Hailey: Mulher e Transfeminista

#LuznasMulheres

Desnaturalizar as relações sociais, os vínculos, os gêneros, desnaturalizar os discursos de opressão e exclusão. Essa é uma das muitas formas que a militância trans* tem contribuído com o feminismo. Constantemente questionadas, as mulheres trans* lutam contra a visão de que são menos mulheres, erradas, menos humanas do que as mulheres “originais” ou “naturais”, visão esta que encontram muitas vezes na mulher ao lado, companheira manifestante, também ela feminista.

 Hoje, sob os holofotes na Semana Bisca de Luta pelo Dia Internacional da Mulher,  ensinando a incluir, a lutar e, se preciso, chutar a tampa, Hailey.

 “Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo, eu quero morrer no seu bloco, eu quero me arder no seu fogo…”

Meu nome é Hailey. Sou uma mulher trans* e sou ativista por diversas causas, mas principalmente pelo Transfeminismo.

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 Ser mulher é algo que uma pessoa define individualmente.

Não há fórmulas ou mapeamentos que possam definir nem mesmo superficialmente o que é ser mulher. É um fenômeno cultural e social malvisto, inclusive, em nossa sociedade. Ser percebidx como mulher e/ou como uma pessoa feminina é algo considerado degradante.

Quais as principais dificuldades que você encontra no cotidiano que você relaciona com sua condição de mulher?

O cagarregrismo nosso de cada dia. Críticas ao modo de falar, de vestir, de se portar. Críticas sobre o que fazer, com quem sair, com quem se relacionar. O tempo todo há um intenso shaming que vem por todos os lados quando você menos espera. Isso irrita e estressa muito, mesmo quando estamos em espaços considerados seguros. Detesto quem intencionalmente ou não quer cagar regra em cima da vida alheia.

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 Há vezes que me olho e me acho linda! Outras, porém, estou me sentindo horrorosa. Creio que todxs passam por isso, especialmente as mulheres que sofrem com a pressão por um ideal de beleza inexistente. Some isso à famosa tão-falada disforia que muitas pessoas trans* sentem e então você tem dias e dias de depressão. Mas no geral, me sinto bem comigo e com meu corpo.

“qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar”. 

Você concorda? há algum limite? e o sexo, entra nessa operação? é dela dependente?

Isso depende do que uma pessoa entende como amor. Em nossa sociedade misógina e da cultura do estupro, sabemos que feminicídio e estupro são considerados frequentemente formas de amor. Para mim amor deve ser algo bom para todas as partes envolvidas, seja ele romântico nos moldes convencionais de relacionamentos românticos, ou de outro(s) tipo(s). Não há amor que gere sofrimento, quando há sofrimento é outra coisa influenciada pelo nosso modelo social monogâmico-egocêntrico de relacionamentos (inter)pessoais. Quanto ao sexo, é facultativo e deve ser acordado entre as partes; não vamos nos esquecer das pessoas assexuais e demi-sexuais que não necessariamente fazem sexo e/ou sentem atração/necessidade de sexo, e nem por isso seus relacionamentos são menos legítimos.

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 Atualmente, a relevância [do sexo] é mínima, senão nenhuma. Por causa da administração do anti-andrógeno (hormônio que suprime os níveis de testosterona no corpo) sinto pouca ou nenhuma libido. Para se ter ideia, me masturbo a cada 2 ou 3 meses. É raro alguma imagem ou pessoa me despertar tesão. Por causa da violência cissexista que o Estado me impõe para legitimar minha identidade, não posso interromper o tratamento hormonal ainda, mas pretendo (ou ao menos, diminuir). Por vezes me sinto muito mal por não sentir absolutamente nada. Sinto que sexo é algo que me faz falta (não necessariamente sexo com outra pessoa, diga-se de passagem – sex toys já me renderam muitos bons orgasmos). Sinto falta daquela vontade louca que de vez em quando dá, mas que eu não tenho mais.

“Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”.Você acha que há uma bandeira do feminismo que melhor lhe representa? E onde, na sua visão, estão as brechas, as falhas, as faltas?

Do Feminismo não; do Transfeminismo sim: “O Feminismo será Transfeminista ou não será”. Alusão ao Feminismo Intersecional, a frase explicita a urgência da inclusão de outras categorias de mulheres nos discursos (re)correntes do Feminismo Tradicional. Certamente, a frase “Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente” é muito importante e de grande impacto, mas a mim não gera nenhum sentimento de pertencimento, visto que como mulher trans* ainda me sinto apartada do Feminismo.

