Data de Validade

Filmes, livros e as vizinhas mais xeretas vivem nos dizendo: pra sempre. Os relacionamentos são – devem ser! – permanentes. Duradouros. Sem data de validade.  Eternidade. Se não era eterno não era amor. Pra sempre. E aprendemos assim, homens e mulheres, mas para nós, mulheres, a ênfase é mais acentuada e há a mensagem, nem sempre explícita, de que somos as responsáveis pelo sucesso da relação. O mundo privado é nossa esfera de competência (seja pelo argumento da rainha do lar, seja pela falácia da essência feminina mais suave, compreensiva, etc). O que você está fazendo aí parada que não está em busca do seu “final feliz”? Leia todas as revistas, faça todas as poses, aprenda todas as posições e estratégias de sedução pra manter seu relacionamento. Porque se não foi pra sempre, olha, deu errado e lá começam os “onde foi que eu errei” e todo mundo vira meio Paula Toller procurando a fórmula do amor. Cada relacionamento que acaba parece assinar um atestado de incompetência. E a gente passa um tempão pra descobrir que relacionamentos não são para dar certo

Eu nem lembro direito quando me chegou a descoberta oswaldiana: sempre não é todo dia. O primeiro dia que a gente acorda e vai dormir sem ter um pensamento sobre o moço (ou moça) por quem estamos apaixonados e com quem estamos envolvidos pode ser um rebuliço na alma. Porque vamos sendo educadas a pensar que quando a gente quer, a gente quer com constância e mais que qualquer outra coisa. Passar um dia inteiro desejando além da pessoa passa a ser motivo de culpa, arrependimento e questões sobre o relacionamento: será que cansei delx? será que elx é mesmo o amor da minha vida? E se de lá pra cá ocorre o mesmo (esquece de ligar, chega atrasadx e coisas assim) é um deusnosacuda de sentimentos de abandono e, às vezes, despudadoradas acusações: você-não-me-ama-mais-se-pensa-mais-no-seu-(complete aqui: time, trabalho, amigo, chulé)-que-em-mim. Porque aprendemos a andar com fita métrica e balança pro bem querer. E nessa tentativa de escalonar o desejo, o afeto, as relações, a gente vai perdendo e se perdendo. E aí, quando chega uma hora em que não se consegue e/ou quer e/ou pode mais se estar junto, o que resta é o sentimento de fracasso, de vazio, a ausência de nós mesmas porque, afinal, perdemos o que nós mesmas hierarquizamos como o “mais importante”.

pra sempre

Aí vem a segunda faceta do “pra sempre”, aquela que a gente cantarolou mas não acreditou na Cássia Eller: o pra sempre, sempre acaba. Não são as relações que acabam ou os vínculos (necessariamente), mas a percepção da continuidade, da repetição, do mesmo. Acaba porque um dos envolvidos morre, pra ficar no exemplo mais simples e definitivo. Acaba porque mudamos de emprego, de cidade, porque se adota um filho, porque se leu um livro que mexeu com a cabeça, porque se viu um filme que fez repensar escolhas, acaba o pra sempre porque somos outros e o outro se torna um outro além da alteridade que era. Tudo que está além do “e foram felizes para a sempre” é a materialização do final do pra sempre e é, também, o que a gente pode chamar de vida adulta.

pra sempre 2

E nem mesmo nas entrelinhas do “pra sempre” as doutrinas da felicidade amorosa mencionam aquele relacionamento que, tal como os outros, traz em si o seu fim, mas não apenas de uma forma potencial, e sim como uma certeza. Como ter um relacionamento com data de validade se o que valida os vínculos é a ideia subjacente de permanência, de que “é esse” e que “agora sim” posso me aquietar? Como escolher sem ter certeza? Ninguém nos diz que se pode (e como) amar sem um depois de amanhã. Não tem ninguém pra contar pra gente como viver sem planos. Não digo nem a ideia da aposentadoria conjunta, cadeira de balanço e netos no colo, mas o simples e trivial: o que vamos fazer na próxima semana. Porque não há a certeza de que a semana que está próxima está próxima o bastante pra que se chegue, juntos, nela. Amar sem calendário é um desafio. É abrir mão do “pra sempre”.

Já não me importa que o você não seja o enfim. Eu não quero escrever histórias, quero fazer viagens. Quero pegar estrada tendo o desejo como roteiro. Perder-me. Quero quarto sem vista pro mar, sem janela, sem porta, casa muito engraçada feita de cerveja, riso e suor. Quero cama, pele e música. Quero seu gosto de agora. E sua mão fazendo cócega no meu pé. Quero acordar com aquela perna pesando na minha, a barba reescrevendo vontades no meu ombro, uma voz fazendo lembrar a saudade que ainda nem comecei a sentir. E descobrir que saudade pode não ser solidão e sim encontro, o meu encontro com essa eu que ama você.

