A dor, a culpa, o samba, os relacionamentos

Sabe aquela musiquinha  gostosa: “a dor é minha, em mim doeu, a culpa é sua, o samba é meu? Faz uns dias que ando cantarolando. É minha forma de organizar o querer, eu acho.

Nem sempre é fácil ser quem queremos ser. Nem sempre é fácil agir como escolhemos, fazer concretos os valores que soubemos construir em discurso. Nem sempre é fácil olhar pro que sempre se defendeu e pensar se é aquilo mesmo e, ainda mais difícil, reconhecer que sim, é, e tentar ser coerente com o isso. Bom, pelo menos pra mim, nem sempre é fácil (e nem pra Kátia, não é? ema, ema, ema, cada um com seu pobrema).

naoestásendofáceo

Ser quem se quer ser dá uma canseira.
Não foi fácil pra nenhum deles. Você sabe porquê?

Por exemplo, saber que a dor é minha. Só minha. Ela pode ser acolhida por quem me ama. Pode ser entendida. Mas continua sendo uma coisa com a qual eu tenho que lidar. No meu caso isso consiste em aceitá-la, nomeá-la, senti-la, enternecer-me com ela e, por fim, quando der, guardá-la no álbum de retratos que teimo em colecionar.

 Nesse ritmo, sabendo que a dor é minha, aceitar que o samba sou eu que faço. Ou calo. O que eu faço com a minha dor é responsabilidade minha. Saber que posso fazer belezas é confortador. O que fazemos com o que sentimos é, penso eu, tão ou mais relevante do que o que sentimos em si. Não se trata de renegar sentimentos ou ser mais racional que emocional. Trata-se, no meu caso, no meu caso, repito, de fazer o que me aproxima do que acredito. E eu acredito no bom. Eu acredito no gostoso. Eu acredito em viver o que há pra ser vivido e gozar do que há pra ser gozado. Eu acredito em escolher o riso. Porque no fim do dia, no fim das contas, no fim dos tempos, o que vale, pra mim, é a memória do alegre.

 E é aqui que desafino, que saio do tom da canção. Porque não acho que haja culpa do outro, a não ser, claro, nos casos de violência física ou psicológica. Mas praqueles impasses cotidianos, pros ciúmes, pras solidões, pros abandonos, pros términos, pros esquecimentos, pros atrasos… eu não credito ao outro nenhuma responsabilidade sobre o meu sentir, a não ser, talvez, existir. Ele existe na minha vida. Existe pra mim e me provoca o sentir (o que quer que seja o sentir: desejo, raiva, afeto…). Mas o que ele faz ou deixa de fazer não é o que (me) dói. É como eu sinto, vivencio o que ele fez ou deixou de fazer que importa. É isso que dói: o sentido que eu dou pro que acontece. E essa parte é minha responsabilidade. Vem da minha história, da cultura em que estou inserida, dos meus sonhos, dos meus desejos, das minhas vontades. Como eu sinto, porque eu sinto, o que eu faço com o que sinto, tudo isso é a parte que me cabe nesse latifúndio. É a partir daí que decido, faço escolhas, ajo. Sou, assim, nesse processo, responsável pelo meu desejo.

Nem sempre é fácil. Dá mesmo vontade de sacudir um monte no colo do outro. Dá mesmo vontade de cobrar. Ou de pedir. Nem sempre é fácil ser quem eu quero ser. Nem sempre é fácil confirmar, em atos, o dito. Nem sempre é fácil segurar as pontas. Mas é preciso. E no fim do dia, no fim das contas, no fim dos tempos, eu olho e sinto: alegria.

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8 ideias sobre “A dor, a culpa, o samba, os relacionamentos

  1. Nem sempre é fácil. Ou nunca é. Pra mim não é nunca. Mas é um caminho. Um desafio. Uma utopia, um norte. Orienta. No meio do escuro, orienta.
    Beijos, borboleta.