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Gostaria que todas as pessoas se sentissem livres para vivenciar gênero e sexualidade sem receios, sem medos, sem shamings, sem repressões. Que não houvesse freios para oprimir e suprimir os desejos. Que soubessem que não existe nada mais legítimo, nenhuma sexualidade(s) e/ou gênero(s) é/são mais legítimo(s) do que outro(s). A vida é um eterno deslocamento entre as possibilidades e os devires. Em suma: a vida é muito curta, vamos aproveitar!

“Longe se vai, sonhando demais, mas onde se chega assim”Onde você gostaria que se chegasse? Quais seus sonhos, individuais e/ou coletivos…

Gostaria de ter recursos suficientes para colocar em prática ou melhorar todos os meus projetos ativistas. Atualmente meu sonho mais próximo é de ingressar na Unicamp, no mestrado em lingüística. Sempre quis seguir carreira acadêmica, e acho que é importantíssimo que nós trans* comecemos a ocupar posições de poder e agência dentro das estruturas sociais.

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 Cada um é (ou deveria ser) livre para fazer o que quiser, sem shamings, sem repressões, sem receios; contanto, é claro, que haja consenso. Sempre.

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8 ideias sobre “Hailey: Mulher e Transfeminista

  1. gostei da entrevista, clara, informativa e lucida.

    a unica coisa que me incomoda é o uso de termos em inglês pra dar um ar mais “cool”. existem termos correspondentes em portugues que poderiam ser utilizados.

    cristal

    • Oi, Cristal, bem vinda ao clube. O Biscate sempre se enriquece com mais comentaristas participando. Que bom que gostou da entrevista. Eu também gostei muito.

      Fiquei pensando no resto do seu comentário e, sabe, uma das coisas que fazer o BiscateSC foi me ajudando a fazer foi – para além de não julgar – tentar me desvencilhar do hábito de supor motivações aos comportamentos das outras pessoas. A gente não sabe se as palavras foram usadas por este motivo que você identificou. A gente tende a se expressar com o repertório que mais nos é próximo ou que julgamos melhor exprimir o sentido do que queremos transmitir e foi assim que li os termos na entrevista da Haley.

      beijos biscates

  2. vc leu do seu modo e eu do meu. o repertorio que me é mais proximo é a lingua portuguesa. colocar aqueles termos em portugues é até uma forma de aproximar mais as mulheres em sua luta. nem todas sabem ingles.

    cristal

    • Quando eu falei do repertório estava a me referir ao repertório da entrevistada. Entendo seu ponto, mas veja como a língua prega peças, você mesmo usou um termo em outra língua pra expressar o seu pensamento (cool). Acontece, né? Mas, de qualquer forma, se você dissesse o que usaria no lugar dos termos utilizados, já fica aqui nos comentários pras próximas leitoras e tal.

      beijos biscates

  3. eu usei uma palavra estrangeira entre aspas justamente para chamar atençao para a situacao e nao para mostrar o quanto eu arraso no inglês.

    acho que o feminismo brasileiro, assim como qualquer outro feminismo, deve ser inclusivo. para isso, usar o nosso idioma é essencial, ja que existem palavras correspondentes.

    até a marcha das vadias, que veio de fora, com nome em ingles, foi adaptada para o portugues. entao, por que nao fazer o mesmo com outros termos? sugiro que, quando um post for escrito, a pessoa responsavel pelo blog deveria pelo menos colocar uma traduçao ao final do texto.

    • Cristal,

      não achei que você tinha usado para mostrar como arrasa no inglês. Como eu disse, eu tento não supor os motivos de ninguém. Também acho que o feminismo (e a biscatagi, que, aliás, é o mote principal desse blog) deva ser inclusivo. Eu mesma não falo nada de inglês, por isso evitei colocar qualquer sinônimo pra não fazer isso de forma equivocada. Por outro lado entendi as palavras pelo sentido do texto. Provavelmente não levei em conta meu lugar de privilégio de ter uma formação que não me permitiu aprender inglês mas me deu um razoável instrumental de interpretação. Vou pedir para alguma outra biscate que fale inglês que traduza as expressões pra mim e complementaremos o post.

  4. Parabéns por dividir conosco seus medos e alegrias Hailey.. Por nos mostrar a sua luta, como são seus dias.. Foi muito especial pra mim ler o que vc relatou aqui.. Concordo quando vc diz que o feminismo não incorpora no seu discurso a bandeira trans e isso é algo que tem que ser pensado e discutido, pq vc é tão mulher qto eu, mas sofre por não ter nascido mulher.. Todavia, partilho do que disse a grande Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se”, sendo assim eu, você, as demais escritoras aqui não nascemos mulheres, mas sim nos tornamos. Grande Beijo a todas

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