Bunda de fora, salto alto de “fuck me”

burca-mulher (1)

Pois é. Teve a cena lamentável do Gerald Thomas esta semana, enfiando a mão por baixo da saia de uma constrangidíssima Nicole Bahls. Muita gente já falou disso, embora talvez menos do que eu esperasse. Tem sempre um subtom “assunto de mulher”. Ou será hipersensibilidade minha?

Mas não resisti a comentar o comentário do próprio Gerald, no seu blog, defendendo a “brincadeira”. E é isso que o “artista” tem a dizer, como se pode ver aqui:

Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios à mostra, dentro de um contexto chamado PANICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido ! (que nada! Brincadeira também!)

Aí, amigo, é “perdeu, playboy”. O melhor que Gerald teria a fazer, o mais honesto, o mais honrado, seria pedir desculpas por, na nossa sociedade hipermachista, fazer brincadeira com a violência sexual que é assunto cotidiano das mulheres. Extremamente cotidiano, como mostra este relato da Adriana Torres, corajosamente levantando o véu sobre histórias que vezes demais são sofridas em silêncio. Do nosso lado. Conosco. Todo dia. Um doloroso relato intitulado, significativamente, “Ser Mulher”.

Não que eu de verdade esperasse desculpas: mas me impressionou a naturalidade com que ele  usa a argumentação mais machistamente clichê, mais canalhamente comum, de culpabilizar a vítima, de bunda quase de fora, de salto alto de “fuck me”.

Uma pessoa usando salto alto de “fuck me” já abdicou, segundo esta lógica, de sua dignidade: esse sapato, essa roupa. Tsc, tsc. Tão oferecida. Tão indecente. Ela tava pedindo. Foi só uma brincadeira, e essa “gentalha hipócrita” não entendeu.

Incrível como o argumento é tão igual ao do agressor de todo dia. Mulher pode ser mulher, desde que. Embora. Apesar de. Contudo. Pode ser, com restrições. Com contingências. Os sinhozinhos de engenho entenderiam tão bem a explicação de Gerald. Claro. Ela estava usando saia curta, sapatos de “fuck me”. E tantas vezes é isso: se estivesse de saia comprida. Se não tivesse me olhado desse jeito provocante: olhar de “fuck me”, por suposto. Se seus quadris não rebolassem tanto. Se não tivesse esse decote.

No fundo da minha mente, tem aquele filme fantástico com a Jodie Foster e a Kelly McGillis: “Acusados”. E esse é o nome em português, mas o nome em inglês é “The Accused”. Ambíguo. Porque é essa a história do filme: uma garçonete (Jodie), que bebe demais, que sobe em cima da mesa de um bar, dança provocantemente, e é estuprada por um grupo de frequentadores seus conhecidos. Ela os acusa de estupro, mas o julgamento acaba virando um julgamento dela também: da sua saia, de seus hábitos, do fato de ela subir em cima da mesa, de dançar provocantemente. Acusados? Acusada? Roupas de “fuck me”, dança de “fuck me”. No filme, a advogada brilhantemente interpretada pela Kelly McGillis consegue fazer prevalecer seu ponto de vista: estupro é estupro, e não importa a roupa, o comportamento da vítima.

Accused

O filme é da década de 80, mas parece que pouca coisa mudou desde então.

Nada de novo nesse front, Gerald. Você, que posa de artista transgressor, falou como falaria qualquer machistazinho de plantão por aí, culpando a vítima que “pedia” sua agressão, com seu vestido, com seus sapatos. Tudo tão igual a dantes no quartel de abrantes. Tão tristemente igual. “A vadia tava querendo”. “Ela era biscate.” “A gente bateu nela porque pensou que era puta”. Ou viado. Ou travesti. Tudo tão igual. Nesse mundo machista da porra, você conseguiu ser igual a todo mundo. Tristemente igual a todo mundo.

Nesse mundo machista da porra, onde um “artista transgressor” se sente à vontade para se justificar dizendo que a moça estava “(praticamente) de bunda de fora, salto alto de ‘fuck me’.” E, não sei em vocês, mas em mim ficou ecoando esse termo. Incomodando,  machucando, ressoando: “salto alto de ‘fuck me'”.

SaltoVermelho

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78 ideias sobre “Bunda de fora, salto alto de “fuck me”

  1. O Gerald poderia pelo menos saber escrever…gentalia é patético.O que uma pessoa insegura mas profundamente narcísica não é capaz de fazer por momentso Andy Warhol.

      • Concordo de mais que ele nem homem algum tenha o direito de nos invadir sem a nossa permissão. Mas convenhamos, que uma mulher que se preste a tal papel de “paniquete”, e ainda permite ir ao ar uma matéria tão invasiva e constrangedora como essa, não merece meu respeito assim como esse cara, o tal machista de merda, o Gerald.

        • Não, Andréia, desculpa, mas não vou concordar com você. nada justifica desrespeitar alguém e violar sua intimidade, nem suas crenças, nem suas atitudes e, muito menos, o fato de ser mulher e estar usando o corpo na sua atividade de trabalho. Eu respeito o direito das pessoas por elas serem exatamente isso: pessoas.

          • Perfeito. Outra questão do machismo é de tentar usar o comportamento da mulher para dar poder aos homens de fazer isso. Não importa se ela saiu de roupa transparente, é o corpo dela, e não dá o direito de cantada, de mão, e nem mesmo algum comentário. Mas deixa eu falar isso, até os meus amigos gays discordam, falam que mulher não pode ser fabulosa. É incrível. Ps.: Texto ótimo, sempre volto nele… está nos meus favoritos.

          • Pois é, Pedro, isso é tão difundido que muita gente concorda, gays, gente que se diz feminista e tal. “Pô, mas também não precisava exagerar”… no dia em que a gente conseguir incorporar as consequências reais desse simples fato que você enuncia, que é o corpo da mulher e não dá direito a absolutamente nada, independentemente da roupa que use, nem sei… vamos estar muito perto de ter transformado as relações nesse país. Obrigada pela leitura, que bom que o texto te inspira. 🙂

    • Ana, fico feliz quando gente como você comenta e considera acertado o tom do texto. Demorei pra falar desse assunto, conversei, discuti. Aí veio a explicação do sujeito e não deu. Beijo e obrigada!

    • Pois é, surreal. Tão careta, tão tradicional, tão igual. E ele tão moderninho, tão transgressor. Não dá pra acreditar. A gente achando que tava no século XXI e de repente… gracias pela visita, Matias!

  2. Obrigada. Agora entendi qual era a estoria que tava rolando na rede. Sua indignacao e raiva sao claras e sinto o mesmo. So nao sei se e so machismo. Como todo agressor sexual, ele parece achar que ela dava sinais de que tava afim, que queria a mao dele por baixo da saia. Seja o salto, seja a altura da saia, um olhar. Esses agressores, a maioria com disturbios de personalidades narcisista, acham que todos o querem. E sobre ele, nao sobre ele. Um doente….pedir desculpa e pouco. Devia ser processado, accused of a crime.

