Orgasmo, Uma Receita. Ou não.

Por Teresa Filósofa**, Biscate Convidada

Todo mundo quer orgasmos. Todo mundo fala sobre orgasmos. Todo mundo ao menos pensa neles – ainda que não admita*.

Zilhares de livros, matérias, programas de tevê prometem ensinar o caminho das pedras. Quer saber? A questão é que nada do que eu li, pesquisei ou conversei me preparou para eles. Quer saber mais? Até atrapalhou. Quando eu era adolescente, tinha uma vida sexual legal pra caramba, composta por um namorado carinhoso, um certo conhecimento do corpo, autoestima, uma educação bastante liberal, até uma mãe que falava do assunto eu tive. E o que faltava então para eu chegar no orgasmo? Segundo o manual, nada. E eu não tinha problemas fisiológicos me impedindo (porque já tinha tido orgasmos na pré-adolescência, antes da vida sexual propriamente dita começar). Faltava o quê então? Por que não rolava?

Tive a intuição de que faltava uma certa maturidade psíquica para chegar lá. Que o tempo de rodagem faria seu trabalho. E que era só continuar o que eu estava fazendo e gozar a fresca da brisa que uma hora tudo entraria no seu eixo, devagar, curtindo o caminho. Tomei coragem para comentar com uma ou outra amiga aqui, com uma médica. Rechaçaram minha intuição e reforçaram o discurso de que já devia ter ido. Acharam bobagem minha tranquilidade, falta de pressa. Por que deixar para amanhã o que você pode gozar hoje? Cheguei a me sentir ridícula: que tabu é ter a faca e o queijo na mão e não ter pressa de comer. A verdade é que não devia nada: poucas coisas tem que ser nos caminhos do corpo. Cada corpo tem seu tempo e sua história.

orgasmo

E segui fazendo o que eu tinha que fazer. Tive um parceiro que se recusava sequer a falar no assunto. Não preciso nem dizer que não ajuda em nada. Outras relações vieram, muita biscatagem rolou, e precisou de um bom tempo de eu comigo para descobrir como funciona a maquininha mental de puxa o gatilho dos orgasmos. Taí uma verdade nas teorias todas: masturbação realmente tem um papel fundamental para trazer o orgasmo de uma sorte do acaso para um efeito do corpo que se possa estimular, com algum controle. E o bloco do eu-sozinho também toca uma música diferente para cada uma. Eu só passei a curtir a brincadeira quando ignorei os manuais (de novo). Autoconhecimento pede uma dose de determinação e força grandes, principalmente quando o desejo sai do script, da curva, cai no delicioso terreno do inconfessável.

3 Pão com ovo, por Caroline SporrerOutras coisas que ninguém te diz: eles têm sim intensidades diferentes. Tem dia que é pão com ovo, tem dia que é entrada, principal e sobremesa, com mesa virada e taças de cristal trincadas. O que se passa com essa penca de sexólogos que não consegue afirmar com certeza que existe sim uma gama de intensidades diferentes? E de infinitas reações do corpo. Não estou falando da divisão de clitoriano e vaginal: cada um tem sua própria escala Richter. E tem dia que, mesmo num estado orgástico, de quase-quase, não vem mesmo. E tudo bem.

Numa conversa bem mais sincera com uma amiga que também já tinha se enchido dos especialistas infalíveis, caiu o assunto do orgasmo vaginal. Compartilhamos o desabafo meio triste, meio aliviado, de que não era para nós. Que bom não estar só num mundo (ou numa rodinha feminina) em que esse orgasmo, parece, vende de baciada. Até que um dia chegou para uma. Depois quase veio para a outra.

E aí chegamos a como eu cheguei. E a um outro tabu. Eu fingi. Fingi um bocado até gozar de verdade. Transformei muito quase em finalmente. E não me arrependo nem um pouco, assumi o ônus e o bônus. Quem dá entrevista para a Nova e congêneres dizendo que não se deve fingir orgasmo certamente nunca lidou com o ego ferido de um homem (não que todo homem vai reagir assim, mas como saber antes?). Às vezes o rapaz se machuca tanto, encara como falha, e não como coisa da vida, que tem jeitos melhores de lidar com a coisa. Cada vez que quase foi, levou o par a aprender o que funcionava, o que era bom, o que arrepiava. E foi ficando cada vez melhor. E muito rápido o quase virou de verdade. E quedê manual ditando regra agora? Queimei todos, do fundo do meu coração.

É triste não gozar, mas é mais triste ainda ter culpa por não ter gozado. Queria ter ouvido essas coisas quando era mais nova. Queria que nos espaços de falar das coisas do corpo, do sexo e do amor, houvesse mais paciência com os muitos tempos e histórias diferentes. E que a nossa liberdade e direito ao gozo, em todos os sentidos, não fosse nunca uma prisão. Queria saber mais cedo que com o tempo tudo ia ficar mais fácil – na cama e fora.

* quando a gente diz todo mundo é frase de efeito, né. Sabemos que existem os assexuais e que sua orientação é tão válida quanto as demais.

harry-sally

Teresa Filósofa já ouviu muita bestagi por aí afora. De vez em quando fica matutando que há tanta coisa importante sobre a qual não se trata, porque tem muito tabu até em se falar de se falar disso… Aí ela vem e solta o verbo.

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