Do muito

la-solitude-

Foi, sim, foi muito. Muito mais do que se podia prever, muito mais do que podíamos imaginar. Muito mais do que as palavras podem tecer. Tecido fino de cores invisíveis, manto que nos cobriu em um espaço inventado de tanta materialidade. Nosso, submerso, escondido. E tão declarado. Nada precisou ser, porque tudo era. Estava tudo ali, foi só abrir a porta, foi só entrar por aquela porta grande de luzes opacas, adentrar o espaço iluminado por velas inventadas e músicas de ouvir com a alma. Um espaço sem tempo, um tempo que se abriu em tempos passados e tempos futuros, que parou o relógio e nos contou segredos de permanência fluída, de existências tantas e possíveis, de reinvenções e possibilidades. Tempo contingência onde tudo pode ser, e tudo pode ser diferente.

A porta grande se abriu e a chave era nossa. Minha e sua. Era nossa e estava tudo lá, como se sempre tivesse existido a pele nua em contato uma com a outra, as falas mansas, os risos, as coincidências, as identidades, as diferenças, a força. Sim, a força. Desejo vulcão. Mansidão de mares profundos. Claridade de revelações. Sentidos aguçados para o que vem de dentro. Comunhão. Quente e frio. Doce, salgado, pimenta, açúcar, vinho nos lábios. Choros e risos. Nós duas ali, nuas e inteiras em nossos espelhos invertidos. Foi muito, e ainda mais.

A despedida se fez em silêncio duro, em uma morte brutal para quem acabou de nascer. E nascer assim, com tanta vida. Com tanta luz. Com tanta beleza. Com tanto presente florido e cheiro de mato. Com tanta vontade e espaço para crescer. E para ser qualquer coisa: vento, perfume, roupas coloridas, abrigo, casa, poeira, árvore com fruta madura, rio cheio. Só não podia ser assim: corpo morto. Não, não podia. Era muito.

Onde se guarda o desejo que não se vive? Em que porão a gente coloca a vontade que arde por dentro? Qual o baú que tem tampa grande o suficiente para abafar a intensidade de um encontro? Com que racionalidade se enterra o sentimento?

De novo calço as minhas botas e me nutro de coragem. Sim, a vida tem vida própria. E é preciso saber ouvi-la com a voz que vem de dentro. Porque essa vida pulsa e tem caminhos vastos. Tem escolhas e conformidades. Tem revoluções e resignações. Tem agigantamentos e pequenezas. Tem muito, e tanto. E tem a gente lá, no meio disso tudo, remando, se equilibrando na canoa, tentando controlar o fluxo das águas, tentando não afogar, achando meios de se nos mantermos vivos e despertos. Tentando vestir a coragem de poder, sim, ser feliz. Felicidade de inteirezas e de vontades saciadas. Poder ser feliz nas marolas e nos improváveis. Aprendendo que, por vezes, é preciso colocar o salva vidas primeiro na gente para poder salvar o outro. Aprendendo que, vez em quando, a gente afoga mas não perde o ar. E nem a vontade de ir adiante no meio das águas revoltas. Porque ali tem movimento. E a vida é feita das impermanências e transformações dessas águas. E se cair em chuva, eu quero que me banhe. Eu quero lamber a chuva de pingos grossos.

É também porque não adianta,é preciso preencher-se de si mesmo. É preciso aceitar as contradições, os acasos, os erros, os desacertos, as mudanças, o nosso parco controle. Ir deixando a bagagem pelo caminho, ir transformando o que temos em coisas novas e mais leves de carregar. Ir colocando dentro o que temos fora. Beber um mar fértil que alimenta. Menos, e mais. E sempre.

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