    • É a velha história de desqualificar a mulher pela roupa ou postura, Lu. Dessa vez ainda veio travestido de “transgressão artística”. E acho, sim, que é essa nossa cultura machista até a raiz dos cabelos que permite ao cara ter uma atitude dessas e vir com uma justificativa dessas. Se não fosse, ele escoheria outro caminho pra “brincar”, não é mesmo? Beijo e obrigada pela visita!

  3. Pessoal, me desculpa a sinceridade. Quando uma mulher se veste assim, quando ela mostra tudo o que tem (e pode) mostrar, sem ofender o básico do bom senso e da moralidade, ela está, de certa forma, se “disponibilizando”. Vamos e convenhamos, uma mulher, como um homem, que se veste de uma forma provocativa, está buscando causar uma reação nas pessoas, e, elas são, geralmente, sexuais. Se ele era o cara errado, feio, mais velho, óbvio que todo mundo vai ser incomodar. Mas, que ela estava vestida daquela forma para provocar os homens (consciente ou inconscientemente), ela estava. Se o cara fosse um ricaço ou um ator lindão, famoso, as manchetes seriam outras…. “Nicole Bahls na pegação com fulano”, “Boate Tal pega fogo com amassos de Nicole Bahls e ….” o que seja…. Ele não está certo, de forma alguma, mas, ela, também não.

    • Everton, esse seu comentário deixa claro, pra mim, o quanto a gente ainda precisa falar sobre esse tema. Porque o que você afirma aí como verdade inconteste (“quando uma mulher se veste assim…”) é exatamente algo que este texto aqui, que este blog aqui, tenta desconstruir.
      Já viu a frase logo abaixo do nome do blog? Pois é. É disso que a gente está falando. O nome do blog fala disso também: a gente se chama de biscates, de propósito. Pra acabar com essa idéia de que existem “mulheres pra namorar” e existem “biscates”.
      A roupa é a mesma coisa: uma mulher se veste como ela se veste. Sempre. Como gosta. Como quer. Como bem entende. Isso não dá direito a ninguém – alto, magro, bonito, feio, jovem, velho – de botar a mão nela. Em lugar nenhum, e muito menos por baixo da sua saia.

      • Mas temos que concordar que uma mulher que se veste assim sabe que irá provocar os homens. Não estou justificando de nenhuma maneira o ato de abuso ou qualquer coisa relacionada, cada um tem de se responsabilizar pelo que faz. Não acho que a solução é acabar com a diferença entre biscate e ‘mulheres para namorar’. Acho que realmente há mulheres que querem provocar, que querem ser tomadas como objeto sexual, que gostam de serem objeto do olhar de vários homens e tudo o mais, e há mulheres que não gostam disso. Uma das maneiras que acharam para diferenciar foi usando roupas diferentes, por exemplo. Poderia ser usado outras coisas para diferenciar, o que acabaria com tantos mal-entendidos (que muitas vezes resultam em violência). Mas não podemos negar que a mulher sabe quando usa roupa provocante. Acho que acabar com a diferença hoje existente entre biscate e ‘moças para namorar’ não vai resultar em nada, porque se quer essa diferença… se não for a roupa, pode ser outra coisa. Não podemos negar que há mulheres que curtem (consciente ou inconscientemente) ser tratadas como objeto sexual, ou mulheres que não gostam da pedagogia da relação sexual de hoje em dia: dizer sim quando quer, dizer não quando não quer. Sempre se vê por aí mulheres que dizem ‘não’ quando o cara tenta ficar com ela, aí o cara vai embora e ela fica puta, porque para ela ele deveria ter insistido. Sabemos disso (e inclusive acho que esse comportamento de certas mulheres contribui pra cultura do estupro, mas óbvio que não a justifica, porque é preciso a participação dos homens nisso).

        • Oliver, primeiro de tudo: nós não temos que concordar com nada. Eu realmente acho que não tenho que concordar com um discurso que culpabiliza uma vítima e inventa razões pra justificar o ato. Segundo, as mulheres deveriam poder fazer o que quisessem dos seus corpos, inclusive “provocar”, como você denomina. Se uma mulher quer ser desejada por um, dois, por vários homens, por outras mulheres, por quem quer que seja isso é problema dela. Ser desejável não corresponde a “estou disponível para ser tocada/abusada/violentada” a não ser na lógica machista que acha que pode disciplinar o desejo e o comportamento feminino.

          E eu posso e nego que a violência sexual contra a mulher decorra de uso de roupas, se assim fosse não teríamos freiras estupradas, mulheres de burca estupradas, etc. A roupa é só a primeira desculpa, se não servir chegam as outras: ah, mas ela estava sozinha de noite, ah, mas ela bebeu, ah, mas ela existe!

          Quanto ao que as mulheres querem e dizem: http://biscatesocialclub.com.br/2012/04/nao-tem-graca/ #fikadika

          “Todo o conjunto de traduções “ela disse…” mas “quis dizer…” é preocupante porque questiona a autonomia da mulher e se inscreve em uma tradição paternalista de ignorar o que uma pessoa adulta explicitamente enuncia.

          Não me importa que “na prática” seja assim. As práticas são transformadas por ações intencionais, não por favores divinos ou abstrações metafísicas. Se “na prática” as mulheres continuam dizendo o que não querem pra ganhar o que querem e os homens continuam se aproveitando disso pra manter a hierarquia de privilégios, tá na hora da gente, gente que faz (rá!), sair do círculo e marcar posição. Não é não, e não só no sexo.”

        • “Poderia ser usado outras coisas para diferenciar, o que acabaria com tantos mal-entendidos”

          Abuso sexual não é mal entendido. Ir além do não não é mal entendido. Acredito que você não leu o meu relato, linkado pela Renata no texto, para dizer isso.

          Abuso sexual nada tem a ver com sexo e sim com poder, poder sobre o outro. Vivemos uma cultura machista – e essa cultura casa direitinho com a cultura do estupro, do abuso sexual.

