Um olhar a partir do portal das mulheres

 

portal

Há muito tempo que falo disso assim: a gente vive em portais. Realidades quase que paralelas: é tão forte o lugar de onde a gente olha o mundo. O que dele recebe. É tão grande a tentação de olhar do nosso portal e dizer “todo mundo”. Não é “todo mundo”: sou eu, de onde olho, com minha experiência, minha história. De dentro do meu portal.

Do meu portal de mulher, tenho vontade de falar de pequenas violências. Cotidianas, culturais. Que os homens muitas vezes nem percebem, lá do seu portal. Tão pequeno. Tão pouco. Pra que tanto barulho. “Vocês não têm senso de humor”. Homens de todo tipo acham isso: esclarecidos, estudados, viajados, cosmopolitas, elegantes, bem educados. Às vezes, calam: melhor deixá-las falar. Até cansar. Não ouvem de verdade. Esperam acabar o “surto” para chegar no que realmente importa. O que quer que seja isso.

A violência estética: o padrão que nos é impingido, que nos é enfiado goela abaixo, todo dia, toda hora. Dessa já falei aqui, num post-galeria de fotos de bancas de jornais. E tudo o que ela comporta. É como se uma mulher que não corresponda ao rígido padrão estético vigente não fosse uma pessoa de direitos plenos: a qualquer momento, pode lhe ser lembrado (numa crítica, num xingamento, como uma forma de desestabilizá-la) que ela é “gorda”, é “feia”, é… de alguma forma, errada. Se não tem a barriga chapada, o peito empinado, as coxas torneadas, o nariz afilado, o cabelo liso, como se atreve? Como se permite? Como? Se já é uma incrível prova de tolerância que ela possa estar ali, simplesmente estar. Não ser expulsa, incômoda na sua forma destoante dos cânones.

E tome infelicidade. Remédios. Esforços fracassados. E tome tristeza, auto-rejeição, sentimento de abandono. Por uma coisa tão pequena. Pequena?

Claro, há as que se libertam. Que vão por conta própria. Que dão de ombros. E que descobrem que há muitos outros espaços, há outras possibilidades. Mas isso é caminho consciente: é caminho contra a corrente. Dá pra ir, e, acho eu, é o único jeito: sair fora. O que não dá é pra deixar passar. Pra fazer de conta que é normal. Que não é violência.

Desse portal se avista, em pleno século XXI, a sutil desvalorização de mulheres que – por escolha ou por circunstâncias – não casaram, que não tiveram filhos. Essas também. O tempo todo. Se explicando, se justificando. Como se casar, ter filhos, fosse o mínimo. Como se fosse necessário “cumprir tabela”, marcar esses pontos, para só então poder ser. Poder viver, após ter realizado sua função social. Pressão cotidiana. Olhares piedosos. Perguntas sutis ou menos sutis. Murmúrios. Um “coitada” espreitando por trás das palavras amigas. Nada exuberante, nada escandaloso: fica difícil até reclamar. Sem ser tachada de “mal humorada”.

Vai ver é por isso que não casou: por conta do mau humor.

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“Mau humor” dá o gancho. Essa é a última de que eu queria falar: a violência que é a exigência de que a expressão feminina seja… bom, “feminina”. Assim: pode falar. Mas tem que ser doce, tem que ser suave, tem que ser baixo, tem que ser… muita coisa tem que ser. A Sara Joker se insurgiu aqui contra as flores no Dia Internacional da Mulher. E, certamente, não é porque ela não gosta de flores… dia 8 de março é dia de luta. É disso que se trata. Não de homenagear a suavidade das rainhas do lar com lindas flores. E mulher que discute, que fala alto, que briga, tantas vezes é desconsiderada. Tantas vezes deixa de ser escutada. “Tadinha, tá histérica“. Deixa-se de lado o conteúdo. Revolta, indignação? Ah, sinto muito. Não é bonito, não é delicado, não é “feminino”. Essa caixinha estreita e pequena onde cabe o que decidiram que era “ser feminino”.

E no entanto.  Se vocês pararem com isso, se olharem com cuidado, abrindo o olhar… se escutarem de verdade, sem desconsiderar, sem deixar de lado… tanta coisa pode… outras histórias, outras imagens, outras aventuras. O começo: mudar o olhar. Tentar perceber que existe o portal. Apenas considerar. E aí…

LeilaPasquim

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15 ideias sobre “Um olhar a partir do portal das mulheres

  1. Gostei, mas acho que esse de(s)olhar para a mulher,que é o olhar do Macho para a Fêmea,é antigo,data das Cavernas.Para o feminino? Esse é o território que parece ainda desconhecido, inclusive para muitas mulheres.O feminino plural e não o esteriótipo.
    Roberta

    • Roberta, se eu entendi o que você disse, acho que sim, que o olhar para o feminino, para o que é que isso quer dizer, ainda é território a ser muito explorado.

      • Entendeu,sim.Gostei muito do texto, bem escrito e claro.Meu comentário pontuou em paralelo ao seu escrito.A mulher conquistou tanto e tão pouco,ainda é vista como fêmea pelo mach, e como mãe pelo homem.Bj

  2. Não pode perder a linha, o prumo, o recato. Pode ficar mais grave exigindo que não se perca a “decência” e que sempre saiba qual é o “seu lugar”… É dificil ouvir tanto de tantos lugares…Tantas vozes que seu ouvido pode se acostumar. Mais cruel mesmo deve ser quando você escuta a mulher do espelho lhe dizendo o mesmo: que é aceitável abdicar de ser o que é prá ser feliz como todos querem… Se esse dia chegar, nem quero pensar… Manter a atenção nos portais. Abertos. Iluminados.
    Coisas que o texto da Renata faz com a gente… 🙂

    • E então, Patricia. O negócio é que é tanta pressão que acaba inevitavelmente chegando ao espelho, pra tanta gente. Manter a atenção nos portais: todo dia. Abrir bem o olho, os ouvidos. Não se deixar engolir. Gritar, quando necessário, pra ser ouvida.
      E se deixar ser, se deixar viver. Sem prumo ou recato. Biscatemente, experimentando… bora!

  3. Adorei o post, você sabe. Ele dialoga com tantas coisas importantes pra mim: a crítica aos padrões, a necessidade de se estar atento ao que pode parecer pequeno, a luta e o sofrimento para escapar das exigências autoinfligidas… E gostei especialmente do alerta para a “forma certa de protestar”, tudo bem se a gente reclamar, mas assim, reclamando de uma maneira dócil, mansa, discreta – ou seja – invisível.

    Obrigada por mais um post na lista dos essenciais.

  4. Pingback: Mulheres Guerreiras

  5. Que texto legal. Gostei da análise que fez sobre o que acham os homens a respeito das nossas críticas. É muito real. Acho incrível como homens de todos os tipos, predominantemente ignoram esse assunto.

  6. Pingback: Campanha #TakeDownJulienBlanc repercute no Brasil; governo anuncia veto ao visto do “instrutor” · Global Voices em Português

  7. Pingback: ‘Pickup Artist’ Julien Blanc Isn’t Welcome in Brazil, Either · Global Voices

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