  2. Coisa mais dolorida do que as certezas não há. Que bom que há voce para nos lembrar que reflexão dói, mas é necessária, que é preciso fazer essa reflexão e por me dar um confortozinho na minha própria dor, na minha incerteza e na minha busca pela coerência. <3

    • eu não sei se esse texto é necessário pra alguém mais, mas pra mim certamente é. eu preciso, vez em quando, reler. E continuar tentando, né. É um prazer compartilhar a busca com você <3

  3. Pingback: À guisa de amor, pelas beiradas | Biscate Social ClubBiscate Social Club

  4. Olá, Lu, preferi botar meu comentário em anônima pra outras galeras. Eu gosto muito do que você escreve e sou fã das suas narrações futibolísticas na face. Mas eu fico meio em dúvida e com uma coceira atrás da orelha, em pensar q a culpa seria minha acho justo culpar o ooutro nem que seja um tiquim, por exemplo: existe um padrão de beleza mulher branca, loira e corpaço.Eu não me considero nenhuma destas três coisas. Nunca na minha vida vi ninguém se apaixonar por mim, ou eu gostar da pessoa e ela também ter sentimentos por mim.Eu não sou a mulher com quem os caras querem se casar ou sair socialmente, eu sempre sou a dos cantos, feita pra saciar os desesperados, a das quatr paredes, isso doí, o samba é meu, mas a culpa não é minha, juro que não, e me pergunto se não seria dos caras pq não acho que seja possível que façam isso tudo sem saber, aposto que sabem e acho q nesse caso, eles deviam, sim, ligar pro meu sofrer e o das outras tantas mulheres que estão à margem, que não enfeitam o mundo, que não são assim tão lindas quanto a que eles preferem, ou que aprenderam a preferir, se a culpa for deles, se vissem isso, se eu pudesse mostrar.Eu sei que ficar triste não é bonito, mas é oq acontece, no meu caso.
    Emfim, obrigada pelos textos, sentimentos e palavras!
    Um Abraço!

    • Olá, anônima, obrigada por comentar 🙂

      Vou tentar conversar um pouco sobre seu comentário, mas, né, não tenho “a verdade” sobre nada, apenas idéias. A primeira coisa é que sim, tem esse padrão aí. Na sociedade ocidental sempre tivemos algum padrão de beleza e agora, pelas mídias e tal, ele parece mais onipresente. Entretanto uma coisa que eu, pessoalmente, fiz, foi inverter a operação. Não me interessa o que “os homens” querem. Não me interessa que eu não seja o que os homens querem. Me interessa o meu querer e eu não quero alguém que seja determinado pelos padrões. Esses homens não me interessam. Isso, pra mim, foi libertador. E acho que permitiu que eu me abrisse pra ver quem me via. A outra coisa é que quando falei que a culpa não é dos outros também não significa que ela é minha. Nós somos construídos e nos construímos imersos em uma cultura que nos dá as ferramentas simbólicas pra nomearmos nossa existência e darmos sentido a ela, o outro não chega na hora, eu sinto o que eu aprendi a chamar abandono, outra pessoa pode sentir ciúme, etc. Ele pode estar atrasado porque o trânsito, porque esqueceu, porque teve que passar em algum lugar…O que a outra pessoa vive, é dela. Eu só posso dar conta do que eu vivo, acho. Então os moços aí que não se interessam por alguém fora do padrão, eles tb foram criados e se criaram nessa cultura. Eles também tem determinantes aos quais “precisam” se ater para se saberem como são. Acho triste pra eles? Acho. Mas não posso dar conta disso. Posso dar conta do meu olhar e ver se eu não estou repetindo a demanda desses padrões…Quanto às pessoas que enfeitam o mundo, eu faço um exercício, sabe. Na rua, nos transportes públicos, eu olho cada pessoa e procuro uma coisa que acho realmente linda. Não falha nunca. Todo mundo, se a gente olhar bem, de qualquer gênero ou idade, tem algo que a distingue. Por fim, ficar triste é das coisas mais bonitas que tem. Significa que você se importa, que você sente <3
      beijos, por favor comente sempre.

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