          Abraços

          • Eu estava pensando num caso específico, em que um homem é muito mais atrevido com uma mulher porque espera que ela curta caras que sejam assim. E há mulheres assim, oras bolas, elas curtem caras sem escrúpulos, que não tenham muito respeito, que façam dela um objeto sexual, que ela seja uma coisa para ser usada. Porra, num dá pra dizer sobre o gozo de uma mulher. Hoje mesmo estava vendo o jornal na tv, ouvindo sobre o maníaco do parque que estuprou umas 6 mulheres e foi preso. Quando ele foi preso, mais de MIL MULHERES mandaram cartas para ele pedindo para terem relações sexuais e coisas assim. Conseguem imaginar o absurdo? Isso ultrapassa qualquer porra que a gente diga sobre ‘todas as mulheres’. Sempre que dizemos ‘as mulheres querem tal e tal coisa’, sempre vai ter um grupo que vai falar: não, eu não quero isso. E porra, eu não estou falando que isso justifica qualquer porra de atitude do homem, pelo amor de deus, parem de pensar assim. Passar de “ninguém sabe o que uma mulher quer” para “só eu sei o que ela quer” é um passo gigantesco que nunca dei nem ninguém poderia dar, a não ser como impostor. Feministas não podem falar por todas as mulheres! Muito menos machistas! Já conheço mulheres que se sentem mal com os imperativos do feminismo, pois não se reconhecem com ele! Mas foda-se, pô, feminismo não é pra representar todas as mulheres, é para ir contra o machismo, só isso… Quando dou o exemplo da histérica que diz algo mas quer outra coisa, não estou justificando absolutamente nada, mas apenas questionando que se sabe o que uma mulher quer. E que nesse sentido não podemos basear uma pedagogia feminista nos enunciados, mas na enunciação. Enfim

          • Oliver,

            a questão é: nós vivemos em sociedade. E a sociedade tem uma série de regras de convívio, inclusive indicação de comportamentos contraventivos ou criminosos (que, claro, são historicamente convencionados e podem ser revistos). Neste momento histórico em que vivemos, o crime que repetidamente é justificado, minimizado, relativizado é a violência contra a mulher. É disso que esse post fala, é disso que estamos falando. Se os desejos inconscientes A ou B se fazem ou não presentes nestas relações não está em questão. Tem uma crônica linda do Nelson Rodrigues em que ele conta como a vítima de um homicídio “pede” pra morrer. Mas ninguém vai lá relativizar e dizer que é menos crime porque inconscientemente tem uma porção de homens obsessivos cuja fantasia inconsciente é apagar toda manifestação de falta, especialmente a sua própria. Justamente por isso se denomina “fantasia” e “inconciente”, não é?

  4. Arcaico, proviciano e machista; essas três palavras resumem bem o mundo em que nos encontramos. A idéia do machista é: a minha liberdade é inversalmente proporcional ao tamanho da saia dela. Infeliz por ser homem, feliz por ter mulheres que dão a cara tapa. Parabéns!

  5. Culpar a mulher nesse caso, é o mesmo que culpar o sujeito que tem um celular ou relógio roubado na rua: “Tá vendo, quem mandou andar com um aparelho caro desses?Pediu pra ser assaltado…”.
    Uma completa inversão de valores… O poste mijando no cachorro. Mas enfim…

    • A analogia procede, embora eu deva dizer a você que tenho mais simpatia pelo cara que rouba o celular ou o relógio – país desigual, pobreza etc. – do que pelo mané que se sente no direito de agredir mulher e ainda joga a culpa na roupa dela…

    • Ah, eu nem entrei na discussão do programa aqui e foi de propósito. Porque não era esse o ponto, né? Não importa o programa (de que não gosto nem um pouco). Eu queria discutir era a atitude e a argumentação dele.

  6. Concordo plenamente com suas colocações, e acho sinceramente que issoé caso para o MP intervir!!Respeito a mulher, e toda sua classe!!Se fosse no país dele estaria em ca!!FDP

  7. Prezada,
    Belíssimo texto. Mega o seu comentário. Realmente quase, ou nada mudou desde então. Vi e vejo até hoje essa infeliz mania de culpar as vitimas de estupro, de imposição de um determinado comportamento. Conversei com uma pessoa que trabalhou em delegacias da mulher e viu muitas meninas chegarem chorando após terem sido estupradas e receberam um tratamento frio,foram humilhadas. Aliás, a preparação de quem vai trabalhar nas delegacias no atendimento inclusive desses casos já é preconceituosa. Citam, mulheres de calça e pouca maquiagem. Usar saia e maquiagem de verdade não tira a nossa seriedade. Caramba, essa é a nossa marca. Ser feminina. .Na verdade convivo com questões desse tipo diariamente, a maioria das pessoas que eu conheço, debocham da violência sexual ou limitam nas suas idéias a liberdade feminina. Pelas coisas que li, vi e vivi, na minha mente é muito difícil lidar com essa questão. Reconheço o problema mas, a maioria ignora. É um grito no meio da multidão.
    Abraços.

    • Muito obrigada pelo comentário, Ana Claudia. E, sim, um dos problemas dessa cultura que culpa as vítimas é a dificuldade de chegar até a delegacia, de denunciar, muitas vezes por medo de ser humilhada por quem deveria estar ali para defender a pessoa.
      Mundo dureza. Muita falta de solidariedade ainda.

  8. Parabéns pelo texto. Sinto vergonha alheia em casos como esse, mas Gerald Thomas não me surpreende. Sua misoginia é do tamanho do seu ego. Talvez, se ele saísse do armário, pudesse conviver melhor com as mulheres. Isso tudo é medo. Freud explica!

    • Eustáquio, sempre fico feliz quando um homem reconhece e indica as situações de machismo. Não que a gente precise de legitimação, mas sempre fui da turma das alianças. Obrigada por vir comentar 🙂

      eu só não acho que a misoginia do GT e a misoginia em geral se relacione causalmente com a pessoa “estar no armário” (se isso tiver representado o que geralmente representa: a indicação de homossexualidade). A violência contra a mulher é sistematicamente cometida por homens heteros, mesmo.

  9. Nossa, isso é tão triste, tão, tão… nem sei qualificar o tão. Parece que os velhos preconceitos nunca mudam, independente da era que vivamos. Aí me pego pensando: Vai ser sempre assim? Todo dia julgada pelo que gosto de vestir, comer, calçar, com quem eu ando? Se eu escolher sair com roupas mais curtas e provocantes, terei cara de “fuck me” pois qualquer idiota vai se julgar no direito de me tocar sem permissão? É o machismo babaca de todo dia. Dói.

  10. Eu já falei várias vezes que detesto o que a tal panicat representa, mas não importa o contexto: ainda que ela estivesse bêbada, nua e com os maiores saltos do mundo ele não teria o direito e tocar num fio de cabelo dela. E me enoja muito que ele ache normal que aparecer como alguém irracional que não tem condições de controlar os próprios instintos seja normal e menos hipócrita só porque foi em frente as câmeras. O tal Pânico (sim, em letra maiúscula) sente toda mulher que vê uma coisa dessas acontecendo e mais uma vez resultando em nada.

