Uni Duni Tê

De um jeito…

Eu não costumo. Não mesmo. A não ser. Porque tem vezes. As mesmas. Outra eu. De peruca ruiva, acho. Aceito. Permito. Isso: olhar. Pra trás. Pra frente. Pro nada. Era uma vez. Saber contar as histórias que não foram. Uma, duas, tantas lucianas que não existem, não existirão nunca porque eu não fui, eu não fiz, eu não dei. Ou porque sim: fui, fiz, dei, vi e venci. Não há controle, eu sei, mas esqueci. Prefiro o bem viver a um plano realizado. Prefiro. Prefiro? No só depois, eu lembro. Quando o que não sabia que seria fica com gosto de picolé. Sabor festa. Mas sempre não é todo dia, a canção toca baixinho. Bem que podia dar certo. Cruzo os dedos, sempre é melhor que roer a unha. Eu tinha uma figa. De madeira. Não lembro como veio nem onde perdi. O rumo. O prumo. O equilíbrio. Perdas e Danos, eu recito: as pessoas feridas são perigosas, elas sabem que podem sobreviver. As frases de efeito preferidas não precisam fazer muito sentido, basta que façam arder. Procuro abismos. Uma meta: preencher os vazios com o corpo. Se eu soubesse voar. Se eu fosse um peixinho. Se essa rua fosse minha. Se meu fusca falasse. Preciso de uma mala menor. De saltos mais altos. E meias de seda. Uma vontade. Um intervalo. Me resta Vinícius, a moldura de uma cama e um mau português. Quem sabe amanhã? Respiração boca a boca. Pelo menos. Eu, uma pessoa melhor. Ou isso: uma. Quando eu nasci não tinha anjo nenhum, só um motorista de buggy e as dunas. Vai ser com emoção, ele disse. Apertem os cintos, o piloto sumiu.

E de outro…

qual_a_que_vou_escolher

Escrevi, nesse mesmo clube, que as melhores escolhas não existem. Só existem as escolhas que fizemos. Que estamos fazendo. Essa. Agora. O que eu não disse (acho) é que escolhemos sempre, todo dia, o dia todo. Mesmo as pessoas péssimas em escolher – como eu – estão decidindo na sua aparente incapacidade de decidir. Nesses momentos, estamos escolhendo não escolher.

Escolher é difícil. Significa abdicar não só do que imediatamente se abandona, mas abrir mão de todas as consequências de se ter feito esta opção. Uma escolha é abandonar possibilidades. Mas é, também e principalmente, encantar-se por uma possibilidade e torná-la real. Amar é exacerbar o desafio. O amor é uma escolha, menos de pessoa que de relacionamento, acho eu. É preciso escolher além do ir ou ficar. Escolher o como fazer estas coisas é o (meu) nó da questão.

E o como não tem receita, modelo ou prescrição. O como é a medida da individualidade. Quando somos capazes de assumir e nos responsabilizarmos por nossas escolhas damos um passo a mais na direção de sermos capazes de reconhecer e respeitar a alteridade, de reconhecer e respeitar o direito do outro escolher e se responsabilizar por suas escolhas e, assim, nos tornamos um tantinho mais livres de avaliações e julgamentos das nossas escolhas e das escolhas alheias.

Essa é uma escolha e um compromisso meu: tentar não julgar. Não julgar escolhas, modelos, opções, rotas, caminhos. Não julgar as mulheres por serem biscate, esposa, monogâmica, poliamor, fútil, militante, perua, periguete…não julgar, não comparar, não hierarquizar. Viver, gozar, sorrir já tá bom demais pra mim. Ir aprendendo devagarzinho que há tantos tipos de pessoas quantas pessoas existem. E que Biscate é o rótulo provisório pra dizer: somos muitas. Eu sou muitas.

Das Escolhas.

Então, hoje, eu escolho me reinventar. Hoje eu escolho tentar. Hoje eu escolho me permitir. Hoje eu escolho pequenas travessuras: segurar uma mão, usar meias grandes demais, comemorar o Dia de São Valentim. Hoje eu escolho não fechar a porta. Escolho aceitar sua proposta. Depois a gente decide o como.

 

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9 ideias sobre “Uni Duni Tê

    • Essa é a minha frase preferida de um filme maravilhoso com Binoche e Jeremy Irons, vale a pena demais. Que bom que você gostou e, ainda melhor, que você partilhou belezas. Gostei muito, obrigada.

  1. Tem como não gostar disto?

    (…) escolhemos sempre, todo dia, o dia todo. Mesmo as pessoas péssimas em escolher – como eu – estão decidindo na sua aparente incapacidade de decidir. Nesses momentos, estamos escolhendo não escolher. <3

    O como é a medida da individualidade <3

    Não tem!

  2. Pingback: Você Não Acredita No Amor? | Biscate Social ClubBiscate Social Club

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