Abolição, ou pelos olhos do lobo*

Meu lugar em casa sempre foi a cozinha. O lugar onde sempre me identifiquei. Onde sempre brinquei com as panelas entre as pernas da minha mãe; onde sempre ajudei a tomar conta dos meus irmãos; onde sempre fiz todas as refeições, sem exceção para escapadelas na sala vendo televisão; onde sempre fiz meu dever de casa e estudei; onde sempre conversei sobre tudo e ainda converso. A cozinha é o meu lugar em casa.

Filho Bastardo - Adriana Varejão

Filho Bastardo – Adriana Varejão

Ainda que de família pobre, mas de imigrantes europeus e sírio-libaneses (com um passado caboclo e indígena tão no fundo que não é sequer possível identificar), a trajetória da minha família sempre esteve fadada a cumprir a “Boa Nova da América”. Crescer, multiplicar, vencer na vida e dar trabalho a quem precisa. E, nisso, se dar ao luxo de ter, ainda que passando de classe média-baixa, média-média e média-alta, conforme o tempo, empregadas pra a tranquilidade da família.

Não me lembro de ter ficado, durante minha vida, muito tempo sem empregadas. E, vivendo num estado esbranquiçado como o é o Espírito Santo, não raro elas foram de todos os tipos e lugares, mas principalmente mineiras e baianas, negras. Mulheres das mais diversas características. Mas a cor não era um senão, ou pelo menos a entendia como se não fosse.

Viver em áreas de transição, estudar em escola pública, brincar na rua sempre me possibilitou um contato muito grande com negros. Isso sempre me fez senti-los como próximos, mas sempre diferentes, por uma simples questão de status social, afinal, eu sempre era, na infância, da família de melhor condição de vida, o filho do funcionário público, aquele cuja família tinha empregada, lavadeira e que, claro, não tinha negros na família.

Em um tempo (isso remonta há pelo menos 25 anos atrás) em que a injúria não era velada, cresci ouvindo e utilizando os piores registros linguísticos para denominar um negro! Piadas de toda sorte, que meus colegas negros da rua também contavam e riam. E ainda hoje alguns são capazes de rir, dizendo que se não rirem da própria desgraça não podem rir de nada…

Mas foi principalmente na cozinha, onde sempre recebi o cuidado das empregadas, que conheci o que era, naquela época, ser negro. Conviver com mulheres que abdicam da própria família, dos próprios filhos, da própria personalidade para passar oito, nove, dez horas por dia, a semana inteira na sua casa é um aprendizado. Cruel, mas um aprendizado. Não entender como isso remonta a uma necessidade diariamente auto-afirmada de sobrevivência é criminoso.

Na cozinha da minha casa vi mulheres de todos os tipos, jeitos, caracteres, credos, estimas e estigmas. Conversei com todas, convivi com todas. Fui mimado, educado, aconselhado, recriminado por todas. Não que tivesse pais ausentes, pelo contrário, mas quando se passa muito tempo na cozinha de casa, é impossível não atrapalhar o serviço das empregadas com coisas de crianças!

Carpeaux  - "Pourquoi naitre esclave" - Abolição

Carpeaux – “Pourquoi naitre esclave” – Abolição

Essas mulheres nunca se mostraram a mim como vítimas e também nunca as vi assim. Quando já “grande” e nas melhores escolas e segundo grau, quase sem negros em volta, mas ainda com empregadas (e, agora, com todos ao meu redor na mesma situação), nunca consegui me curvar ao discurso da vitimização. As mulheres que, durante a minha infância, ajudaram a formar aquilo que sou, nunca me deram essa idéia, nunca se colocaram de um ponto de vista frágil. Pelo contrário, sempre me foram um modelo de que a vida se vence, pela luta e por todos os meios que a condição de inferioridade se nos colocam nessa luta.

O que eu entendi, depois com minhas aulas de história, geografia, sociologia, filosofia, direito, ética, é que essas mulheres são o exemplo velado de um falso modelo de sociedade. Essas mulheres, em sua abnegação ao próprio, em sua vulnerabilidade ao individual, em sua atenção (as vezes extremada, as vezes branda, as vezes negligente) àquilo que não lhes pertencia por ser seu, mas por buscarem nisso (a minha família) a própria sobrevivência, me deram uma dimensão de respeito ao outro que não tenho como recusar.