  11. Eu acho q isso deveria servir pras mulheres refletirem os seus comportamentos atuais… Não estou defendendo o cara, mas q tá difícil distinguir uma mulher decente de uma periguete da vida, está… pq esse lance de moda coloca a mulherada toda vestida no mesmo estilo, tipo uma msg “to desesperada”, assim como os homens tb hoje se vestem tão ou pior q os gays e ficam bravos quando levam cantadas de homens… pô, a roupa que voce veste manda uma msg sobre voce e podem brigar comigo a vontade pq é isso que eu penso mesmo. Acho super bonito uma garota quando se veste adequadamente, pq não precisa ficar mostrando td pra conquistar uma pessoa, deixa o mistério q com certeza ele vai atrair caras legais pra ela tb.

    • Acontece, Tom, que isso não é sobre você. Não é sobre sua preferência, não é sobre o que você acha certo ou bonito. É sobre uma pessoa, uma mulher, que deveria ter seu corpo inviolável a não ser que ela explicitamente consentisse que nele tocassem. Não é a roupa ou a risada ou o tanto que uma pessoa bebe que é sinal de que ela quer isso ou tá provocando aquilo. Só ela, independente, adulta e autônoma pode explicitar o que deseja. Não dá pra diferenciar uma mulher decente de uma periguete? Ótimo, porque não é pra diferenciar mesmo. Primeiro porque não são categorias excludentes, segundo porque toda mulher, toda pessoa deve ser respeitada sem condições. Discursos como o seu sustentam a cultura do estupro, mantem as mulheres aterrorizadas e criam uma sociedade de violência.

      (e eu não vou nem discutir o lance da homofobia, sabe há um montão de mulheres que não querem atrair caras, querem atrair outras mulheres. e há mais uma porção de mulheres que não querem atrair nem um nem outro, porque são assexuais. E tem aquelas que já estão em relacionamentos. E há ainda a notícia que talvez pra você seja surpreendente, que mesmo as mulheres heterossexuais e solteiras temos outras coisas pra pensar além de atrair caras como nossas carreiras, hobbys, amizades, gostos culturais ou simplesmente correr pra pegar o metrô).

      • “Só ela, independente, adulta e autônoma pode explicitar o que deseja. Não dá pra diferenciar uma mulher decente de uma periguete? Ótimo, porque não é pra diferenciar mesmo.”

        Em primeiro lugar, essa questão do ‘adulta, autônoma, que EXPLICITA o que deseja’ não é muito verdadeira. Você só está considerando o Eu da pessoa, a consciência, como se ela pudesse realmente dizer o que quer, deixa de fora várias intenções inconscientes (o que não justifica a interpretação de tal intenção pelo homem). É um grande problema esses desejos inconscientes, quanto mais lemos sobre isso (estudo psicanálise), mais vemos que não é tão fácil dizer como o mundo deveria ser. Ainda mais sobre o que quer uma mulher, tema até hoje não respondido pela psicanálise, e que diz muito mais dos homens do que das mulheres.
        Sobre o fato de se diferenciar piriguete de uma mulher decente, acho que não é interessante dizer que não é para ter diferença. Não entendo essa homogeneização que acontece hoje, querem transformar tudo numa mesma coisa. Qual o problema de uma mulher querer ser tratada como objeto sexual? Isso é um problema dela, ela é responsável por isso. Com certeza tem mulheres que não querem ser tratadas assim. Há uma diferença de gozo, não dá pra dizer: todas as mulheres querem tal e tal coisa. Quem diz isso é um impostor. Estou achando o feminismo cada vez mais com cara de pedagogia, pedagogia da relação sexual: como fazer para não haver mais mal-entendidos entre homens e mulheres. Num tem como isso, é só estudar alguns anos sobre o que Lacan diz de ‘não há relação sexual’ pra entendermos isso. O feminismo, na minha opinião, não deveria acabar com a diferença, vir falar por todas as mulheres. Aliás, feminismo de verdade provavelmente não fala isso (Judith Butler não deve falar isso), mas estou considerando que você seja feminista.
        Enfim, como o cara do comentário disse, a roupa passa uma mensagem. Ela poderia ser usada de forma ‘benéfica’, digamos assim, ou seja, quando a mensagem interpretada pelo homem (ou enfim por quem quer que seja o objeto sexual da mulher) condiz com o desejo dela. Mas o problema é que só há mal-entendidos. E não há pedagogia que resolva isso.

        • Oliver,

          primeiro, acho que é preciso uma certa revisão da sua compreensão do que Freud e Lacan contribuíram teoricamente. Os conteúdos inconscientes de cada pessoa são – olha só -de cada pessoa. Ninguém tem autorização ou legitimidade de sair decodificando por aí (nem mesmo o analista, né, que propõe uma interpretação – se for lacaniano nem isso, faz escansão, interroga, desconstrói, etc) o “inconsciente” alheio e agindo a partir disso. NÃO INTERESSA o conteúdo inconsciente, ninguém tem autorização pra ir além do explícita e conscientemente consentido.

          quanto a diferenciar mulher em qualquer categoria que seja, eu recomendo muito que você leia – se não esse blog, já que nós não somos “feministas de verdade” (sempre é divertido quando alguém tem autoridade pra distribuir e confiscar carteirinhas ideológicas) – o Blogueiras Feministas. Mas, só pra não perder a viagem, se você se desse ao trabalho de ler mais um pouco por aqui, veria que não se trata de alguém condenar que uma mulher queira ser tratada como objeto sexual, mas de indicar que este desejo 1. não a limita nem a determina, ou seja, não precisa de rótulo pra isso, 2. não interfere na dignidade dela e no direito que ela tem em relação a sua vida e seu corpo. 3. não é um dado estático. Aliás, veja só, o nosso club se chama Biscate e tem mulher solteira, casada, namorando, tem homem, todo mundo autor. Você acha mesmo que alguém aqui tá criando manual de bom comportamento e indicação de padrão?

          E eu tentei resistir, mas não consegui. “é só estudar alguns anos sobre o que Lacan diz de ‘não há relação sexual’ pra entendermos isso.” Pois é, eu estudei.

          • Eu entendi direito? O cara está tentando falar da “psique feminina” – que, pelo que entendi do comentário, “nem as mulheres sabem o que querem” – pra interpretar o “NÃO” como um “sim”?

            Sério, cara, quem é você (ou o cara aleatório da balada) pra “interpretar” e dizer pra mulher o que ELA quer dizer com essas três letrinhas?

            Se tem mulher que “provoca” e depois se irrita ao ser deixada, é problema dela. As que REALMENTE querem dizer “não” não são obrigadas a sofrerem as consequências por isso.

            O jeito vai ser reagir com um chute? Um tapa? Será que ISSO pode soar melhor como um “não”, já que as palavras de uma mulher não são dignas de respeito?

            Gente, tô sinceramente enojada com essa argumentação! VOCÊ pode ter o número de diplomas que for, senhor Oliver, citar nomes de peso e o que quiser. Mas isso NÃO DÁ o direito de querer dizer a uma mulher o que ela está pensando – e pior, a agir de acordo com o que você ACHA que ela está pensando.

