Angélica, Marquesa dos Anjos

Era o ano de 1990, isso mesmo, século passado, e eu tinha 13 anos, e tive catapora. Fiquei de repouso, e esgotei os livros que tinha para ler. E então, na estante, descobri um certo livrinho, chamado “Os Amores de Angélica”, com uma capa brega, mas interessante.

Sem imaginar no que me metia, em pouco tempo li a história toda, e fiquei sabendo que se tratava de uma série, com vários livros, todos eles focados na figura de Angélica de Sancé de Monteloup, a filha de um casal da pequena nobreza da França do século XVII, com suas aventuras, desde a infância de pés descalços, na nobreza pobre do interior, até seu casamento de conveniência com um Conde tolosano, o Conde Joffrey de Peyrac, treze anos mais velho, rico, experiente, mundano, e que viria a se tornar o maior amor da história dos amores de Angélica.

Coleção Angélica

Coleção Angélica

A história dos autores da obra, por si, já é fascinante:

Anne e Serge Golon.

Serge Golonbikoff nasceu em Bukhara (URSS – sim, ainda era URSS!) em 1903, e Simone (Anne) Changeuse, em Toulon (França), em 1928. Conheceram-se e casaram-se na Africa, para onde Anne, com o dinheiro de um prêmio literário, viajara como jornalista. Serge era uma celebridade na época: formado em geologia, mineralogia e química, cruzara o misterioso continente em busca de ouro e diamantes, acabando por participar da descoberta de estanho em Katanga (Zaire). Atraída por sua fama, Anne resolveu entrevistá-lo.

De volta à França, em 1952, já casados, tiveram a ideia de escrever uma novela histórica ambientada no século XVII: Seerge colhendo as informações no Arquivo de Versalhes e Anne exercendo um talento para as letras já manifestado na infância.

O sucesso de Angelica, Marquesa dos Anjos, lançado em 1959, foi imediato, animando os autores a produzirem novos volumes. Estes, traduzidos para vários idiomas, fizeram da heroína uma das personagens mais famosas do mundo.

 

Naquela época, tudo que uma adolescente apaixonada por história podia fazer, ao ler todos aqueles nomes em francês, todos aqueles lugares, aqueles personagens, alguns familiares das aulas de história da antiga 7ª série, como Luiz XIV, o Rei Sol, outros, da história de D’Artagnan e os Três Mosqueteiros, como oCardeal de Mazzarino, era mergulhar na enciclopédia Barsa e nos atlas da família, e viajar naquele mundo novo e ao mesmo tempo, familiar.

Angélica me fascinou desde o primeiro livro.

São 26 volumes, os lançados pela Nova Cultural e vendidos em banca. Sei que havia a edição do Círculo do Livro, mas estes meu pai não quis comprar pra mim (comprou O Guarani e a coleção dos Escoteiros Mirins, ao invés…).

Coleção Angélica

Levei, sem brincadeira, dez anos para completar a coleção. Durante muito tempo, em qualquer cidade que fosse, se visse uma banca de revistas onde havia troca de livros, eu parava para garimpar. Um dos volumes foi achado no Rio, em uma banca perto da Candelária, quando lá estive em 95, para o show dos Stones no Maracanã.

Angélica é uma jovem mulher à frente de seu tempo, mas ao mesmo tempo, não tão diferente de todas as mulheres. Ela sofre, se alegra, ri, ama, vive.

Tem seu primeiro amor arrancado de seus braços e queimado na fogueira, é amada pelo próprio Rei Sol, desdenha desse amor, foge, em busca de Joffrey, que afinal, não fora queimado como feiticeiro, mas conseguiu fugir e virou pirata no Mediterrâneo.

Angélica se casa com o Conde de Peyrac, perde tudo e é lançada na sarjeta, depois vive com um mendigo e bandido (tem um passado por trás), tem um caso com um panfleteiro, depois com um policial que a persegue (e que tem ainda uma outra história por trás, claro), depois, chantageando alguns nobres que estupraram e mataram um garotinho, consegue subir de novo na vida, se casa com um Marques (de novo: claro que tem uma história por trás!).

Coleção Angélica

É tida como amante de Luiz XIV, se revolta, foge para o Mediterrâneo, é capturada por piratas, vendida como escrava sexual para um hárem (hello, Gloria Perez, tá melhor que Dorme Jorge!), faz amizade com o eunuco (seduz o eunuco!), foge com um grupo de escravos, se apaixona por um deles, volta para a França.

