Pam Grier, Blaxploitation e um Cinema de Afirmação

Por Ânderson Luiz Galdino Rodrigues*

Um conceito essencial na luta pela igualdade travada por grupos minoritários é o de que a vitória de nenhum deles será completa enquanto outros continuarem a sofrer opressão, venha ela de onde vier. As lutas não são excludentes. É uma espécie de “mexeu com um, mexeu com todos”. Audre Lorde, poeta, negra e lésbica, disse que não existe hierarquia de opressão e que “sexismo e heterossexismo surgem da mesma fonte do racismo”. Um sub-gênero cinematográfico perfeito para ilustrar a interseccionalidade das lutas é o blaxploitation. Surgido nos EUA na década de 70, consistia em filmes onde os negros eram os protagonistas, não apenas narrativamente, mas invertiam as atitudes historicamente reservadas a esses personagens no cinema. Assim, o negro não mais se contentava em ser salvo pelo branco, mas assumia as rédeas de seu destino e ainda por cima tirava um sarro da autoridade botando o pé na mesa e rindo na cara do opressor. No more nice guy. And girl.

Um interessante desdobramento desse movimento foi a aparição de filmes policiais estrelados por mulheres negras. E aquela que talvez possa ser considerada o símbolo dessa onda é Pam Grier. Intérprete de Coffy, Foxy Brown e Sheba Shayne (não são os nomes de personagens mais legais de todos os tempos?), Grier ajudou a definir esse momento na luta pela igualdade racial e de gênero. Anos mais tarde, quando o blaxploitation era uma página virada na história do cinema, Pam foi trazida de volta ao centro dos holofotes por Quentin Tarantino em Jackie Brown, uma homenagem à estética daquele período.
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Um de seus melhores filmes na década de 70 é Foxy Brown, escrito e dirigido por Jack Hill. No papel-título, Pam interpreta uma mulher que, tendo seu namorado, um policial no programa de proteção à testemunha, assassinado por gângsteres, resolve partir para a vingança passando por cima até mesmo de seu irmão. Sem nenhuma vergonha de usar o corpo escultural para atingir seus objetivos, ela assume um trabalho de prostituta para se infiltrar na gangue. É incrível a naturalidade com que o roteiro lida com temas como prostituição e homossexualismo, especialmente se levarmos em conta que só há poucos anos esses assuntos têm tido um tratamento menos moralista no cinema mainstream. Foxy transita por bares de lésbicas e fica claro que aquele é um mundo que ela já conhecia. Em nenhum momento o trabalho das prostitutas é julgado, apenas a exploração dele pelos vilões. E aqui cabe outra observação: a líder da gangue e principal antagonista de Foxy é também uma mulher. Ou seja, os dois principais papéis de um filme policial são femininos. Você lembra quantos filmes assim foram lançados nos últimos 30 anos?

jackie-brownMas aquele que talvez seja seu melhor papel vem de um filho desgarrado do movimento. Jackie Brown, com todo o refinamento narrativo que Tarantino impõe a seus filmes, se coloca acima das obras que homenageia, pelo menos sob o ponto de vista puramente cinematográfico. Contando a história da aeromoça que tem que dar um baile em policiais e traficantes que querem enquadrá-la, cada um a seu modo, o roteiro coloca sua protagonista no mesmo patamar que os personagens masculinos, embora o caráter sexual dos originais setentistas não esteja tão presente. É verdade que Tarantino tem sua parcela de erros, incluindo aí o retrato um tanto caricato dos outros poucos personagens negros, mas sua protagonista é tão bem definida e a narrativa flui tão facilmente que esse defeito acaba se apequenando.

97f719f9fa1614196efc550d37d65606Grier também teve sua cota de bombas, como o horroroso, e por isso mesmo divertido, Black Mama, White Mama, de Eddie Romero. Mas ainda que seja um exercício amador de cinema, essa produção trazia a visão emancipadora do blaxploitation, com nossa heroína no papel de uma prostituta acorrentada a uma guerrilheira branca lutando para fugir das autoridades.

Depois de seu retorno em grande estilo no final dos anos 90, Pam Grier voltou a ser coadjuvante em produções menores, como na fase que se seguiu a sua explosão nos anos 70. Mas aquela época será sempre lembrada como um marco no cinema de afirmação das minorias. E Pam viverá para sempre nos sonhos eróticos e libertários de biscates e afins mundo afora.

Z144vmkx*Ânderson Luiz Galdino Rodrigues tem um nome grande que ficaria bem em um cartaz de filme mexicano, mas resolveu trilhar um caminho diferente e trabalhar no Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Entre um desastre e outro sobrevive de uma dieta de filmes, quadrinhos e música que não é recomendada para os fracos. E tem um poder mutante, o de escolher sempre o caminho mais longo, que ele ainda não descobriu como, mas um dia vai usá-lo no combate ao crime.
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3 ideias sobre “Pam Grier, Blaxploitation e um Cinema de Afirmação

  1. A Jeane Melo me alertou para um deslize no meu texto: o uso do termo “homossexualismo”, já em desuso e substituído por “homossexualidade”. Obrigado, Jeane.

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