Eu tenho uma opinião

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.
“Meu melhor amigo e confidente é gay e apesar das nossas diferentes opiniões somos amigos.” — Joelma, Banda Calypso

opinião

Dia desses, fiz coro e perguntei à Astrid Fontenelle porque nunca houve uma negra na banca do Saia Justa. Segundo a jornalista, o programa que já escalou atrizes como Maitê Proença e Luana Piovani, chamará uma negra “assim que precisarmos e tivermos uma excelente opção disponivel, ou a qualquer momento.”

Apenas isso é assunto pra lá de metro. Não entendo como é possível “discutir temas da atualidade, comportamento e relacionamento, sempre com a visão diversificada” sem uma única mulher negra em toda a trajetória da atração. Como não faltam mulheres negras de opinião no mundo e no mercado, questiono a real motivação de nunca terem escalado uma.

Mas falemos sobre aquele momento surreal em que Astrid Fontenelle ensaiou argumentar que não é racista dizendo que “só pra constar, se é que vocês não sabem: meu filho é negro“. Preciso dizer que não me foi nada agradável ver alguém que sempre admirei (sou do tempo que a jornalista era uma descolada VJ, veja você) se aproximando da fala de gente como Rodrigo Sant’Anna, Marco Feliciano e Joelma.

EQUAÇÃO DO PRIMEIRO GRAU

A notícia boa é que o mundo tem estado bem mais sensível aos direitos humanos, aos privilégios. Ninguém ousaria dizer que um misógino não poderia sê-lo por ter uma mãe. Em contrapartida, ainda é frágil a compreensão de que a convivência com pessoas negras, gays, trans, gordas e/ou pobres não é capaz de coibir a discriminação. Infelizmente, o “eu tenho um amigo _________________ (insira aqui alguma minoria)” virou a frase da vez.

Apesar da fragilidade dessa afirmação, muita gente tem insistido nessa ideia ao invés de colocar em xeque seus próprios preconceitos. Marco Feliciano fez questão de posar ao lado da mãe e do padrasto negros. Meses atrás, Rodrigo Sant’Anna se apressou em dizer que sua Adelaide é uma homenagem à sua querida avó. Joelma, após uma série de declarações homofóbicas, também declarou que tem um amigo gay.

Como se os melhores amigos, parentes e parceiros fossem diminuídos ao status de bolsa, acessório a ser retirado do armário quando convém – eu tenho uma amiga negra, eu tenho uma amigo gay, eu tenho um parente negro, eu tenho uma funcionária pobre; logo não sou racista, trans-homofóbico, etc. etc e etc. Como se o preconceito fosse uma simples equação de primeiro grau.

VISCOSIDADE

Falarei mais uma vez de Astrid Fontenelle. Desacredito que tenha agido de má fé mas saliento que o fato de ela ter um filho negro não serve de resposta à crítica pertinente sobre a ausência de uma negra no Saia Justa. Assim como o fato de Ronaldo Fraga ser, muito provavelmente afrodescendente, não diminui em nada a gravidade de sua homenagem com a tal da escultura de bombril.

É muito provável que você e eu, pessoas legais, sejamos parte de uma engrenagem podre alimentada pelos pequenos preconceitos que aparentemente são de ninguém. Afinal todos temos uma mãe, uma amiga negra, um funcionário pobre, uma conhecida lésbica. A pergunta que fica é – quantos de nós pensamos nossos amigos, parceiros e funcionários como sujeitas de equidade, de respeito, de direitos?

A grande questão é pensar a discriminação e o preconceito em sua orgânica viscosidade que toma de assalto as menores brechas, de forma silenciosa e potencialmente letal. É provável que estejam bem mais perto do que imaginamos apesar de nossos amigos gays, negros e gordos, ainda mais se considerarmos que somos uma sociedade estruturalmente racista, machista, transfóbica, gordofóbica e afins.

MAS COMO DIZER QUE NÃO SOU RACISTA?

Essa pergunta não faz muito sentido para mim, afinal é muito improvável que alguém que não é racista seja acusado de sê-lo. E se acontecer, a pessoa saberá refutar a acusação de forma muito tranquila, sem ter de fazer uso de amigos, parceiros. Ou melhor, reconhecerá que a coisa toda pode melhorar em diversos aspectos.

Por outro lado é igualmente complicado afirmar que alguém está imune ao preconceito. Quem não é racista reconhece essa fragilidade, entende a afirmação de que somos estruturalmente racistas, que todos podemos ter comportamentos indesejáveis vez ou outra, é necessária e bem-vinda…

charÕCharô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

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3 ideias sobre “Eu tenho uma opinião

  1. “Assim que precisarmos e tivermos uma excelente opção disponível”. Ah, fala sério, Astrid. Não seria tão mais fácil reconhecer que, é mesmo, ainda não entraram mulheres negras, que podem enriquecer o programa com outro olhar, outras questões – e que isso é, sim, uma falha do programa? Assim não pode, assim não dá.
    Beijo, Charô!

  2. Há alguns anos, uma propaganda de ação afirmativa perguntava “Onde você guarda o seu preconceito?”
    Como mulher branca, hétero e cis (essa última eu nem conhecia na época), criada numa família bem caretinha e com todos os preconceitos, enfiei a carapuça até os tornozelos. Mas essa pergunta — e a resposta que eu tive que admitir — foi fundamental pra eu acelerar o processo de me livrar destes preconceitos.
    O primeiro que começou a cair foi o machismo. Eu tinha duas figuras importantes na família: minha tia, que era solteira, trabalhava fora e morava sozinha, e Vovó, que votava em Heloneida Studart porque Helô defendia as mulheres, entre outras atitudes não machistas. Comecei me de revoltando contra o tratamento e as permissões que meu irmão recebia e eu não. E segui daí até virar feminista.
    Pouco depois começou a cair a homofobia. Hoje acho que “viado”, “bichinha” e outros adjetivos não devem ser usados em “brincadeiras” entre heterossexuais, porque seu objetivo não é nada engraçado.
    Bom, acho que a questão de gênero eu já resolvi. Mas ainda tenho um caminho a percorrer e alguns paradoxos a eliminar.
    Não que eu espere aplausos, mas — foda-se a modéstia — me orgulho da capacidade que tenho de sempre me questionar. Ainda adolescente percebi o quanto a acomodação pode ser ruim e decidi não cair nessa armadilha.
    Claro que seria mais fácil responder, como “aquele outro lá”, que não somos racistas, nem machistas, nem homofóbicos, nem gordofóbicos, nem nada. Eu dormiria melhor e, sendo branca, hétero e cis, nem pensaria nisso.
    Mas não deu. Sou dessas.

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