Ufa. Calma, ainda é só metade da saga!

Nesse meio tempo, faltando tipo, metade da história, Angélica reencontra Joffrey, e os dois vão para o … Canadá!!!

E lá, ajudam a colonizar a colônia francesa, encantam índios, enfrentam demônios, padres e fofoqueiros de plantão.

E tem casos extra-conjugais!

O mais legal da série, que é longa, e obviamente, oscila bastante, é a dinâmica entre Angélica e seus amores. E as reflexões que a personagem vai fazendo ao longo da vida.

Eu já tentei fazer a cronologia, e pelos meus cálculos, Angélica se casa pela primeira vez aos 17, e termina o 26º livro com 40.

Diversas Renata 322

Tem seis filhos, com pais diversos, inclusive uma “filha do pecado”, fruto de um estupro…

Angélica foi a primeira biscate que conheci. Biscate, biscate mesmo. Com as capas que horrorizavam minha pobre mãe, que se indignava com o fato de eu, uma moça tão inteligente, tão elogiada pelos professores,  gostar de romances de banca (na cabeça dela, era pornografia. Ah, mal sabia ela de metade da missa. Mas isso fica para outra história).

Angélica não só teve vários amores, como teve vários amigos e amigas, refletiu sobre política, filosofia, guerra, o papel da mulher na história…

A obra é um misto de conto de fadas com crônica histórica, sé é que dá para imaginar.

E as capas… As capas são um amor à parte.

O primeiro marido, Joffrey, é o que mais aparece, mas os personagens secundários também surgem, ainda que só no fundo, ou mesmo agarrando nossa heroína, que, via de regra, é retratada lânguida e desfalecente nas capas, ao contrário da personagem forte e decidida que sempre foi.

Esse contraste chega a ser irônico…

Quer saber mais sobre Angélica, a série, e Anne Golon, a autora?

Dê uma googlada, ou aguarde meu post do dia 25 de fevereiro, no Blogueiras Feministas!

Se quiser saber mais sobre os romances de banca, também tem post meu lá no BF.

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36 ideias sobre “Angélica, Marquesa dos Anjos

  1. Pingback: Anne Golon e sua obra: Angélica, a Marquesa dos Anjos

  2. Eu sou apaixonada por esta saga mas infelizmente só li 2 deles ( ANGELICA MARQUESA DOS ANJOS E ANGELICA INDOMÁVEL). Gostaria muito de ter o restante da coleção mas infelizmente não encontro.

  3. Não sou tão jovem, mas tambem li pela primeira vez a saga de Angélica, na adolescência, na década de 70.
    Tem um doce sabor. Minha amiga, cuja mãe comprava a série em bancas de revista, lia e me emprestava. Minhas irmãs ficavam loucas pra ler, mas eu tinha que devolver pra pegar o próximo.
    Já tinha uns 25 anos, quando uma amiga me ofereceu assinatura do Clube do Livro. A primeira revista que me chegou já foi com o segundo volume. Claro! tratei logo de fazer minha coleção. E li tudo de novo.
    Uma amiga de meu pai, fingida, se interessou. Emprestei-lhe o primeiro volume com a promessa de quando terminasse, emprestaria os seguintes. Não é que a interesseira sumiu, com meu livro e tudo?
    Ah, mas ainda era possível resgatá-lo no Clube do Livro. Tratei de logo comprar, antes que desaparecesse.
    Angélica foi minha primeira heroína. Quiçá, única. Esta história é uma das melhores que já li. E olha que já li grandes, como Os miseráveis, Guerra e paz, O apanhador no campo de centeio, Ana Karenina e muitas outras que considero as grandes obras universais, sem contar O tempo e o vento e o grande Bernardo Élis, nossos brasileiros.
    Uma vida de vicissitudes como a de Angélica ser representada como uma biscate é meramente chulo na crítica de uma que escreve num blog feminista. Quanto preconceito!

