Até que todas sejamos livres!

 Por Niara de Oliveira

feminismo-te-quiero-libre

Na véspera do 8 de Março deste ano, o site do Instituto Humanitas Unisinos publicou uma entrevista com aquela que sempre foi minha maior referência teórica do feminismo — desculpem-me se decepciono; mas, sim, uma feminista brasileira –, Rose Marie Muraro. Referência não só porque a linha feminista defendida por Rose tem o recorte de classe — indissociável, na minha opinião –, mas pela contextualização histórica. Ela sempre se deu ao trabalho de buscar a referência e a construção histórica da nossa condição de opressão, e nem preciso dizer o quanto isso é fundamental. Para combater a opressão é preciso saber como chegamos a essa condição e reconhecer nosso papel e lugar dentro dela. E a Rose sempre fez isso, e numa linguagem tão acessível… (o tempo em que trabalhou com Dom Helder Câmara e com a Teologia da Libertação devem ter ajudado muito nesse sentido)

RoseMarieMuraro

Rose sempre foi uma entusiasta das ações sociais dos governos do PT. Segundo ela, e muitos outros, tirar pessoas da miséria representa tirar mulheres da miséria, empoderá-las. E, de fato, os governos do PT fizeram isso. A questão é que afora isso não se avançou quase nada em termos de políticas públicas para as mulheres. A Lei Maria da Penha não foi iniciativa do executivo e delas (iniciativas do executivo) as notícias sempre foram ruins na questão de gênero. Tivemos o retrocesso na discussão sobre aborto, a partir da chantagem feita em conjunto pela grande imprensa e bancada “pró-vida” desde a campanha que elegeu Dilma Rousseff e que nos garantem que o SUS não oferecerá as condições necessárias para os procedimentos nos casos já previstos em lei — sendo que podemos ter retrocesso na lei. Temos a ameaça do maldito Estatuto do Nascituro, (e contando com a postura de refém desse governo diante da bancada pró-vida) que se aprovado, será sancionado. E ainda tivemos o absurdo do tal cadastro de grávidas ou bolsa-chocadeira (MP 557) que visava — não tenho dúvidas — o controle sobre as mulheres pobres que abortam.

Em dezembro passado estive na audiência da CPMI (investigação conjunta do Senado e Câmara Federal) da Violência Contra a Mulher em sua passagem pelo Rio de Janeiro. Os depoimentos e relatos me calaram. Eu que tanto me orgulho de já ter mais de 20 anos de luta feminista senti vergonha. Vergonha do meu ativismo feminista – em conjunto com o ativismo de outras feministas – não ter conseguido mudar um milímetro sequer a situação da mulher brasileira ante ao machismo em sua face mais cruel, a violência. Estava previsto que o relatório final seria votado no final de março deste ano. Continuo aguardando os dados coletados pela CPMI.

E ainda tem os salários desiguais, a presença ainda acanhada de mulheres em cargos de direção — seja na administração pública ou privada –, a violência e falta de assistência no parto, as políticas criminosas de controle da natalidade, o racismo, a lesbofobia, a transfobia e mais uma infinidade de “detalhes” que tornam o ser mulher neste e em qualquer outro país um desafio permanente. Diante desse quadro, nada favorável, concluiu Rose Marie Muraro:

“Sobre os desafios do feminismo, estão todos vencidos. Hoje nós já conseguimos tirar a miséria do Brasil. Esse é o principal desafio para o feminismo. Não é um desafio masculino, é um desafio da mulher.”

(leia aqui a entrevista na íntegra)

Desde que li essa entrevista nunca mais fui a mesma. A decepção e desolação com essa entrevista equivale a saber – em hipótese – que Marx antes de morrer tivesse se tornando detentor de um meio de produção e explorasse trabalhadores. Meu mundo caiu, junto com as tranças, os butiá do bolso e o cu da bunda. Rose pode estar muito empolgada com o “sucesso” dos programas sociais dos governos do PT e parece que esqueceu de analisar os números e índices da violência contra a mulher.

Se vivemos dias obscuros na luta pelos Direitos Humanos no Brasil, não se enganem: as mulheres é que sofrem mais com isso. É a violência contra nós que é naturalizada, introjetada. Ao ponto de ninguém estranhar que durante o julgamento dos assassinos de Eliza Samudio o registro seja sempre, invariavelmente, “o julgamento dos assassinos da amante do goleiro Bruno”: no título dela o julgamento e a condenação moral e a culpa (inclusive por sua morte), no título dele a profissão honrada. Ao ponto de ninguém estranhar a “pergunta” sobre o que uma “mocinha” estaria fazendo de madrugada na Lapa quando foi vítima de um estupro coletivo. Ao ponto de ninguém estranhar e até concordar com os comentários maldosos de Gerald Thomas sobre a roupa curta e o comportamento de Nicole Bahls ao tentar justificar sua agressão a ela: “uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PÂNICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido! (que nada! Brincadeira também!)”. E sobre esse comentário ridículo a Renata Lins já disse tudo o que eu gostaria de dizer.

A Índia é aqui, em Cuba, no Japão, na Rússia, nos EUA, na Etiópia, no Afeganistão ou no México. Não há lugar no mundo em que as mulheres estejam a salvo do machismo e da cultura do estupro e da culpabilização da vítima pela violência sofrida e do moralismo barato e da hipocrisia.

não sou da Marcha Mundial de Mulheres, mas estou pegando seu slogan emprestado

não sou da Marcha Mundial de Mulheres, mas estou pegando seu slogan emprestado porque só serei livre quando todas as mulheres forem livres, e até lá seguirei lutando

Por tudo isso, dona Rose Marie Muraro (aquele momento de audácia em que ouso discordar daquela que até aqui era minha maior referência teórica no feminismo — sou dessas!), o feminismo não está superado e nem seus desafios foram vencidos. Se hoje há programas sociais que tiraram muitos brasileiros – e entre eles a maioria de mulheres – da miséria isso não quer dizer avanço ou libertação da opressão de gênero e muito menos fim da desigualdade social ou da violência.

O feminismo só estará superado e seus desafios vencidos quando todas as mulheres forem livres. #prontofalei

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*Escrevi um artigo menor, mas com o mesmo mote, para o Jornalismo B impresso, que deverá sair essa semana. 😉
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7 ideias sobre “Até que todas sejamos livres!

  1. E falou lindamente! (ok, rachei de rir na frase do mundo, as tranças, os butiá e o cu da bunda caídos no chão…rs).
    Ainda faltou falar da desigualdade salarial de gênero, que é gritante; os graves problemas que mulheres vem passando em relação ao parto, entre outras causas…temos muito pelo que lutar ainda!
    Beijo

    • A frase essa eu tuitei no dia em que li a entrevista, e falei sério.
      Faltou falar sobre muita coisa. Mas, pera que vou acrescentar uma frase citando esses temas. 😉

  2. Ni, saca esses lances de admiração que faz a gente ficar com a cara no chão de decepção. E tristeza mesmo. Só Kátia, a cega, pra definir a sensação.

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