Direitos

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Meio bisca, essa com os peitos à mostra, né

Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Primeiro artigo dos direitos humanos universais. Direitos que são, repetida e constantemente, negados às mulheres, especialmente àquelas, vocês sabem quais: vadias, piranhas, periguetes, biscates.

Negam-nos o corpo livre. Não podemos vestir esse corpo como queremos, “também, andando seminua por aí, só podia mesmo era ser estuprada. Não somos livres para levar este corpo por onde queremos, na hora que queremos, “tá vendo que mulher direita não anda sozinha em bar, não fica na rua de madrugada. Não somos livres para gozar do que o corpo nos permite sentir “eu vi logo que não era mulher pra casar, deu no primeiro encontro e, olha, mó comportamento de piranha, goza fácil”. Não somos livres para conhecer o nosso corpo, tocar, cuidar, “menina, fecha essas pernas, quem senta de perna aberta não se dá valor. Não somos livres para dizer, “não liga não, sabe como são essas mulheres, essa aí deve estar de TPM”. Não somos livres pra criticar, “essas mulheres, é só colocar uma idéia feminista na cabeça que ficam vendo pelo em ovo, não entendem que é só uma piada. Não somos livres e ainda tem sempre um engraçadinho pra perguntar se tem alguém apontando alguma arma pra gente e nos impedindo de fazer o que quer que seja. E nem pensa que a resposta está evidente: a arma é ele e seu preconceito.

Não somos iguais, também. Há uma hierarquia entre homens e mulheres. E outra entre mulheres direitas e mulheres tortas(?) erradas(?). As outras. Sem falar na hierarquia entre mulheres cis (sejam direitas ou não) e mulheres trans. Não somos tratadas de maneira igualitária. Se uma mulher cis reclama de qualquer coisa em relação a uma mulher trans, como esta última usar o banheiro feminino ou querer andar no vagão reservado pra mulheres, a mulher cis é ouvida com atenção e a mulher trans, negada. Se uma moça direita tem seu namorado “roubado”, a outra, biscate por suposto, é marginalizada, ofendida, rotulada. Se essa mesma moça direita reclamar que um homem lhe assediou, por exemplo, ela é posta em questão, inquirida, paira dúvida sobre sua denúncia, porque, claro, todo mundo sabe, mulher é tudo histérica e o moço sempre foi tão gente boa.

 E onde a liberdade é negada e o discurso da igualdade é um disfarce para a manutenção de relações assimétricas, a fraternidade se torna simulacro e jogo de interesse. Somos solidárixs aos que nos são semelhantes e usamos e abusamos do narcisismo das pequenas diferenças. Fechamos os olhos pras dores alheias e milhões de mulheres (cis e trans) sofrem abusos, estupros, discriminação nos empregos, sobrecarregam-se em duplas jornadas de trabalho, recriminam-se por não serem boas… mães, esposas, chefes, empregadas. Por não serem o bastante. Por não serem, talvez, homens.

Eu tenho pensado um bocado nesse lance dos direitos porque, acho, tem rolado um deslocamento que me chama a atenção. Vou logo adiantando que falo de um lugar específico, então quando eu disser “as pessoas”, estou falando das pessoas com quem convivo, pessoal ou virtualmente, geralmente brasileirxs, classe média, razoavelmente letrados e tal e tal. Voltando ao deslocamento. Noto que os direitos à liberdade, igualdade e fraternidade (com seu efeito consequente de respeitar a liberdade do outro, trata-los de forma igualitária e fraterna) tem sido menos frequentes nos discursos e demandas e substituídos por uma repetida afirmação do direito à felicidade – e consequentes queixas de não estarem sendo felizes todo tempo.

Claro que cada um tem seu sentido pra felicidade e seu barômetro interno pra indicar: feliz, oba. Mas, de maneira geral, e no dicionário, essa materialidade do que se consensua na língua, felicidade, diz nosso amigo Aurélio, é o estado de perfeita satisfação.

Eu não acho que a gente tem direito a ser feliz. Veja bem, meu bem, não estou dizendo que não é pra gente se sentir feliz. Mas um direito tem, como característica essencial, a permanência. Temos direito a ser livres, fraternos e iguais, independente de raça, credo, gênero, etc. Que isso não seja respeitado, é o ponto a ser combatido. Mas os direitos não tem condicional a priori. A felicidade não goza, acho eu, da mesma natureza. Ser feliz é um estar, não um ser. O estado de perfeita satisfação tem condições que se materializam, geralmente, na figura do Outro. Como possibilidade e limite da felicidade. Então, eu não acho que a gente tem o direito de ser feliz como um dado, como escuto as pessoas (aquelas, as minhas) dizendo – ou escrevendo*.