    • Carmem,

      confesso que não entendi seu comentário no final:
      “Uma vida de vicissitudes como a de Angélica ser representada como uma biscate é meramente chulo na crítica de uma que escreve num blog feminista. Quanto preconceito”
      Você já conhecia o Biscate Social Clube?
      Você leu a nossa proposta, o nosso lema?
      Biscate é uma mulher livre para fazer o que bem quiser, com quem quiser, se quiser, quando quiser.
      Angélica não gostaria de ser retratada como santa, por ter levado uma vida de vicissitudes.
      Me recordo muito bem de trechos e mais trechos nos quais ela aproveita a vida e defende seu direito de ser quem desejar, e de inclusive ser biscate no sentido mais comum da palavra, dormindo com quem quiser, ou não dormindo, inclusive.
      O problema é com o biscate ou com o feminismo ou foi só com o texto?

      • Desculpe-me!
        Foi apenas uma digressão semântica. Estamos acostumadas a fazer uso indevido da palavra biscate, quanto ao seu significado original e a atribuirmos juízo de valor à mulher, quando se quer menosprezá-la. Não havia me atentado ao blog. Estava apenas pesquisando as referências à Marquesa dos Anjos. Num impulso fui lendo e respondendo tudo e sem ler mais sobre o blog. Só depois percebi, mas já era tarde. Então fiquei esperando a reação para me desculpar.
        Me encanta encontrar pares.
        Att.

  4. Já li toda a coleção. Só que eu gostei mais da parte que ela, Angelica estava na corte. Era mais emocionante. Depois que ela foi encontrar com os índios, a historia ficou chata! Mas eu fico pensando se alguém pudesse lançar essa historia no cinema e fizesse igual a saga Crepusculo, ia ser campeão de bilheteria, ia ser sensacional!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    • Katarina, apreciamos sua afinidade com o gosto da biscataiada no que se refere ao tema do post, mas lamentamos o etnocentrismo e o preconceito contidos na expressão usada no seu comentário, por isso o editamos.

      • Havia visto o comentário original. Fico feliz por haver sido editado.
        O blog é realmente respeitável.
        Sobre a produção de um filme da série Angélica, eu também já havia pensado nisso. Mas vocês já viram que é raro um filme baseado em obra literária que corresponda em qualidade? Angélica então, nem assisti todo, mas o que vi, considero aquém da novela escrita. Entretanto, com uma rica produção francesa, cineastas imaginativos, como nós leitoras, aí sim.

  5. Achei muito interessante seu blog, tenho 57 anos, comprei a coleção dos livros A Marquesa dos Anjos da Nova Cultura e não li nenhum, eu comprava muitos livros e como a coleção era grande fui deixando e foi passando os anos. Vim morar em Portugal, depois de 5 anos fui passear no Brasil e resolvi trazer alguns livros guardados na casa da minha mãe e quando fui procurar minha coleção da angélica vi que estava incompleta, minhas irmãs sumira com alguns livros, mas eu trouxe o que tinha e comecei a ler aqui e me apaixonei pela série e fiquei triste por não ter lido quando tinha toda coleção e vim pesquisar na net para comprar os que falta, vi seu blog e gostei, mas aqui em Portugal não foi editado e só se acha no sebo ai no Brasil, se tiver algum lugar que eu possa comprar me informe por favor que pedirei minha filha que mora ai comprar, desde já obrigada.

  6. Primeiro, quero parabenizá-la pelas informações bem lembradas sobre a série!
    Eu não li, mas assisti a todos os episódios que passou na TV, acredito deve ter sido a Globo, quando eu tinha meus 12 ou 13 anos. Eu e minha irmã assistíamos bem tarde da noite. E eu adorava! E descobri esse blog por acaso, neste exato momento… Acabei de comentar com uma colega de trabalho sobre um episódio, por conta de uma situação que ocorreu aqui. E comentei com ela, que embora, Angélica fosse muito boa de cama, ela era muito boa em tudo que fazia, inclusive atribuições domésticas! Minha amiga não conhecia a personagem, então tratei de googar na hora e achei várias fotos dela, linda como sempre!!!! e seu eterno Joffrey! Adorei relembrar minha adolescência com uma história que me deixava extasiada!!! Parabéns!

