Paixonites esquizofrênicas

Ou, o amor nos tempos da bipolaridade.

Por Jeane Melo*, Biscate Convidada

paixonite

Eu desperto e o seu cheiro ainda está em mim. Não me incomodam os seus pêlos que em carícias sorrateiras vêm parar na minha boca.  Esses me engasgam, eu cuspo e rio depois. O que me incomoda é a sua ausência. É passar o dia todo com você em mim. Quem sabe não furo uma veia, abro ainda mais um poro, invento algum outro orifício pra ver se você me ausenta sem dor. Ou racho a minha cabeça pra ver se escoam essas lembranças inúteis. Não sei pra quê as guardo. Da mesma forma como ainda não sei porquê eu nunca te disse eu te amo. Talvez puro receio disto não ser recíproco. E certamente não será. Mas estou com vontade de dizer. E aí, você aguenta? Esquenta, meu bem, pois o cobertor, é curto, bem curtinho, então vem logo. Sabe por que? Amanhã eu mudo de idéia. E te odiarei, teu time, teus pêlos, teu jeito desastrado.  Só posso ser feita de matéria abjeta e suja, porque até hoje não ouvi de você, espontaneamente, nem um mísero e vago “eu te adoro”. Eu, justamente eu, que me arranhei, me sangrei, aprendi a cozinhar na panela de pressão, a entender o que era um impedimento, a ver o jogador Fred para além da sua beleza e prestar atenção para um voleio (!). Você, verme miserável, que sai plácido e cinicamente da minha cama quase todas as manhãs não merece mais do que meu mortal desprezo. Nunca mais vou tencionar dizer eu te amo. Te odeio e tenho fome de ti. A louca de sentimentos imprevisíveis, que à distância se reconhece bipolar, só quer um abrigo no espaço de teus braços. Um carinho, somente. A palavra dita na hora certa. A coisa feita na hora certa. E não pense que estou falando das vezes que você me convidou pra comer sushi e eu aceitava com os olhos brilhando. Não, não me vendo por comida. Ok, só algumas vezes. Mas naquele dia foi sacanagem, vinho argentino e salmão com molho de maracujá, porque você precisava ser tão baixo??? Era só ter trazido mais uns cinco sashimis que eu te declararia amor eterno. E você, em contrapartida, o que você sabe do meu mundo? Sabe o que eu pesquiso? Sabe que eu choro ao ler Neruda? Que fico paralisada e arrasada depois de ver um filme de Bergman? Que meu sonho é viajar pro Chile e pra Cuba? Que meu desejo mais íntimo é ser só mais uma na multidão, confundida com toda essa gente? Mas você só sabe falar mal dos meus vestidos compridos. Esses mesmos vestidos que são elogiados no meio acadêmico e de trabalho, esses vestidos que você condena porque não são curtos, coladinhos e chamativos, como você queria. É querido, você namora com um bicho-grilo (que não vai mudar o seu visual). E eu, com um caretão tardio que quer tão somente uma menina transadinha e na moda, maquiada e escovada, toda trabalhada no previsível gênero inteligível (só Butler pra me salvar!). Juro que vou ficar apenas pra ver quem ganha essa queda de braço, eu, a sua outsider preferida.

Beijos, te cuida…

Peraí, vc sabe o que é uma outsider?

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jeane melo*Jeane Melo é uma pernambucana torcedora do Sport morando no Maranhão. Adora cinema de arte, música, culinária, bons livros, amigos queridos, vinhos, praia, meditar, escrever, viajar, assistir MMA e dançar tambor de crioula.

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5 ideias sobre “Paixonites esquizofrênicas

  1. adorei o texto, odiei o título. uma página que luta contra todos os tipos de opressão, utilizar assim banalmente os títulos de “esquizofrênico” e “bipolar”???? Lutar contra usar “gay” e “coisa de mulherzinha” como ofensa, enquanto usa distúrbios mentais pra descrever um relacionamento confuso (e talvez não saudável) é hipocrisia, não?

    • Hipocrisia contida no título? Pode ser, Nathalia. Banalização de termos médicos? Também. Relacionamento talvez saudável e confuso? Bem, é ficção. Um beijo a vc, que bom que gostou do texto. Refletirei sobre o título, ainda pensando que procede chamar esses tempos nossos, tão medicalizados, tão cheio de desafios emocionais, de bipolares. Pq a gente pode ressignificar muita coisa, né?

  2. Este, sem dúvida, foi um dos melhores textos que já li, ele expressa, nitidamente o sentimento de uma mulher, cheia de si…. alguém poderá dizer, que ela se expôs demais, eu, particularmente, acredito que, escrever é exatamente isso, expor-se.. e, penso, isso é bom…muito bom… pois a “escrita com exposição” possui uma alma… não é simplesmente um texto, mas, um texto com uma alma… Então, parabéns, Jeane, seu texto possui uma alma sensível e forte, doce e ao mesmo tempo, ousada… gosto de disso… muuito.

    • Fico feliz que o texto tenha causado essa impressão. A exposição faz parte de um projeto de assumir o desafio de uma vida autoral, vivida de forma intensa, no seu doce e amargo. Pelo menos de uma coisa, eu sei: escrever alivia. A gente passa a dor pra outrem, pois então é isso, agora essa dor, essa ambiguidade de amar, também é sua, de certa forma, rs.
      Beijos!

      • Sinto-me feliz em poder ter parte dessa dor, dessa ambiguidade… pois só quem já teve o “ser amado” perto e o viu partir do jeito que chegou, sabe o quão devastador é, amar… Concordo, mais uma vez com você, “escrever alivia”…
        Bejinhos carinhosos…

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