            A menos que seja uma consulta, né? Mas se for, gostaria de saber seu nome verdadeiro pra poder passar longe. Esse tipo de conversa pode servir até de justificativa pra assediar pacientes.

            Entendeu ou quer que a gente desenhe, senhor Oliver? Não importa o quão conveniente seja pra você, você NÃO TEM o direito de desrespeitar a recusa de alguém. Desce do pedestal!

            À autora do post, parabéns! Desculpe o tom, não costumo comentar, mas esse comentário é ABSURDOOO, não me contive!

            Rezando muito pra ser só um troll metido a intelectual…

      • Vou ignorar os outros comentários, mas só deixar minha reflexão: a dita cuja é uma ‘atração de televisão’… ou seja – ela é um caso a parte. Ela ganha mais do que professoras que lutam pela educação, do que técnicas de segurança do trabalho, do que algumas engenheiras ou do que qualquer outra verdadeira mulher trabalhadora… e ela ganha isto baseado neste comportamento. Eu não quero defender o machismo – quero que seja atacado onde ele é pior – nos veículos de comunicação de massa.

        Por que o tipo da mensagem que um programa “Pânico” passa para os homens jovens do país, é de que eles tem que se comportar como esse Gerald, ou como os outros transtornados e perturbados. Ela está no centro da roda, não porque ela é mulher: muito pelo contrário, na verdade… ela é um instrumento que ajuda a gerar os mesmos machistas que causam tantos problemas e sofrimentos a tantas pessoas.

        • Ah sim, e antes de usarem ‘um lado’ da argumentação, o que o Gerald fez foi sim um atentado ao pudor, violação da intimidade da dita cuja. Não me abstenho de me colocar ao lado das que exigem no mínimo, desculpas por parte dele. Mas que a produção deste programa de televisão é tão culpado quanto o tal Gerald, também o são…

        • João Carlos,

          essa argumentação se parece muito com os discursos que dizem que uma prostituta não poderia ser estuprada porque ela tá ali pra isso mesmo. Nada justifica uma violência com oa que Nicole sofreu. A violência contra a mulher é a violência que mais vejo ser relativizada ou contemporizada. Se o GT tivesse puxado uma arma e dado um tiro num dos entrevistadores, será que teria alguém dizendo que ah, não foi tentativa de homicídio porque o cara trabalha num programa babaca? dica: não.
          No mais, não vivemos uma olimpíada da opressão, não é nosso interesse comparar o trabalho da nicole com o de uma professora ou qualquer outro.Não importa o que ela faz, como ela se veste, o quanto ela bebe, se anda sozinha ou acompanhada. O corpo é dela e só ela pode consentir em ser tocada e como quer se tocada e por quem e quando.

          Como dizia Leila Diniz: “Eu posso dar para todo mundo, mas não dou para qualquer um”

  12. Rê, fiquei irada. Também porque o cara é artista. Associam (e eu mesmo já o fiz) o ser artista a ter um ego enorme. Isso qualquer um pode ter. Em qualquer profissão. Ela também é uma artista, oras. Diferente é ter um ego bem estruturado, que ajuda a sobrevivermos sem ter que mensurar nosso “valor” pela invasão ao espaço alheio. Tarefa espinhosa. E falo como artista que estou. Artista que usa o corpo com muito orgulho de ser biscate e escrever junto com pessoas como você, companheiras, que junta tanta coerência, respeito e beleza num texto extremamente forte e indignado. Todo meu amor, ça linda!

    • Viva, Raquel. O fato do cara ser artista, “moderno” e tal só torna o episódio mais lamentável, né? Eu também tenho orgulho desse nosso clubinho, viu. Beijo grande!

  13. E Tom, se seguirmos sua lógica mulheres “legais” não casariam com ninguém que bate nelas e nenhuma mulher que usa fio dental poderia ter uma relação saudável. E sabe… acontece. BUH!

  14. O que os homens não conseguem entender é que a escolha do vestuário feminino não tem a ver com eles, mas com questões de poder, entre outros fatores.
    O poder sexual é tão legítimo e válido quanto o poder intelectual, o poder de estabelecer ligações afetivas, o humor. A interpretação masculina é completamente equivocada, assumindo que traje sexy é um convite sexual: ele é apenas a afirmação deste poder sexual, plenamente válido e que deve ter papel importante na manutenção da auto-estima.
    Grande texto e um abraço.

  15. Um homem que se acha no direito de enfiar a mão embaixo da saia de uma mulher e ainda sair rindo, falando que foi uma brincadeira, no mínimo entende que o corpo de uma mulher é um espaço público. Não interessa a roupa que ela está vestindo, pois eu já sofri assédio na rua estando de jeans e camiseta. NÃO INTERESSA, gente, pelamor!

    Se fosse um inverso, uma mulher enfiando a mão por dentro da calça de um “panigato”, a puta da história ainda seria a mulher, que não se aguenta, que invade a privacidade do homem, que enfia o dedo no cu dele, que pega no pau dele. Ela seria a vagabunda, assim como mesmo sendo a vítima, a Nicolle está de puta e piriguete no caso.

    Poxa, empatia pela mulher que sofreu a agressão pouca gente fez! E toda mulher que eu conheço, inclusive eu mesma, tem uma história pra contar de abuso, de assédio, de violência, pois isso faz parte do nosso cotidiano, o que é uma lástima.

    O corpo de qualquer pessoa é inviolável, é um espaço sagrado, e você tem que ter respeito pelo corpo dos outros. Se eu vejo um cara bonitão na rua, eu posso até olhar, mas nunca que eu vou invadir a privacidade dele e meter a mão no cara. Isso se chama RESPEITO, coisa que esse Gerald Thomas não teve em nenhum momento. Ele quis causar… e causou. Causou NOJO, REPULSA e TRISTEZA por ver uma sociedade misógina apedrejando a moça e jogando confete nele.

  16. Achei extremamente lamentável o episódio. O Gerald foi extremamente infeliz na ofensiva e tanto quanto ou mais na absurda argumentação. Até entendo que o programa em questão é agressivo em suas abordagens e sempre tenta acuar o alvo através da exposição, mas nada disso justifica tal comportamento em um tempo no qual aspiramos por alguma mudança nos costumes falidos. Sociedade Moderna Atual e Esclarecida não comunga com tal atitude e ou argumentação. Eu lamento por tudo. Ele ficou devendo mais que desculpas.

    • Jefferson, é isso que acho. Não quis discutir o programa, nada sobre o programa, porque não era esse o ponto aqui. O ponto é esse que você levanta: nada justifica. Apareça sempre!