  7. A primeira vez que ouvi falar de Angélica foi por volta de (acho) 1975, uma série apresentada pela rede globo em 3 capítulos, Angélica a Marquesa dos Anjos, Angélica e o Rei, e Angélica e seu Destino passou muito tarde tipo 23:30 para a época era bem tarde, Eu tinha 11 anos depois de alguns anos quando entrei para o circulo do livro vi o primeiro livro da série, Angélica a Marquesa dos Anjos, recordei da série que tinha assistido na tv, e comprei, como se sabe no circulo do livro tinha-se a obrigatoriedade de pedir 1 livro a cada bimestre, depois que li o primeiro comecei a esperar a sequencia acabei comprando todos totalizando 16 volumes com quase 500 paginas cada, fiquei sabendo do seu comentário através de uma amiga que conhece a minha paixão pela história, eu tentei encontrar em locadoras a série que passou na globo mas não consegui se alguém tiver noticias agradeço.
    Ps.: aguentei muita gozação por ler Angélica, nem ligava indicava sempre, deu até vontade de ler novamente

  8. Eu tenho a coleção… Da mesma forma que a autora do blog, li por curiosidade e, na falta do que fazer, o primeiro volume (emprestado). Daí pra comprar a coleção completa no Círculo do Livro, foi um pulo. Mas no Círculo do Livro creio que não são 26 volumes, creio que foram condensados. Mas achei interessante, sim. Também da mesma forma, fui à pesquisa dos fatos históricos que são citados no livro, principalmente da história francesa e da corte do “rei-sol” e da colonização do Canadá. Pena que perdi as capas, se desfizeram com o tempo…

  9. Também tive m eu primeiro encontro com Angélica na adolescência e li o 1 livro em uma noite literalmente virei a noite ganhei de meu pai e viciei fiz como vc ia a sebosbem busca das outras coleções, a minha é de capa dura, amooooo esta série e estou ansiosa par ver os filmes….

  10. Esta semana comecei o ler. Pela centésima vez, ou sei lá, já decorei tantas partes.. Emprestei a coleção toda pra uma amiga e bem, nunca mais vi, agora estou refazendo a coleção em sebo e achei pra baixar, pq é o que tem pra hoje, agora Angélica e seus amores todos estão no meu cel, vão comigo a todo canto.
    O reencontro dela com a Polaca em Quebec dá bem a dimensão da biscatice da Angélica. Longe de se esconder, de ter vergonha, de enfiar um punhal na amiga do peito qdo faz o sinal da malandragem ao lado dela, Angélica está em paz consigo mesma. “Mais fácil foi eu pagar com uma entrega o direito de viver”. E quando não foi por isso, foi pq quis, pq conquistou o direito sobre ela mesma. Amei a postagem e todos os comentários, algumas coisas nos fazem sentir próximos das pessoas, e um amor como esses é um desses elos.

    • Obrigada, Carla!
      Esse post sempre traz pessoas maravilhosas para cá, e toda vez que alguém comenta, é como se fossemos amigas de longa data que nos reencontramos!
      Estou sempre relendo, meus livros com cheiro de poeira, a minha é aquela edição de papel-jornal, que vendeu nas bancas de revistas, e que levei mais de dez anos para completar, por isso não empresto, rs

  11. Acabei de ver o filme Angélique lançado este ano…e vim correndo procurar saber mais =) Amei como vc escreveu sobre toda a história. Até essa noite (perdão pela ignorância) nem sabia da existência desses livros e dos filmes mais antigos!! Achei muito bom! Resumiu maravilhosamente a história tanto aqui, como no blogueirasfeministas.com. Se importaria de me contar o que acontece depois que Angélica vai pro Canadá? Pode ser numa frase, resumido, como preferir….eu não me importo com spoillers mas, não suporto ficar na curiosidade kkkk… Parabéns pelo texto e qualidade de escrita que invejo.

    • Olá, Lorete, o segundo livro é “O suplício de Angélica”. Tem diferença na quantidade de livros entre edições. Esse segundo foi dividido em duas partes pela Nova Cultural, “o suplício de Angélica” e “Angélica e o Príncipe das Trevas”.

      • O segundo livro se chama ” O suplício de Angélica” e o 3º livro:” Angélica e o príncipe da trevas”.4º “A vingança de Angélica”

  12. Olá.
    Assisti ao novo filme e achei fantástico! rsrsrsrs De modo que , assim que consegui, corri pra um sebo e tratei de comprar o primeiro livro, o qual em um dia já li a metade.
    Agora com todos os spoilers que recebi fiquei até meio deprimida, pois sou fã de finais felizes e Angélica passará por muita complicação. Continuarei a saga (vou dar um jeito de conseguir todos os livros… Mas se alguém souber de um endereço na internet onde eu possa baixá-los ficarei agradecida) torcendo para que minha nova heroína encontre a si mesma, e se possível – é claro! – ao amor.

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