A Mulher Em Bancas

Bancas. Jornais e revistas. Imagens. Mini-universos.
Mulheres nas bancas: pra pesquisar, no centro é melhor. E tô falando do centro do Rio, mas imagino que não seja diferente em outras cidades brasileiras.

“Pesquisar” talvez não seja a palavra: no meu caso, é mais “ser atingida”. Tem uma particular – porque no meu caminho, não porque seja diferente de inúmeras outras – que eu chamo de “açougue”. Mulheres em pedaços. Coxas, bundas, peitos. Como é que os homens, os homens-pequenos, os que estão aprendendo, vão entender mulher se estão expostos a esse bombardeio de pedaços de carne, todo dia, toda hora, em todo canto? Essa em particular me inspirou a fala: “O povo da burca talvez tenha um ponto.” Pois não é a mesma coisa ao contrário?

burca_cartum

De vez em quando penso nas grandes mulheres de tempos passados: tempos onde não havia tanta imagem. A ditadura da imagem não tinha se estabelecido ainda. Quando até a fotografia era cara e não era acessível a qualquer um. Menos padrão, menos pressões.
(E aqui, um parêntesis: não acredito em progresso contínuo. Ou inelutável. O futuro pode ser para melhor, pode ser para pior, mas o mais provável é que suas várias dimensões não sejam adequadamente captadas pela chapada régua do “melhor” ou pior. Complexidades.)

burca na fraça preta

Voltando às bancas: o que me assusta mais, o que me impacta mais, de verdade, são as revistas que têm a mulher como público-alvo. E “alvo” é palavra adequada. Sempre em tom imperativo. Sempre com pontos de exclamação. O corpo dos sonhos, “seco”, a barriga chapada, os peitos em pé. Necessidades. Obrigações.

E poderia falar horas sobre isso: mas deixo as imagens. Elas contam essa história.
História de perdas e danos: como sobreviver a esse massacre? Como não se sentir, também, um aglomerado de partes?
Mulheres-corpo. Ditaduras.

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6 ideias sobre “A Mulher Em Bancas

  1. Que beleza! Essa exploração, esse “masacre”, como dizes, ultrapassou qualquer limite. E acho que fostes generosa com as mulheres que se permitem exbir o coxão duro, maminha, filet-mignon. Elas procuram as revistas. tem assessoria para isso. Ontem mesmo fui agredida por uma bunda descomunal exibida por uma dessas modeloatriz em frente ao Congresso. Fiquei com nojo. A pessoa deveter faturado uns 500 reais para tirar a foto porque esse é o preço pago a esse tipo de mulheres muito comuns nos bordéis de garimpo na Amazônia.
    Gostei, renata. Há tempos me incomodo com isso.

    • Memélia, eu nem acho que fui “generosa” não: a questão é que, do ponto de vista individual, defendo que cada uma faz o que quer. Pois não é disso que esse blog aqui trata?
      No individual, então, sou a favor da liberdade. E isso inclui coxas à mostra, amamentar na rua, decotes profundos, costas de fora. O corpo de cada uma é de cada uma.
      Meu ponto era sobre o fenômeno social/de mercado “mulher à venda nas bancas”, e, mais ainda, sobre a pressão feita para o tal “corpo perfeito”. Que tem uma forma única. As roupas cujos números são cada vez menores, o padrão que é cada vez mais magro, tudo o que isso implica de infelicidade pra todas as que se sentem fora do padrão “jovem”, “barriga chapada”, “magra”…. isso é a grande violência, a meu ver.
      Beijo, querida!

  2. Bom, eu vou concordar com a Memélia discordando, certo? Concordo nos elogios ao post. Gostei muito. É um discurso homogêneo e onipresente esse da obrigação da beleza, do corpo correto, da idade certa. É um discurso que oprime a mulher porque limita seus caminhos, suas possibildades, suas buscas.

    Mas discordo no que tange ao resto do comentário. Acho que o que cada um faz com seu corpo, inclusive permitir-se fotografar em todo ou em parte, o que quiser. E aqui não estou falando de desejo consciente ou alienado ou whatever. O basicão: quis, seja pra pagar as contas, pra aparecer na mídia, pra botar comida na mesa, pelo prazer de ser vista… não me importa, quis, tá na dela. Acho que uma das armas mais insidiosas e odiosas do machismo é a regulação do corpo feminino, seja pela superexposição seja pela condenação. Tem um texto muito bom da Renata Côrrea que se chama: Não Chame a Coleguinha de Puta. É daquelas coisas que eu sempre quis ter escrito porque disse o que eu pensava sem saber dizer. Primeiro porque é slut shaming se ela não for. Segundo porque é preconceituoso e moralista se ela for. Nos dois casos se está usando como xingamento via regulação da sexualidade.

    Anyway, o que eu queria dizer mesmo é que ser um pedaço de carne faz parte no jogo do desejo. O que me inquieta é que os pedaços não constituam intermediação pro todo, mas fim em si mesmo. Ou além: apontam para o que não é. O problema não é, acho, o pedaço de carne, mas as demandas que dele derivam. Enfim, divago.

    O link do post da Renata: http://www.renatacorrea.com.br/nao-chame-a-coleguinha-de-puta

    • Então, Lu. Acho que a resposta que dei ao comentário da Memélia vai nesse mesmo sentido, né?
      Meu post pretendia ser um libelo contra a opressão permanente, cotidiana, sofrida pelas mulheres nesse mundão de meu deus onde a imagem é tanta coisa.
      Agora: criticar fulana ou beltrana porque tirou foto, porque ficou nua, porque tá com roupa curta? Ah, aí não. Aí a gente entra no domínio da liberdade de cada um(a) de ser. Cuja defesa é o propósito mesmo do nosso clube, né?
      Ótimo o texto da Renata Corrêa. Não conhecia.
      Beijo!

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