dá pra falar que foi pela Igreja, mas agradeço ao espaço pelo empurrãozinho para ter biscateado de leve na paróquia.

  5. Lindo, lindo texto. Sensível por demais. Este é meu primeiro comentário no blog, leio muitos textos, mas ainda tinha vergonha até de elogiar o trabalho das Biscates. Achei melhor mudar isso. Um beijo a tod@s!

  6. Lu, me fez lembrar de quando fui coroinha e membro de um grupo de jovens na paróquia salesiana na qual me formei cristão e da qual me desvinculei para me tornar ateu.
    Como coroinha, eu paquerava as meninas sempre que ia à missa para auxilar, “ficando” com elas após a cerimônia. Também, nas viagens de confraternização em outras cidades, eu preferia ir conviver com as meninas da comunidade a assistir os jogos de futebol entre as duas comunidades. Certa vez fui deiado para trás, numa viagem a Barbacena, tava ocupado dando uns amassos numa garota barbacenense. Tinha uns 12 anos.
    Da mesma forma, larguei a batina de coroinha e entrei no grupo de jovens que, de certo, poderia chamar grupo de biscas. Um beijo.

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