E eu não encontro essa demanda nas pessoas (as minhas pessoas, again) mais velhas. Encontro a vontade de ser feliz. O desejo. A gana. O esforço, a tentativa para. Mas não como um dado. Não como algo garantido. A ideia de que temos o direito à felicidade parece, pra mim, pressupor que o mundo deve ser como queremos, quando queremos. E ele não é. Porque a diversidade existe. Porque o Outro existe.

Querer ser feliz permite, inclui e implica o tempo de não-ser. Não só o tempo da infelicidade, mas o tempo das miudezas, da rotina. O tempo de viver nem alegre, nem triste, poeta – talvez. Querer ser feliz implica na peleja para ser. Implica o sujeito no processo.

A ideia de que se deve ser feliz, sempre, todo tempo, leva o “não feliz” a um estado de suposta exceção, o “não feliz” como algo a ser abolido, silenciado, extinto. E fico imaginando o tanto de insatisfação que esse tipo de expectativa gera. Porque o não-feliz é a vida. Precisar, sentir falta, ansiar é o que nos torna humanos. Criamos a linguagem para dizer o que não temos. Os intervalos entre infeliz-nãofeliz-feliz é que (parece-me) permitem re-conhecer a felicidade.

Eu sempre quis muito. Eu e o Caetano. Ou o Caetano e eu, já que a música é de 1978 e nesse ano eu só queria dormir muito, correr muito, comer muito e muito abraço. Mas muito não é tudo. E não é sempre. Tem uma velha expressão: cuidado com o que deseja, você pode conseguir. Felicidade é plenitude, não sentir falta de nada. Ser absoluta e constantemente sem nenhuma vontade, nenhum desejo, nenhuma falta só é possível em uma situação. A ausência de toda necessidade só se coloca na morte. Por isso, enquanto estou por aqui, vou cantando com ele: muito é muito pouco.

* Um pequeno PS: a demanda da felicidade instantânea e imediata tem, acho eu, uma relação intrínseca com a lógica atual de consumo, onde a promessa é de que é possível ser completo basta comprar isso, vestir aquilo e/ou usar/comer/beber aquilo outro. E a espiral do consumo se apóia na lógica do desejo (que a próxima coisa vai ser a que me completude e plena satisfação, ou seja, me deixará feliz) ao mesmo tempo que nega o sujeito desejante na sua particularidade (já que qualquer pessoa vai ser feliz comprando aquele objeto anunciado). Mas isso vai ficar pra outra conversa.

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18 ideias sobre “Direitos

  1. Felicidade é poder ler seus textos, porque daí a gente reflete um monte de coisa. Esse texto mexeu muito comigo, porque eu tenho uma grande cisma com essa felicidade plena e absoluta 24 horas por dia. Há dias que eu quero ser Greta Garbo, porque acho chique, porque tô afim de ficar só. Não interessa os motivos. O que interesse é que não somos iguais, temos o direito de não ser. Eu prefiro a liberdade do poeta. E hoje eu estou feliz por ler esse texto poético tão psicanalítico. Ou é um texto psicanalista poético?

    Beijos.

    • Tá vendo, nem doeu comentar… 😉

      Eu tenho cá pra mim que a angústia é constitutiva da humanidade. E que aceitar a falha, a falta é um passo decisivo pra se aceitar mais integralmente e, assim, ao outro. De poesia eu nao entendo não, mas a psicanálise tá “nimim” não dá pra escrever sem ela, mesmo que não seja sobre ela.

  2. menina, mas o que comentar? cê colocou tudinho aí. acho que dá pr agente fazer é brigar pela alegria e não pela felicidade. Alegria, pra mim, é quando a gente tá no fundo do posso, machucados, com pena de nós mesmos, com raiva do mundo e daí a gente recebe uma mensagem, um e-mail ou uma visita de um amigo, de alguém que nos ama e , mesmo machuados, a gente se sente amado, querido, um pouco mais alegres.

    bjos, lu.

