Do desejo

Eu não desejo nem preciso de navio. Depois de navegar com embarcação pesada, âncoras firmes e trajetos de bússola reta, eu não preciso mais. Navio pesado de muita carga enfrenta o mar com escudo. Adentra o desconhecido com certezas enraizadas, olhos vendados para o horizonte do acaso. Navio pesado quer ser terra no meio do mar. Quer levar para o mar bagagem densa de construção inabalável. Coitado do navio, ele também afunda. Diante do mar navio também é pequeno, porque o mar engole. O mar é desejo. Imensidão de ondas improváveis e arrebatadoras. O mar é susto. Impermanências e desafios de não saber onde se pisa o chão novamente. Beber o mar alimenta.

Fotografia de Simone Elias

Ir no navio de guarda-chuva, bússolas e máquinas de controle do tempo? Não, eu não quero o navio. Lá fora tem o mar, e diante do mar não tem controle. Diante do mar tem mergulho e desaviso. Tem imensidão disforme e vento de liberdade. Tem a gente refletido onde não se enxerga com os olhos. Eu quero o mar. Sentir inebriada o cheiro de maresia fértil de vida. A nuvem que se ergue sem aviso e faz sombra e voo cego. O escuro azul que só se toca com os sentidos. Onde se guarda o desejo que não se vive?

Sim, eu quero o mar. Uma canoa com direito a mergulhar em mar aberto é bonito. Uma canoa leve com remendos e a vastidão de poder ser. O acolhimento de depois é o vento. O vento quente, o mar e a pequenina embarcação consideram a precariedade bonita do amor. O espaço vazio. E nele tem dança. Danças de ondas e improváveis. Ir adiante no meio das águas revoltas. Porque ali tem movimento. E a vida é feita das impermanências e transformações dessas águas.

Às vezes a gente afoga, mas não perde o ar. Quando a canoa vira a gente reinventa a travessia. Acha ar dentro d´água. No navio tem pouco ar. Oxigênio em lata. Como viver sem o ar puro e livre do desejo? Na canoa tem fome mas tem peixe fresco. Peixe que a gente pesca com as mãos. Não precisa de abridor de lata porque a gente pode colher fruta das gotas salgadas. E o horizonte, sim, o horizonte. Na canoa tem horizonte rosa que se toca com a pele. Tem frio gelado que pede uma toalha seca que não tem. Tem lábio rachado sem protetor solar. Tem dor de escamas. E tem a gente inteiro, ali, inteiro em contradições, dores, desacertos e humanidades. Em feio e bonito. Em tudo que é. Poder desejar e ser brisa de mar. Poder parar em qualquer lugar. Na canoa a gente pode acolher o próprio desejo.

  * com carinho especial para as minhas irmãs de travessia na canoa: Kiara Terra, que me ajudou com algumas letrinhas aqui, Suzana Siqueira, Raquel Stanick, Karoline Alves, Sandra Cordeiro Molina e Luciana Baptista. Vocês me inspiram, sempre e mais, a ter coragem para a vida. Admiração de ondas.

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