Dos Latifúndios Emocionais

Não, não é fidelidade sexual. Não apenas, não desse jeito. Esse texto não pretende trazer letras cruas sobre relações extraconjugais, sexo fora das “mono-relações”, “traição”, nada que se refira ao termo. Até porque, não é isso, não só isso. É algo mais. Embora o tema das famosas “traições” caiba aqui, não é ele que eu quero que seja meu foco. Nossa querida Renata Lins já escreveu, para mim, o texto sobre o tema aqui no nosso clube, texto maravilhoso que vale a leitura e a reflexão, sempre. E, a partir dele, convido-os, leitores biscates, a irmos em frente. Tirem os sapatos, as roupas apertadas, o medo de estar nu, o nó no peito, a tensão, o ciúme, o medo da perda, o medo da liberdade do outro e de si próprio. Pelo menos um pouco. Um descanso. E engatemos a primeira. Adelante!

– corta –

Rainer Maria Rilke, em seus últimos escritos condensados em um livro chamado “O testamento”, anota em seus diários algo rico, que escreve depois de pensar e pensar e se revirar sobre o amor e a solidão:

“E mesmo mais tarde, mesmo agora, mesmo nestas últimas semanas, não acedi à consciência de minha natural solidão, o único meio de me tornar senhor de mim mesmo. Meu coração deslocou-se do meio de seus círculos em direção à periferia, para o lugar mais perto de ti – por mais que aí ele seja grande, sensível, jubiloso ou timorato, não se acha em sua constelação, não é o coração da minha vida. Em nossos momentos mais doces e talvez mais justos, amada, asseguraste-me que podias abarcar todos os tipos de amor por mim. Ah,…, resume-te àquela que, tenha o nome que tiver, assegura a minha vida, fortalece-me como pode. Não posso escapar de mim mesmo. Pois se eu desistisse de tudo, tudo, e me atirasse cegamente a teus braços, como por vezes desejo, e aí me perdesse, terias contigo alguém que houvera desistido de si mesmo: não seria a mim que terias, não a mim. Não sou capaz de dissimular e me transformar. Exatamente como na minha infância, diante do violento amor de meu pai, ajoelho-me no mundo e peço indulgência àqueles que me amam. Sim, que me poupem! Que não me consumam para a própria felicidade, mas me assistam a fim de que se desenvolva em mim aquela felicidade mais funda e solitária. Sem a grande demonstração dessa felicidade, por fim, não me haveriam de ter amado”.

– corta –

Rilke, corajosamente, nos conta um segredo: não podemos escapar de nós mesmos. O caminho individual é uma rica e poderosa jornada. É dentro da gente que temos o abrigo mais precioso, mais confortável e mais acolhedor, um útero que nos gera para o mundo, e para que possamos nos dar ao outro. O outro, o parceiro, a parceira, o namorado, a mulher, a companheira, quem anda junto da gente. Afetivamente, sexualmente, tenha o nome que tiver. Eu te encontro verdadeiramente se posso amar quem eu sou. Se posso ser confortavelmente eu mesmo, se você pode me libertar para eu respirar meu ar, para que eu possa inflar meu peito de meus anseios e minhas vontades. Se eu posso, eu posso ser ao seu lado. Senão, a gente patina em mares gelados de gelo fino, correndo o risco de sermos submergidos nos fundos escuros.

Só poderei amar se dentro do amor eu encontrar a mim mesma. E isso não é egoísmo, ou egocentrismo, pelo contrário. É a nossa jornada. Ego rima mais com ciúme, com possessão, com querer o outro só para si – interpretando-se esse querer em sua forma mais ampla, que vai muito, mas muito além do querer sexual. Porque amor, amor soma. Amor não é abrir mão, não é negar ou abdicar o que trazemos na nossa bagagem, nas nossas vontades, nos nossos silêncios. Amar é verbo expansivo – já me disse uma sábia amiga. Amor é impulso que nos leva além, que nos abre horizontes, que nos dá caminhos vastos e cheios de colheitas fartas. Que nos leva a nós mesmos, nós mesmos divididos nos olhos do outro, nós mesmos compartilhando levezas e transcendências, nós mesmos dividindo a mágica de estar junto, sentindo o calor do outro, conhecendo outro universo, transitando por um deserto de conhecimentos recíprocos.

Libertemo-nos para viver o amor. Sim, por mais paradoxal que possa parecer aos mais conservadores, é preciso amar muito para respeitar a liberdade do outro. É preciso amar verdadeiramente para deixar o outro ser quem ele é, sem que tentemos moldá-lo ao sabor das nossas expectativas, do nosso ciúme, das nossas necessidades de proteção, dos nossos medos. E, puxa, quantos medos! Como cantou Tom Zé: com quantos quilos de medo se faz uma tradição?

Até porque, acreditem, nada disso é amor. Limpemos o terreno, com arado de abrir portas: amor não é negatividade, não é despejar no outro as nossas necessidades. Isso tem outros nomes. Amor é soma. Não é o meu, ou o seu: é o nosso. E o nosso é esse vasto território que ninguém sabe como é, em que a gente caminha sem rede de proteção embaixo, em que a gente compreende o não saber e se solta para o que vier, ao sabor do destino vasto e grande do céu. É onde a gente se solta para o outro, venha ele como vier, e seja ele como for.

Eu te aceito. E tu me aceitas como sou, sem qualquer molde ou plano de linhas traçadas? Tu me aceitas para o que for, comigo mesma cheia de mim? Tu me aceitas para o amor que não é seu, nem meu, e que não tem roteiro com final traçado?

Soltemos o corpo, a mente, o coração. Amor não é posse. Não é compreensão (Como já disse a Clarice: “eu pensava que somando as compreensões, eu amava. Não sabia é que somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente”). Amor é incógnita de letras vibrantes, arco colorido e poderoso que nos joga exatamente para aquele ponto sem seta, sem rota ou passos com rastreamento de satélite: o ponto da descoberta. E que, por ser descoberta, não o sabemos. Nós o sentimos, cada qual como for, duas individualidades comungando o que está por vir, assim, para o que for. E com a gente cheio da gente mesmo.

Biscates avante, rumo à reforma agrária de nossos corações tão latifundiários!

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14 ideias sobre “Dos Latifúndios Emocionais

  1. Faz uns três dias que passeio pelo BSC, profundamente encantada e sentindo umas afinidades incríveis… os textos todos me impactam. Alguns me fazem repensar posturas outros me instigam a continuar num caminho já iniciado….

    Este texto me ajuda a pensar em algo que passeia de tempos em tempos em mim: como vivenciar um amor, sem as amarras do romantismo como modelo? Não sei ainda, nem sei se vou saber mas a biscatagi tem me apontado caminhos interessantes e apaixonantes
    Adelante, Silvia!
    Adelante, menin@s!

  2. Sílvia, ontem estava relendo alguns textos do Biscate e encontrei aquele seu – lindo também – da Fidelidade. E fiquei pensando o quanto este, de “ontonte” expande, potencializa, amplia a ideia de amor. E como é encantador estar aqui e ler as suas mudanças, a sua beleza, a sua entrega, a sua flexibilidade. A sua capacidade de sentir, pensar e mudar. A sua coragem. O meu mais admirado e carinhoso abraço.

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