  17. Fantástico! Um “artista” considerado de vanguarda pronunciar tal declaração, cometer tamanho ato de desrespeito ao ser humano, não considero que tenha sido agressivo a Nicole, foi uma agressão a todas as pessoas que viram a cena e essas imagens. Entretanto, isso tb reflete o tipo de programa que é o Pânico, este tb não oferece qualquer respeito a mulher e ao ser humano, haja vista o tratamento que oferece as “Panicats”, ainda que, essas mulheres se coloquem nesse papel, mas eu entendo que não é porque as pessoas se colocam em papeis decadentes, perigosos que irei compactuar e aplaudir. Lamentável o episódio, lamentável que pessoas assim são consideradas revolucionárias e lamentável que, ainda nos dias de hoje, esse tipo de postura seja aceitável. Amei sua explanação e corroboro completamente. Bjs

  18. “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, diria esse senhor. No blog dele fica falando sobre “não tratar uma mulher como um objeto”, mas como é que ele “ensina” isso? Enfiando a mão entre as pernas de uma mulher! Ah, totalmente lógico, claro…

    Desculpinha mais que esfarrapada. Afinal, ele não “ensinou” os homens a tratar bem as mulheres. Pelo contrário. Ele, metido a revolucionário e “livre” das amarras sociais, age da mesmíssima forma da sociedade hipócrita que finge criticar, culpando Nicole pelo acontecido e posando de “artista que queria apenas chocar pra chamar a atenção para a objetificação da mulher”. Ahã…

    O mais triste é ver as reportagens sobre o fato. Não raro ainda mencionam ao final um momento em que Nicole “paga calcinha” durante a gravação, numa forma de “relativizar” o ocorrido e sugestionar a opinião pública (e já acostumada ao julgamento machista das “mulheres que não se dão valor”) – ah, vejam, ela ainda mostrou a calcinha por conta daquele vestido minúsculo dela! Precisávamos postar isso pra que vocês tenham uma noção do “tipo” de mulher que a assediada é. E dá-lhe comentários culpando Nicole… afinal, ela “estava pedindo”…

    E fiquei enojada ao ver comentários dizendo “Ah, parem de frescura! Ela gostou do que aconteceu, olhem como ela está sorrindo pras fotos! Se não tivesse gostado, teria dado um tapa nele na hora!”.

    Daí fui olhar novamente as fotos. Os dedos de Nicole cravados na mão dele nitidamente tentando impedi-lo. O sorriso amarelo, nitidamente sem-graça, de quem está acuada e sabe que precisa levar aquela violência “na brincadeira” porque “todo mundo sabe que esse é o papel dela ali”. De quem está perdida, mas como ninguém interfere, precisa manter as aparências em prol do próprio emprego. Afinal, se ninguém ao redor dela está levando aquilo a sério, então não é sério… não é? Não é…?

    E penso nas anônimas do dia-a-dia que dão um sorrisinho constrangido sempre que escutam um absurdo na rua a título de “cantada”, sempre que escutam uma gracinha do chefe, porque foram educadas justamente pra isso: serem “educadas” a qualquer custo.

    (Por que disse isso na 3ª pessoa? Eu mesma fui criada assim. Eu mesma passo por isso).

    Hoje em dia é tão difícil assim detectar um sinal tão claro de desconforto quanto o que Nicole está emitindo naquelas fotos? Desde o momento em que pus os olhos naquelas imagens percebi a tensão, o desagrado, a reação contida por conta da situação em que ela era, sim, o elo mais fraco. Porque ela SABE a imagem que a sociedade tem dela. Ela posa nua, paga calcinha, namora vários homens, veste-se de forma provocadora… então ela sabe que, mesmo diante de uma cena tão ABJETA, a sociedade tende a se voltar justamente contra ela. Afinal, ela “não se dá valor”. Ela não tem valor. Ela merece toda a violência, o constrangimento, as ofensas, afinal ela “pede” por elas. E esse homem é só um “coitado” que não resistiu e “bondosamente” ofereceu a ela o que “todos sabem que ela queria e merecia”… então, por que ela reclamaria? Ninguém a levaria a sério, mesmo… porque “esse tipo” de mulher não tem o “direito” de se recusar a nada. Tá oferecendo, não tá? Então “é de quem pegar”…

    E assim, tantas “Nicoles” se calam no mundo. Era o comprimento do vestido. Era a calça justa. Era o decote que talvez fosse um pouco grande demais. Era a maquiagem caprichada. Era o andar elegante. Era noite. Estava sozinha. Era a blusa de inverno, mangas compridas e gola alta, mas que infelizmente não disfarçava o suave relevo dos seios denotando que ali estava uma MULHER, e portanto uma fonte de deleite para os machos de plantão que estivessem dispostos a investir. E assim, sempre que esse tipo de coisa acontece, nosso primeiro impulso é olhar para a vítima, para nós mesmas, buscando um “motivo” e enxergando vários dedos voltados para nós e indicando de quem é a “culpa”…

    Não importa se é freira, se é Panicat ou prostituta. Isso NÃO DÁ A NINGUÉM o direito de ferir, de humilhar, de invadir, de desrespeitar. Não é difícil entender isso, é? Se determinado homem (não estou dizendo que TODO homem é assim, antes que me crucifiquem por “misandria”) é absolutamente incapaz de “conter seus instintos” ante a simples visão de uma mulher de vestido curto, deveria ser enjaulado e tratado como o animal irracional que é. Afinal, ele não pode ser solto em uma praia, em que as mulheres usam biquínis às vezes ainda mais reveladores, porque “não poderá se conter ante tantos estímulos”, não é?

    Imagine uma praia naturista, então… que “mutação extraordinária” os homens que a frequentam sofreram para não saírem estuprando cada frequentadora que surja aos olhos deles?

    Mas felizmente existem muitos homens no mundo capazes de se portar de forma mais equilibrada, o que mostra que essa questão de “descontrole hormonal” é uma desculpa absurda, uma tentativa de vitimizar o agressor jogando a culpa na “natureza masculina”. Muito mais fácil fazer a mulher se encolher e se afundar em culpa do que admitir que o que esse homem fez foi na verdade demonstrar todo o repúdio, o desprezo e o desrespeito que tem pela mulher que atacou – e qual a razão para desprezar uma desconhecida? Suas roupas? Seus gestos? Sua aparência? Sua sexualidade? Seu GÊNERO?

    Isso aqui foi praticamente um post… desculpe. Acabou sendo uma espécie de desabafo, também. Parabéns pela postagem! É reconfortante ler textos como esse, expondo o absurdo da situação! E vou continuar navegando…

    Só pra finalizar, gostaria de dizer que adorei a ideia deste blog. Eu já fui mais uma dentro de um sem-número de mulheres habituadas a julgar uma mulher pela roupa, pela atitude, pela sexualidade… a praticar o chamado “slut-shamming”. Eu sempre me vesti de forma mais discreta, “comportada” até pra uma jovem (em parte por alguns traumas pessoais de infância, também) e julgava “vulgares” as garotas que vestiam microssaias, usavam blusas curtas e chamativas, ficavam com muitos rapazes…

    Depois de ter contato com textos e blogs feministas, aprendi que o fato de elas se vestirem assim ou assado não as faz serem menos dignas de respeito do que ninguém. Que cada um se veste da forma que se sente melhor, e se eu tenho esse direito, por que não elas? Que cada um vive a própria sexualidade da forma que desejar, desde que esteja dentro da lei e seja de comum acordo entre as partes. Se alguém nunca fez sexo aos 30, ou se alguém transa com 200 pessoas em um ano, ambos merecem o mesmo respeito como seres humanos que são.

