Institucionalidades

As músicas dizem muito sobre como pensamos a vida. As músicas expressam, às vezes, aquilo que estamos dispostos a dizer, mas não dispostos a tornar imperativo, aquilo que é necessário ficar no imaginário, sem ser objeto de intervenção. Não só a música, eu sei, é um propósito da arte, não toda, mas de alguma. A institucionalidade, ao contrário, nos obriga.

Paula Rego - O Regresso

Paula Rego – O Regresso

Exato, a institucionalidade, a esfera da exclusão do que é belo, por definição. Como boa Bisca que sou, tenho minhas teorias sobre a institucionalidade. A principal delas, é que as pessoas não só esperam por isso, como clamam, imploram e se submetem. A institucionalidade é, em si, a representação documentada da condição de ser… É a própria submissão à condição de estatística.

Mascarada como legitimidade, a institucionalidade é a forma como a nossa sociedade conseguiu, sem ao menos tentar, praticar a fraternidade. Sim, a fraternidade, aquela bela forma de reconhecer no outro os mesmos direitos, as mesmas liberdades, as mesmas possibilidade de dançar, à sua maneira, a mesma música que dançamos… A institucionalidade, em forma de lei, de decisão jurídica, de ordem de autoridade, é a nossa declaração de absoluta incompetência para viver com o outro, de conviver com o outro.

Sim, estou culpando o resultado por sua causa… Anarquia? Talvez… Por que não? A busca incessante que vivemos hoje pela satisfação de direitos através da lei é o resultado desse processo de institucionalização da vida… Bato nessa tecla, estamos passando da esfera do “livres para fazer o que não é proibido” (seria melhor livres para fazer o que não afete a liberdade alheia) para a do “livres para fazer o que a lei manda” (no melhor dos casos). Estamos invertendo tudo.

Desculpem a visão utópica. Do entender a marcha das minorias (e alguns excluídos nem minorias são) pela institucionalização de direitos, a concordar que isso é a única forma de se fazer respeitar as diversas condições, me falta a vontade. Me perco, às vezes… simplesmente não registro o quê de liberdade que há nisso. É como se a minha música tocasse não para ser ouvida, mas para ser registrada, não para ser dançada, mas para ser marchada, não para ser sublime, mas para ser verdade.

Sobre Institucionalidades - Laerte

Sobre Institucionalidades – Laerte

Assim, eu não queria… Mas, pelo jeito, por uma infortuna “formação cultural” o que tem pra hoje é um processo amplo, geral e restrito de institucionalização. No qual ao invés de se reivindicar direito, reivindica-se legalizações. Vivemos num país onde o se educar em conjunto, tornou-se um vamos fazer valer “isso” para que as pessoas, então, aprendam. Perdemos o bonde do processo de socialização… deixamos de significar as relações sociais para criar instituições, caixinhas mais confortáveis onde as pessoas possam dormir melhor…

Assim eu não queria… Mas se o jeito, hoje, é lutar para que as pessoas institucionalizem sua condição social, sua cor, sua sexualidade, sua identidade de gênero, não vou fechar os olhos e deixar acontecer, meu jeito é lutar junto. Lutar junto, contudo, para lutar mais. Lutar é a única forma de se posicionar pela igualdade, pela alteridade! Ser intransigente, se preciso, na minha opinião e combater o conformismo, sempre!  É assim, virarei estatística, se preciso, pra defender o direito ao reconhecimento, sobretudo pra defender minha utopia de não ter que institucionalizar o que sou, sou livre, sou música, sou dança, sou a arte de uma vida de histórias e sentimentos, não caibo em definições…

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