Deu ruim

* texto especial para minha querida irmã de todas as horas, Luciana Baptista

 

Esses dias estive em Santos, transitando pelos meus laços familiares. Regresso que abriga, casca de ovo, gestações.

Coisas bonitas que a gente sente quando volta para o lugar de onde veio.

Lá estava eu nos percursos dos meus avessos, quando Luciana me diz, no meio de suas intermináveis e fascinantes histórias: “ih, deu ruim!”

“Deu ruim Lú?” Risos, cervejas, e mais risos. “É, deu ruim”.

 – Luciana, Luciana Baptista, melhor amiga desde sempre. Passamos juntas os treze, os quinze, os vinte. Trinta e dois. Quase quarenta. Montamos comunidades e baladas inacreditáveis. Vivemos alegrias e desafios aos montes, aventuras, histórias partilhadas que nunca tem fim. Irmãs de alma e festa. De dor e de ruim. Pau pra toda obra –

“Deu ruim”, contava a Lú. Simples e reto. Direto. Porque tem coisas que dão ruim. Simples assim.

A gente tenta e tenta e tenta. A gente chora, se descabela, vai até o fundo do poço e a verdade é uma só, uma frasezinha curta com um soco no nariz: deu ruim.

É, é simples. Tem plantas que não vingam. Tem projetos que não vão pra frente. Tem amores que não se transformam e não andam. Tem finais que não são felizes, e tudo bem. Porque, é fato, tem vezes que não dá para ser diferente. Tem coisas que tem seu ciclo assim, meio curto, ou curto-longo que dá nó e curto-circuito. Que nascem fadadas ao insucesso, e sua função é exatamente essa: fazer a gente acolher o que dá ruim. Às vezes a gente não tem mais nada pra aprender ali a não ser olhar e aceitar: é, deu. e deu ruim. O que foi bom no caminho, o sonho, a vontade, a tentativa, a paixão, o esforço, o gosto…acabou dando ruim. Gosto ocre, vômito, labirinto, perdição de espinhos. Lá na encruzilhada deu ruim pra cacete. Deu, e deu.

Porque dá, às vezes dá. Faz parte da vida. Todo sucesso tem um bocado de insucesso. Toda tentativa tem uma porção de erro. Para tantas coisas que desabrocham, outras tantas murcham e se despedaçam, jogando suas cores no vento e nos contando que tá bem ruim. E quando tá ruim assim a gente enterra, a gente faz a passagem, a gente dá em erro e segue adiante. O que dá ruim nem sempre tá no nosso controle e nas nossas mãos. Tem muita vontade genuína de dar certo que não encontra caminho. Tem muito caminho que não cresce. Às vezes é coisa de solo. Às vezes é falta de sorte. Às vezes é tudo isso, e nada disso.

E não, não é resignação não meu povo, porque resignar-se não é do nosso vocabulário. É questão de constatar e aprender com o que não vai. É querer enterrar e ser feliz em outras paragens, onde dá.  É saber perder e dar em ruim.

Diante do quadro, claro, a gente chora e se joga na lama. Nada na poça, se chafurda, olhos borrados de preto, cachaça na mão e Maysa no karaokê. Dignidade nenhuma diante da dor do desacerto. Deu ruim. Biscatemente, a gente vai. E desce mais uma dose porque depois da Maysa vem sempre a Maria Bethânia cantando Vanzolini: “Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”!

 
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2 ideias sobre “Deu ruim

  1. Que delicadeza para interpretar nossos êxitos e fracasso. Sou militante dessa bandeira do final do texto. ‘”Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Com arranhões e garras mais afiadas para enfrentar o adverso.
    Saudações
    Memélia Moreira

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