Para todos e pra quase ninguém: sonhos

Iemanjá brincava com a gente na praia. Era sol de fim de tarde, o mar estava verde e o barquinho navegava um céu que quase não se via de tão rosa. Inundava-nos em sonho.

O vento era forte e Santa Bárbara sussurrava. Era conforto. Estava quente e eu só me lembrava que a distância é o esquecimento… como a música gosta de dizer. Brincar era mais que aquilo e responsabilidade era dádiva. Não estávamos no limbo, mas num interstício entre ser e ser também.

Cantávamos nossas músicas. Eu velho, quase macambúzio; você tristemente, buscando um reconforto para aquilo que acreditava nunca ter passado. Não era a vida, apenas parecia uma profusão de momentos sem nada que os alinhavassem, mas era bom.

Era um jeito de estar, uma mania de inventar, uma chance de não pensar, um sentir de arrebatar. Não causou euforia. Muito menos ilusão. Quebraram-se mitos de ações inesperadas, de reações desapontadas e de feições acalentadas. Era simples não ser o que a música espera que sejamos… A arte não era o nosso forte.

Inesperado, poderíamos dizer… não, não dessa forma. Racionalidade imperava naquilo, mas era contrária ao que praticávamos. Imperavam predicados, mas nossos verbos estavam mal e parcamente colocados, nossas regências nominais se confundiam. Éramos ora vocativo, vezes aposto, mas nunca orações subordinadas.

Faltavam-nos conhecimentos e línguas que pudessem expressar aquilo que não queríamos omitir, mas que uma megalomania de sentimentos enveredava. Excessos de cosmopolitismos. Éramos crianças em gênero, adultos em número e liberdade em graus diferentes.

Sonho causado pelo vôo de uma abelha em torno de uma romã, Salvador Dalí

Sonho causado pelo voo de uma abelha em torno de uma romã

Fraternidade nos soçobrava. No íntimo, reconhecíamos-nos, mas dispensávamos. Éramos distintos disso. Disso que todos esperam… Alagar cântaros de virtude nos era demais. A tentação nos bendizia e a transgressão nos estimulava. Estávamos ali, diante de Iemanjá, à lá traviatta

Não queríamos fora, não exigíamos diferentes, não manifestávamos o óbvio. Apenas chorávamos o também… também. Para todos também, mas pra quase ninguém atendia… Assim, não queriam. Assim não se entendia. Estávamos ali por você, também, éramos biscates…

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