    Foi meio doloroso no começo me perceber machista… logo eu, que ficava indignada com as manifestações mais “claras” do machismo como a violência física, a discriminação no mercado de trabalho, entre outras várias facetas. Mas foi libertador, na verdade. E ao mesmo tempo me ajudou a lidar um pouco (ainda que eu ainda não consiga evitar) com a sensação de culpa que acabo sentindo diante de várias situações de assédio. Sinto-me mal, mas busco racionalizar e saber que não é minha calça jeans, não é o fato de estar sozinha na rua (mesmo de dia)… que simplesmente NÃO TENHO CULPA naquilo.

    Mais uma vez, parabéns pelo blog! E me desculpe pelo desabafo enorme…

    • Luh, muito obrigada pelo seu comentário e pela confiança no desabafo. Ficamos felizes por o BiscateSc ser um espaço que lhe pareceu acolhedor. Volte sempre 😉

  19. Realmente, artista underground da burguesia, quando pressionado por uma merda que fez, reagiu da forma mais estúpida possível. Penso que, no fundo, ele tem consciência que fez merda… mas a arrogância o impede de se desculpar… e de tocar pra frente… se não o fizer, se iguala a gente como Maluf…

  20. A atitude desse senhor é grotesca e repulsiva! Mas eu como mulher se alguém (homem ou mulher) tentasse enfiar as mãos embaixo de minha roupa eu faria um barraco! Gritaria, empurraria, xingaria. Muito me espanta a passividade que a moça teve. Um mulherão com pernas biônicas como a dela poderia muito bem ter dado um belo chega pra lá nesse velho caquético! Mas ela ficou ali de meio sorriso na boca se contorcendo educadamente. A atitude do homem foi terrível, mas a dela como mulher foi pior! Não pelas vestimentas, afinal cada um usa o que bem entende e isso não dá direito a ninguém julgar. Mas a postura passiva dela foi uma concordância tácita e desmoraliza e destrói a luta de nós mulheres contra atitudes nojentas assim!

    • Oi, laura,

      olha, eu entendo a sua indignação, mas acho que é preciso demarcar os espaços: o que ele fez foi crime, o que ela fez foi resultado de uma cultura machista em que as mulheres são acostumadas a sentir culpa por serem agredidas (é só ler o link do texto da Adriana) acrescido do fato de ela estar sob um regime de trabalho que a gente desconhece os termos mas sabe que ela batalhou pra sair de uma posição pra chegar a entrevistadora. E sabe como é difícil sair desse espaço de vulnerabilidade. Então é impensável comparar atitudes e, principalmente, é um pouco cruel culpar a vítima por sua reação ante a agressão. Destacando que há muitas mulheres em situação de constante abuso e que levam anos pra sair desse ugar e denunciar. A vítima nunca é culpada. O agressor, sim.

      • Olha acho que esse fato que ocorreu serviu para atacar o homem cretino, mas ninguém parou para criticar ou analisar a questão da mulher em si. Ela mesma deu declarações amenizando o fato e defendendo esse sujeito. Essa mulher não é vítima nem aqui nem em lugar algum. Ela é tão culpada quanto ele. A postura e atitude dela são um desfavor para todas as outras mulheres que lutam contra abusos!

        “Nicole disse que o diretor é “polêmico” e o defendeu. “Ele é polêmico, conhecido. Quem vê a notícia da forma que saiu, acho que choca. Mas, assistindo a matéria, dá para ver que ele não é agressivo como apareceu nos noticiários”, declarou. (fonte http://diversao.terra.com.br/tv/programas/gerald-thomas-sobre-nicole-bahls-veio-se-rocando-e-rebola,d0baba0b81e0e310VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html)”

        • Laura,

          como eu disse, uma vítima nunca é culpada do crime que lhe ocorreu. A Nicole não tem que ser responsabilizada pelo que aconteceu.

          • Do mesmo modo que vc não gosta de machistas eu não gosto de feministas ou qualquer “istas”. Como já disse, a atitude do homem foi totalmente repulsiva. Mas daí a querer tratar a moça em questão como uma inimputável incapaz de tomar atitudes ou de formular um pensamento crítico e de reação é uma grande incoerência.
            Não vejo motivo de me sensibilizar ou me revoltar com um caso no qual a própria “vítima” deu inúmeras declarações amenizando e chacoteando do caso. A última da pobre menina indefesa em questão foi falar que pelo fato de o cara que a violentou ser GAY , levantar a saia não foi agressivo. Continuem defendendo essa moça e dizendo que ela não pode e não deve ser responsabilizada por perpetuar uma imagem e destruir a luta das outras mulheres que querem dar um basta em abusos assim. Relembrando que eu nunca disse que ela é culpada por usar tal tipo de roupa, ter tal tipo de profissão, mas sim por ela ter sido totalmente conivente e ter dados tantas declarações minimizando uma coisa tão nojenta e absurda!

          • Laura,

            primeiro, não há simetria entre machismo e feminismo. Não há simetria entre uma cultura machista e um posicionamento feminista. Segundo, ninguém está falando que a Nicole é incapaz de tomar atitudes ou qualquer coisa semelhante. O que estou repetindo à exaustão é que uma vítima não é responsável pelo crime que lhe foi infligido e nem pode ser cobrada pela forma que reagiu a ele. É o mesmo que dizer: ah, tantos anos morando com um cara que lhe bate, só pode mesmo gostar de apanhar. É cruel. É colocar culpa onde deveria haver compreensão do contexto maior em que a vítima se encontra. Agora se você acha legítimo manter o padrão discursivo recorrente que culpa mulheres pela manutenção da violência que essas mulheres são submetidas, bom, é uma estratégia de militância e uma escolha sua que, provavelmente, tem como consequência mais contribuir pra manutenção da cultura atual que transformá-la.

  21. Uma questão.

    “Uma mulher, uma pessoa, tem que se responsabilizar pelo que diz. Se ela diz que não quer ganhar nada na Páscoa, mas intimamente deseja muito um ovo enorme e cheio de penduricalhos…azar. Se disse que não quer nada, é isso que deve ganhar: nada. Todo o conjunto de traduções “ela disse…” mas “quis dizer…” é preocupante porque questiona a autonomia da mulher e se inscreve em uma tradição paternalista de ignorar o que uma pessoa adulta explicitamente enuncia.”