    • Sim, amore, nesse aspecto sou totalmente #teamvinícius: é melhor ser alegre do que triste. Até jogo do contente eu faço, mas, tal como a Pollyana, eu sei que há situações maiores e que o jogo não dá conta. Mas o sentir-se amado ajuda. Brigada por comentar, love u

  3. Este site é todo lindo! Gosto até de pensar que todas as garotas que escrevem aqui são minhas amigas, embora não conheça nenhuma pessoalmente, ainda assim, sinto-me próxima, há identificação mesmo quando vocês falam de coisas que são longe do meu mundo, afinal, o Brasil é grande e, ‘daquiprali’ é toda uma cultura completamente diferente o que, supostamente, seria motivo para divisão, ao contrário, faz do que se faz aqui um verdadeiro tesouro, porque é sempre um modo de aprender um pouco sobre minha semelhante, minha irmã, minha cota neste mundo. Obrigada meninas! Tudo de bom e belo a todas as que cultivam, escrevendo ou lendo, este sítio!

    • Poxa, esse é o tipo de comentário que dá gás pra gente continuar alegre e ludicamente fazendo este club. Comente sempre, adoramos aprender com nossxs leitorxs.

  4. Fico feliz por acontecer de eu ser gente e também da gente ter você aqui na Terra, Luciana. Caetanear vez em quando pode ser dor, mas também pode ser felicidade e delícia!

  5. Só pra dizer que compartilho das mesmas angústias, embora não tenhas colocado nesses termos — a palavra é minha. A reivindicação do ‘direito’ à felicidade pode ser mais aprisionadora que a ‘ditadura’ da felicidade, as duas trazidas a nós (e a gente nem percebe que isso nos chegou porque parece sair de dentro, somos levados a crer nisso) pelo consumismo. Da felicidade só quero o direito e forças para brigar por ela se assim sentir vontade. Mas, devo confessar, nunca mexi uma palha nessa direção. Porque se é um estar e não um ser, como dizes — e eu acredito e compartilho –, quero todos os momentos de não felicidade e momentos meia boca e as pasmaceiras dos dias iguais que tanto conheço.

    Ahh… Estou feliz agora, te lendo.
    <3

    • Eu me sei feliz por ter sua companhia aqui, ali, por todo lado. Eu não chamei angústia, mas é isso, essa falta essencial – e necessária – pra seguir vivendo menos alienados de nós mesmos. Não precisamos ser completos, é libertador reconhecer isso.

  6. E o interessante é que na história dos Direitos Humanos a referência à felicidade nada tem a ver com essa demanda por estar feliz o tempo todo. Na Declaração de Independência dos EUA Thomas Jefferson falou em direito à “vida, liberdade e busca da felicidade”.
    Ou seja, o direito declarado não é de ser feliz, mas de BUSCAR o próprio caminho para a felicidade (o que se liga por exemplo às liberdades de crença e opinião). Ou seja, o direito de não ter um forma de vida imposta, de ser diferente, de construir a própria concepção de vida boa. Numa leitura atualizada, inclusive o pleno direito de ser “biscate” 🙂
    Essa mesma expressão que o Cristovam Buarque propôs inserir em nossa Constituição, mas daí me parece algo bem sem sentido (embora mal também não faça).

    • Guilherme, fico sempre contente (iuuppii) quando tenho a sensação de que alguém me compreendeu inteiramente (sensação ilusória mas temporariamente satisfatória, rs). É isso que penso: buscar a felicidade é reconhecer-se em processo.

  7. Borboleta Lu amo teus textos! Este em especial tocou num ponto muito importante essa tal felicidade. O que pra mim parece lógico, e eu não vejo em outras pessoas, sem generalizar, é a busca da felicidade fazendo com que o mundo a volta mude e melhore. Na minha cabeça não é possível felicidade quando tá tudo errado com os outros (tudo errado fome, violência, desigualdade etc.). E quanto a isto, a felicidade aqui e agora, à jato calcada no consumismo escreveste muito bem destacando a pequenez de usarmos das pequenas diferenças para estar “num nível” melhor que o outro.
    Parabéns lindo texto! Beijo

    • Obrigada, Danieli, eu gosto tanto que você goste 😉

      Eu também sou da turma de que é preciso uma luta coletiva e um bem-estar coletivo pra que o meu tenha sentido.

  8. Como me fez bem ler tudo isso! É tão libertadora essa identificação com cada linha, cada palavra sua! E tranquilizante. Leio e releio e releio como se eu quisesse torná-las palpáveis, como se elas pudesse se transformar num manual prático de “peleja”. Esse texto já virou meu mantra, já entrou nos meus vade-mécum. É tudo caminho, é tudo processo. Obrigada!

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