E essa consciência, tampouco, representa algo que me assumiu em uma epifania. Ninguém acorda no dia seguinte ao ler Casa Grande e Senzala e se dá conta disso. Ao contrário, muitos que leem Casa Grande e Senzala (e se regozijam com isso) apenas o reproduzem de forma mascarada. E é recorrente aquilo que vejo e aprendo na cozinha de casa.

Ao longo dos anos, foram essas mulheres que me trouxeram o cheiro da realidade que só me pintava às mãos pela tinta dos jornais, ou apenas me era aceso aos olhos pela luz da televisão. Foram essas mulheres que me trouxeram o outro lado da realidade, a que se vive e que, em certo sentido eu convivi na infância, mas que hoje não faria parte do que me é dado (ou do que procuro) conhecer do mundo.

É só por essa realidade que sou capaz de entender que, em 125 de abolição, o que a sociedade em que eu vivo representa é um recorrente choque de ordem. Choques de ordem que se empenham em conceder migalhas de direitos. Choques de ordem que buscam encobrir um estado social em que o trabalho e o esforço só são capazes de gerar a sobrevivência, mas nunca a vitória.

Choques de ordem que mantém pobres, os miseráveis; negros, os criminosos; e as mulheres que trabalharam ao longo dos anos na minha cozinha, as mesmas mulheres que, sem motivo nenhum para ter vergonha, continuarão lutando pela própria sobrevivência e abdicando das próprias vidas. E não se trata só de pensar em “o que é que eu posso fazer para mudar isso?”. Abolição não é algo que se faz, abolição não é algo que se entrega e se diz “vá, agora és livre, cuides da tua vida, deixes de ser aquilo tudo que sempre fostes e muda”.

Abolição é como a sociedade vive e se constrói e, perdoem-me, as mulheres que entram na minha cozinha todos os dias de manhã só são capazes de me mostrar, ainda, que essa abolição não é plena. Não é plena, porque mesmo com as subsequentes conquistas e dádivas de direitos, ainda não fomos capazes de reconhecer no outro aquilo que queremos como sociedade para nós. Ainda não somos capazes de aquiescer no outro a legitimidade na luta e a busca por oportunidades, por mais impossíveis que às vezes elas pareçam.

Estamos longe e considerar próprio que libertos tomem, quaisquer que sejam os meios legais ou legítimos que os levaram lá, lugares de destaque, sem ouvir, nos mais diferentes tons possíveis a reprovação acompanhada, não raro, da expressão (quando muito bem politicamente correta colocada) “aquele negro”.

Enquanto a cor, o sexo, ou condição continuarem a ser um parâmetro de identificação na nossa sociedade, não se enganem, a abolição ainda não terá chegado. Enquanto for necessário ver na ação e na conquista algo que tenha que ser tomado como igual ao invés de sê-lo, nossa realidade ainda estará fadada a criar meios de exclusão. Enquanto a cidadania tiver que ser celebrada como um meio de conquistas esparsas e não como um âmbito da satisfação de direitos, ainda estaremos apenas reproduzindo um vulto daquilo eu nos foi posto como liberdade.

E é isso. Em 125 anos de abolição, a noção de fraternidade foi a que menos se esboçou para nós. Aqui, vista pelos olhos do lobo e através dos exemplos diários que entram e saem da minha cozinha, parece que uma tensão cada vez maior se forma e que conquistas ou dádivas são capazes de criar celeumas impensáveis em nome do status vigente. A abolição da escravatura, jamais significou e ainda não significa a plenitude de direitos, ela sequer tergiversou sobre o reconhecimento do outro como igual em direitos.

É esse reconhecimento que, pela busca da própria sobrevivência, essas mulheres me trouxeram e ainda trazem. É esse reconhecimento que, hoje mais claro pra mim, me parece negligenciado por um discurso do que deveria ser próprio e meritório a cada um, quando na verdade não é. Abolição não se trata só de permitir, seja em que nível for, que os demais sejam livres, trata-se de viver isso!

*Post vinculado à Blogagem Coletiva pelos 125 anos de Abolição, convidado pelo Blogueiras Negras.

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