    Quer dizer, não importa o que a histérica não quer saber, o único que devemos considerar é o que esta efetivamente diz.

    (ATENÇÃO: não estou chamando ninguém de histérica, apenas que aquelas “dicionário feminino” que a autora postou no outro tópico é muito comum em casos de histeria. Não estou dizendo que toda mulher é histérica, nem que toda histérica se comporta desse jeito, nem que a Nicole ou qualquer mulher presente no fórum o seja. Pelo que entendi do que a autora escreveu, ela concorda que algumas mulheres agem daquela forma e que, nesses casos, devemos considerá-la como adulta e não infantilizar sua posição; ou, em outros termos: ela que aprenda a enunciar com clareza o que deseja e o que não deseja, não devemos ser paternalistas e reforçar esse comportamento, por todos os perigos mais que evidentes de alimentar uma cultura que não considera as mulheres como sujeitos autônomos e responsáveis.)

    Quando a Nicole Bahls afirma que foi tudo uma brincadeira e que não devemos nos preocupar com isso e, a despeito de seu enunciado, outras mulheres tentam explicitar o conteúdo latente por trás do que a própria atriz sofreu e afirmou, o que estão a fazer?

    Não estão sendo paternalistas com a moça?

    • Tiago, primeiro que “é muito comum em casos de histeria” é uma fala que, certamente, muitos psicanalistas iriam discordar porque uma das coisas que a análise demonstra é a plasticidade de sintomas.

      Mas para além da discussão teórica assim,a tem uma coisa que eu acho relevante diferenciar: uma coisa é o conteúdo do post linkado, onde se valoriza o dito da mulher e sua autonomia, outra coisa é a análise de um evento socialmente representativo. Discutir o assédio que a Nicole sofreu, mesmo que ela não considere como tal, não é infantilizá-la ou negar sua vivência, é procurar entender um fato social que se inscreve dentro de uma cultura. Especialmente quando sabe-se que essa tal cultura tem como escopo a culpabilização da vítima e a minimização das violências sofridas pelas mulheres. A Nicole não tem que ser responsabilizada por não dar conotação A ou B pelo que lhe ocorreu (além do que não sabemos as pressões que ela tem sofrido já que a própria direção do programa minimizou o fato quando ela ainda se posicionava dizendo que se sentia constrangida e tal).

  22. Ele também assediou os outros dois personagens masculinos do Pânico, não foi?

    E eles igualmente falaram que foi apenas uma brincadeira.

    Agora, como problematizar isto se atendo apenas ao conteúdo manifesto, sem infantilizar ninguém tentando enxergar mais do que o que foi explicitamente dito e demonstrado?

  23. É curioso como vários dos comentários acima corroboram o que eu tentei dizer no texto: vivemos numa cultura tão machista que é necessário discutir contexto. Tentei deixar todos os outros assuntos de lado, pra me concentrar no que o Gerald Thomas fez e na sua “justificativa” para tê-lo feito.
    Porque nada do resto importa. Nada. Nem a roupa, nem o programa, nem o que ela própria disse sobre o assunto. Não era isso que estava em questão. Usei a analogia com o filme não para dizer, evidentemente, que botar a mão embaixo da saia é da mesma dimensão que estuprar alguém: mas porque a justificativa dada é a mesma: a roupa, o sapato, o comportamento.
    Como se isso justificasse alguma coisa.

  24. Brava(s)!
    Principalmente pela tranquilidade em atender aos comentaristas ainda muito envenenados pela educação machista (tal qual foi a minha e a da maioria até certo ponto de suas vidas).
    Essas pessoas precisam ter contato com essas ideias que para eles(as) são novidade. Sair do obscurantismo é muito mais fácil com uma boa discussão, como a proposta aqui.
    A luta segue. Com respeito e serenidade também.

    • obrigada pelo singelo comentário. acho minhas amigas incríveis, bravas lutadoras, informas e principalmente muito pacientes. bj para a Lu

  25. @Borboleta nos olhos,

    Obrigado pelas respostas.

    Com todo respeito à leitura que vocês estão fazendo do caso, a minha impressão é a de que soa contraditório em dada circunstância avaliar o contexto porque “o cenário é diferente”, e em outra dizer “não importa o contexto”; em um momento dizer “a mulher deve se responsabilizar pelo que diz, visto que é um sujeito autônomo”, e em outro dizer “a nicole não deve ser responsabilizada”.

    Eu não consigo analisar esse caso sem considerar quem é o protagonista, a protagonista, o contexto do teatro, do espetáculo baixo do programa, da postura perversa dos personagens que participam desse cenário (a Nicole também diz é um personagem do Pânico, não diz? Estava ali como entrevistadora, atriz ou personagem?) em seu eterno constranger a todos. Pra mim o que vejo é perversão contra perversão…os que constrangiam foram constrangidos, a postura do Gerald Thomas me pareceu tão perversa que subjetivou e dividiu a Nicole, “fiquei econstrangida, estava lá como mulher ou como atriz?”. Pra mim não tem como não se responsabilizar por isso, igualmente. Subjetivar é se responsabilizar.

    Compreendo o recorte que vocês fazem, me parece uma abstração válida pra se analisar inúmeras questões, desconsidera-se o todo e se concentra apenas nas relações de gênero. Olhando assim se pode concluir que o Gerald Thomas foi machista e fez parte da cultura do esturpo, ou mesmo que não sabe controlar suas pulsões ou sei lá mais o quê e por isso agarrou a moça.

    Mas não acredito que foi isso que aconteceu, e a única pessoa que poderia resignificar o ocorrido era a própria Nicole, que não o fará. E é responsável por não o fazer. Que risco ela sofreria? Perder o emprego? É um custo que ela está arcando…senão teria que concordar com o Oliver: a mulher goza da cultura machista, e pagará os custos.
    Mas se ela mesma diz que é uma brincadeira, respeitemos a moça e não a infantilizemos.

    Concordo com tudo o que você (foi você?) disse no outro post sobre a responsabilidade que devemos ter pelo que enunciamos, concordo igualmente sobre termos que contextualizar os fatos e, (me parece) justamente por levar esse raciocínio às últimas consequências, não consigo concordar com as análises que fizeram sobre este caso.

    []s

    • Tiago, não vejo contradição não. Qual é a contradição em dizer que a Nicole deve se responsabilizar pelo que diz e faz e dizer que ela não pode ser responsabilizada pelo que o “transgressor de engenho” Gerald Thomas fez e disse? O que dizemos é simples e direto: não dá pra usar a roupa da mulher, o programa, pra justificar o que ele fez – que foi uma agressão, pura e simples. Por isso, inclusive, o texto não discute o programa: não é sobre isso. O assunto é outro.

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