 

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11 ideias sobre “Data de Validade

  1. Concordo com tudo, menos com a conclusão – expressa já no primeiro parágrafo – de que “relacionamentos NÃO são para dar certo”. Acho que se não for para dar certo é melhor nem ter o relacionamento. Mas dar certo pode ser dar certo durante um tempo. Quinze minutos, dois anos, três décadas, a vida inteira, o que seja.

    Relacionamento que dá certo, pra mim, é aquele em que as pessoas entram, são felizes, e se for o caso se afastam sem que isso signifique o fim do mundo (ainda que sofrer um pouco, na maioria das vezes, seja inevitável).

    • Marcos,

      como a ideia de dar certo está tão atrelada a permanência, acabei usando a frase como provocação, mas desenvolvi essa ideia em outro post (que está no link), quando tiver um tempinho espia lá, acho que vai ver que as nossas ideias não são tão diferentes.

  2. Tu é uma linda mesmo! Esse negócio de “pra sempre” é como corrente, como algemas… na alma… Não no sentido de uma pessoa ficar presa à outra pelo compromisso. Mas acorrentada no sentido de um projeto de vida, de o seu projeto ser o relacionamento dar certo a qualquer custo. Isso sim é prisão. Uma pessoa é pra ser muito, mas muito maior que isso! 🙂 Xêro com saudades!

  3. eu tendo a cair um pouquinho nesse “mas no que foi que errei?”, mas agora to bem melhor. Sempre lembro que , apesar de ser lindo, maravilhoso, um divo, ninguém é obrigado a ficar comigo. Daí coloco a vaidade e o narcismo de lado, coloco pra tocar uma alcione – ou bethânia – , daí choro e lamento um pouco já que sou filho de deus e tenho o direito de ter dó de mim ás vezes. Depois eu leio um drummond e a dor que era pra não sarar nunca, sara amanhã e já to pronto pra me apaixonar de novo.

    lindo texto, lu.
    beijos

    • Acho isso lindo. Gosto das cicatrizes, elas embelezam corpo e alma, fazem registro da história. E Bethania é perfeição, quase quero ter dor de cotovelo só pra escutar…

  4. Que texto maravilhoso! Engraçado que a gente tem a idéia que relação que “dá certo”, mesmo que seja o “pra sempre enquanto dure” é atrelada a noção do ser feliz. Relação tem a obrigação de fazer a gente feliz? Tem relação que faz a gente ficar triste, descompensada, pensativa, que só dura o tempo de uma noite e uma ressaca, mas com estas a gente também pode “descobrir que saudade pode não ser solidão e sim encontro, o meu encontro com essa eu que ama você”.

  5. Eu concordo em parte. Também não sou muito de acordo com essa d ideia do “tem q dar certo” ou se não der certo isso significa um fracasso, ficar encarado as coisas como um empreendimento, um negócio, e não é assim, não PODE ser assim, as pessoas são fluídas, estão sujeitas a mudanças, etc. Mas ao mesmo tempo eu acho q não dá pra entrar numa relação suspeitando q pode acabar qualquer hora, acho q faz parte da coisa um esforço individual em não perder de vista o q fundamenta aquele namoro ou casamento, e não ceder às artimanhas da preguiça, do cansaço da rotina, da busca pela novidades, oq pode se revelar uma barca furada. Acho q nem 8 nem 800: dá pra se desobrigar dessa coisa de “bater uma meta social/conjugal” e ao mesmo tempo se manter disposto, acreditando numa continuidade (q tb tem seus percalços e q é preciso maturidade pra assimila-las) 🙂

    • Oi, Carlos, eu gostei muito do seu comentário. Eu só penso que a gente não deve suspeitar que ela vai acabar a qualquer hora, a gente deve saber que ela vai mesmo acabar a qualquer hora (mas não quer dizer que seja já já ou daqui a quatro dezenas de anos com a morte de um dos envolvidos). Acho que a gente deve saber e superar e aproveitar o bom da relação que é: ela está sendo 😉

      A outra coisa que penso é que não há uma hierarquia nos relacionamentos, acho que ficar uma noite é tão bonito e encantador quanto permanecer casados e apaixonados 65 anos como meus avós, acho que as duas situações demandam entrega (não gosto muito das palavras investimento ou esforço pra me referir a relacionamentos interpessoais) e que não dá pra saber, a princípio, se vai ser uma coisa ou outra e não é com isso que a gente deveria se preocupar (ou, melhor dizendo, não é com isso que eu costumo me preocupar), não faço algo pra permanecer com alguém, faço algo porque estou com o alguém…

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