Biscate Caminhão

#LuznasMulheres

Você já ouviu falar de estupro corretivo? Já teve sua sexualidade posta em questão como sendo uma fase? Já ouviu dizer que sua orientação sexual depende apenas de um “homem te pegar de jeito”? Já correu risco de ser vítima de violência ou ser expulsx de algum lugar por estar de mãos dadas ou trocar beijos com a pessoa de quem você gosta? Já viu o movimento que deveria lhe representar invisibilizar sua luta (20 homenageados e nenhuma mulher, seja cis ou trans)? Já sofreu, solitariamente, achando que “tem alguma coisa errada com você porque não é igual a todo mundo” simplesmente porque a sociedade tem um discurso equivocado de normalidade e escamoteia a diversidade? E, principalmente, já teve sua narrativa, sua história, sua vida simplificada em negativas porque é tudo que as pessoas hetero – mesmo as bem intencionadas que nem esta que escreve agora – acham que tem pra dizer sobre você? Se você não é lésbica, talvez nada disso tenha sido um problema pra você.

Hoje, sob os holofotes na Semana Bisca de Luta pelo Dia Internacional da Mulher, se dando (uia) a ver e conhecer, Tati. Porque é uma bisca lésbica de luta. Mas é muito mais. Enjoy.

Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo, eu quero morrer no seu bloco, eu quero me arder no seu fogo

Biscate Caminhão “Biscate caminhão, Tati, 25 anos, @tatiols. Brega, punk, funk, rock, MPB… Toco violão, aparo as unhas, faço pequenas reformas, trabalho com eventos, fui jubilada da UFMG em 2010 no curso de filosofia e sou militante com causa. Não uso salto porque agarra no pedal do caminhão. Já palestrei na ALEM – Associação Lésbica de Minas Gerais sobre sexo seguro entre mulheres que se relacionam sexualmente com mulheres.

cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é

“Ser mulher está muito além do gênero, da sexualidade, do corpo. Ser mulher é muito mais que poder gerar ou usar salto. Definir a mulher nada mais é que engaiolar, podar. Não permitir que sejamos tudo o que podemos/queremos ser. Meu ser mulher é ser de luta, ser de movimento, de não levar pra casa desaforo, de não se calar.”

levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima

[as principais dificuldades que encontro no cotidiano pela minha condição de mulher são] “Assédio, preconceito, piadinhas, violência, agressão, agressividade, julgamentos. Não só por ser mulher, mas por ser mulher-lésbica, mulher que não parece mulher, mulher interrogação… Sou muitas vezes “confundida” com homem por não encaixar no molde do ser mulher socialmente aceito. Quando tirei minha camisa na marcha das vadias fui julgada inclusive por algumas pessoas que dentro de um movimento de empoderamento do próprio corpo, fiscalizavam o cu e as estrias alheias… Não tenho corpo dentro das normas aceitáveis, vim com defeitos de fábrica e sem possibilidade de devolução. Sou gorda, feliz, safada, biscate e vadia.”

tati1

qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar

Limites? Somente os definidos pelxs pessoas que participam ativamente (ou não) do ato. O resto extrapola qualquer limitação. Eu não posso mandar meu tesão não se direcionar pra umx ou outrx pessoa por que elx tem pinto, buceta, gosta de cachorros ou não limpa os pés antes de entrar em casa. Afetividades tenho muitas, e só se limitam por serem afetos.

 Oh! Baby, você não precisa de um salão de beleza, há menos beleza num salão de beleza, a sua beleza é bem maior do que qualquer beleza de qualquer salão

“Ai bela morena, morena bela, o que te fez tão formosa és mais linda que a rosa pedurada na janela.” O belo vem de dentro. Vem das sensações que se tem. Vem dos humores… Eu? Como diria Stéphany: Eu sou lindá, absoluta… Tive problemas, como (arrisco dizer) todas as mulheres. Não quis ter peitos, quis aumentar, quero não ter de novo. Sou gorda, já fiz coisas que não gostava pra perder peso, passei por bulimia, tomei remédios e remédios em nome da boa saúde-forma, e nesses processos todos descobri coisas que gostava e levo comigo e deixei muitas coisas pra traz. Pessoas também. Posso não ser o que a mídia prega de beleza, mas me garanto na hora de sentir prazer. Hahaha. Padrões são esfregados nas nossas caras sem parar, tem dias que ligo, tem dias que não. Mas faço o que posso pra mudar pelo menos a forma como quem me rodeia me recebe.”

tati3

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões

“VAMOS FALAR DE COISA BOA! Sexo! Ah! Sexo é muito bom, sexo é delicioso. Quando penso em sexo eu salivo! Roçar a língua? Nas línguas, na nuca, no pescoço, na buceta, no cu… Gosto muito da língua pra sentir xs pessoas. Banho de gato mesmo, sabe? Além de a língua ter um toque suave, ela transmite muitas sensações pra mim… Tem coisa melhor? Mas o sexo na minha vida tem dois momentos mais definidos, quero-o-tempo-todo-não-pára-não-pára-não-pára-não, e o “pode ser só carinho hoje?”. Eu respeito meu corpo, meu tesão e minhas vontades. Se a vontade é se divertir sozinhx, okay, vamos lá! 5 horas direto de self-love. Mas se não, não quero nada, nem carinho, bom, já fiquei 11 meses sem trepar…

tati4

 Longe se vai, sonhando demais, mas onde se chega assim

“Sonho meu, sonho meu… Minha vida acadêmica inexistente hoje me entristece… Quero estudar, poder ter meu canto, essas coisas que quase-todo-mundo-quer… Perdi minha mãe no novembro passado, então as coisas deram uma chacoalhada bem grande… Agora, coletivamente, quero paz. Não essa paz registrada em cartório que a mídia vende. Quero poder ir e vir sem medo de sofrer por ser mulher/pobre/negra/índia/lésbica/trans/ET. Quero não ter medo de não conseguir emprego porque meu chefe pode ser misógino/racista/homofóbico. Quero não ter de me esconder pra nada. As vezes escuto algumas pessoas falando que tá tudo lindo, a gente pode casar em vários lugares do mundo, as pessoas não matam mais por homofobia/etc, a gente reclama demais… Eu penso, cara! Vive na pele de algum grupo marginalizado pra você ter idéia do que mudou de fato!”

Eu apenas queria que você soubesse… que: “Eu sou uma pessoa legal. Uma pessoa muito muito boa. Daquelas que passa por cima de si pra fazer alguma coisa pros outros, e eu demorei mas entendi que a primeira pessoa que eu tenho que agradar sou eu mesmx. Só que se colocar no lugar do outro, entender o porque de escolhas ou ações não significa concordar, mas facilita na hora de dialogar, e diálogo é o mais importante de tudo. Sempre.”

“Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”. Você acha que há uma bandeira do feminismo que melhor lhe representa? E onde, na sua visão, estão as brechas, as falhas, as faltas?

“Eu dou (e muitOPA) bandeira o tempo todo. Mas que me defina, não. Já “sofri” gordofobia no meio feminista/gay, homofobia no meio feminista acadêmico, misoginia no meio libertário e uma lista maior se considerar os meios -comuns-. Eu sou de luta, sou de grito e vejo como brecha ou falha ou falta a falta de comunicação entre espaços que defendem a mesma causa. Ou que sofrem pelas mãos da mesma força. Não consigo lidar com o fato que grupos que sofrem com machismo e patriarcado não consigam se unir por qualquer motivo, já que juntos talvez a luta fosse mais leve. Solução? Pessoas são difíceis de lidar, pessoas competem entre si. E esse é o ponto, não quero saber quem sofre mais por causa da sociedade, quero saber o que posso fazer pra que todos possamos não sofrer.”

biscate é uma mulher livre pra fazer o que bem entender, com quem escolher, e onde bem quiser

 

tati5Eu sou biscate caminhão (apelido afetuosamente dado por Renata Delegata Lima). Ser biscate é ser exatamente o que se é sem se preocupar com normas de ser. Liberdade necessária, não? 😉

 

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Uma ideia sobre “Biscate Caminhão

  1. Tati, foi um prazer receber você no clube e ver iluminadas suas palavras e humor. Aprendi muito lendo sua entrevista. Obrigada pela participação e volte sempre

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *