Assenta a polêmica, sobe o chorume

Por Cíntia Moraes*, Biscate Convidada

Todo mundo viu a polêmica dos R$ 100,00?

[Pra quem não viu, aqui está]

Pronto, passou polêmica, certo?

Não. Vamos esclarecer algumas coisas: Estávamos discordando e conversando a partir do que tuitou a moça. Em algum momento alguém disse que não ia comentar mais nada porque a opinião automaticamente seria ofensiva. A moça que iniciou a conversa depreendeu que seria chamada de puta – por uma feminista, veja só, como se fosse cabível, mas decerto era o que ela queria ouvir para poder se justificar naquela confusão de suas declarações. E fez um texto em cima dessa ‘falácia’, “dessas feministas que chamam outras mulheres de puta” (esse aqui, ó), construindo toda a argumentação em cima de algo que não aconteceu, ridicularizando uma luta na tentativa de fazê-la parecer incoerente, para justificar a sua própria. Isso só me faz ver como o texto é um grande buraco que nem a autora sustenta. Que bom! Estranho seria se com premissas verdadeiras ele continuasse a fazer sentido. No mais, ninguém ia chamá-la de ‘puta’, era só ‘babaca’.

Usando dessa premissa falsa, o texto foi um sucesso, afinal, não cansamos de ver mulheres com síndrome de princesa, como bem definiu Nina Lemos: independentes, donas de si, mas que não resistem e fazem questão de serem tratadas como princesas, bonecas, damas.

Isto posto, agora acabou? Não.

Hoje pela manhã fui convidada por uma jornalista a conceder uma entrevista sobre “esse curioso/interessante e instigante” ponto de vista que vai contra o “machismo benevolente” e que prega o “anti-cavalheirismo”. A mesma jornalista que já tinha dito sobre o caso: “cuidado para numas de ser contra o machismo vocês, garotas, não ficarem DURAS demais, ok”?

Não. Não acho que ficaremos duras, querida. E se ficássemos, não vejo problema, nada nos obriga a ser dóceis.

voto-feminino

Entrevista não concedida. Ainda que a jornalista insistisse que não seria um artigo opinativo e, sim, uma reportagem, acho que de saída tudo já estava errado. Que divirjamos nesse tipo de questão, não é sobre ela ter uma opinião diferente da minha apenas, é sobre dar crédito e chance para que isso se perpetue, é estar do lado que concorda que uma opressãozinha ‘de nada’ não faz mal a ninguém. Machismo benevolente, assim como homofobia benevolente e escravidão benevolente são coisas que não existem.

Sem esquecer do uso do termo anti-cavalheirismo, que reforça essa imagem de dureza que querem impor às feministas. Como se nós estivéssemos lutando contra algo bom, inocente, como se rejeitássemos algo bonito que estão fazendo pela gente. Feminista ingrata, essa anti!

Como está bem desenhadinho nesse texto do Pedro Munhoz: “O cavalheirismo não é gratuito e pouco tem a ver com gentileza ou empatia: é um código cultural que só faz sentido se considerarmos que as mulheres a quem esse código socorre são inferiores. Prova disso é que mulheres também podem ser gentis ou empáticas, mas apenas homens podem ser cavalheiros. A palavra que se quer como o feminino de “cavalheiro” na língua portuguesa, “dama”, carrega em seu significado papéis sociais distintos e complementares ao dos seus pares do sexo oposto: a dama é frágil, comedida, discreta, não lida com dinheiro, anda bem vestida (“sem vulgaridade”) e tem, no máximo, uma profissão compatível com sua “feminilidade”. Se o cavalheiro é um controlador, a dama é um ser dócil, domado, que atende a todos as expectativas de um ideário machista e elitista.”

E, destaque-se, como fez o Alex Castro: O indivíduo cavalheiro, que trata sua mãe e sua noiva de maneira gentil e benevolente (porque elas merecem, porque são dignas, direitas, honestas) é o mesmo cara que vai exercer sua dominância e seu machismo hostil sobre as mulheres ditas não-direitas, sobre as vadias e sobre as vagabundas, sobre qualquer um que não conforme ao ideal tradicional de mulher. Quem é considerada “fácil” provavelmente não vai merecer as benesses do cavalherismo. Mais ainda, o cavalheirismo é como o machismo premia as mulheres que são da cor certa e da classe social certa.

Gentileza e carinho independem de gênero. Ser cavalheiro é subestimar, é pressupor que mulheres não podem desempenhar certas tarefas, que são damas e que seu papel na sociedade é de enfeite – devemos ser delicadas, virtuosas, maternais, pacientes, “esperarmos pelo nosso amor e sermos só perdão”. Obrigada, mas não.

De novo sinto aquela sensação de estar batendo na mesma tecla, seguida da sensação de parecer necessário bater nessa mesma tecla.

No mais, quando os relacionamentos não se calcarem em cavalheirismos e em outros papéis de gênero, ficará mais fácil entender que do gênero sequer dependem nossas relações.

cintcha*Cíntia Moraes é ex-jornalista, feminista e caipira.

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12 ideias sobre “Assenta a polêmica, sobe o chorume

    • acho que a gente vai falar muito sobre isso ainda, além do muito que já foi falado, danieli. e acho que é nosso papel: falarmos, falarmos, falarmos, até a exaustão… até que o machismo naturalizado seja todo diagnosticado, em cada pedacinho da gente e a gente decida combate-lo por completo.

  1. Acho que a autora do texto comete o mesmo erro que acusa a autora do texto que deu origem a toda a contenda. A sua afirmação de que não iriam chama-la de “puta”, mas de “babaca” não pode ser comprovada, simplesmente porque não chegou a ser dita, foi apenas insinuação e, dependendo do tom da conversa, a ofensa poderia ser, sim, “puta”. Quem optou por se calar abriu para essa interpretação. E, pelo desenrolar dos fatos, sequer tentou desfazer o mal entendido. Esse foi o problema de toda a discussão: a indisposição ao diálogo franco de quem acreditava dispor do conhecimento. E, a julgar pelos comentários que li no twitter sobre o assunto, estes mesmo podem ter estimulado o campeonato de arremesso de pedra na Geni, com schadenfreude. Por exemplo, o texto foi publicado e, a senhora se dignou a responder? Por que? Pelo que li, a moça do texto dos R$ 100,00 fez um comentário genérico, sentimental e desprentensioso, para os seguidores dela lá, provavelmente, queixando-se de seu infortúnio de sexta à noite. Não foi um manifesto, não foi uma convocação a essa bandeira, muitos menos a exposição de um homem específico.Então, por que isso seria tópico (sério) de discussão feminista? E, em sendo a moça ignorante, porque deveria ser exposta a ridicularização e não ao diálogo e ao debate? Fico muito chateada com essa atitude de pessoas que lutam pela igualdade de direitos das mulheres, porque mimetiza a postura de muitas mulheres que, no lugar de se unirem, procuram diminuir umas as outras. Eu sempre estudei, tive relacionamentos, trabalhei, inclusive, em ambientes majoritariamente masculinos, sob os preceitos de liberdade feminina. E, minhas maiores dificuldades foram mulheres que não aceitavam minha liberdade de agir dessa forma. O machismo dos homens, muito embora tenha exigido muito mais de mim, não chegou a diminuir minhas liberdades, porque era contra este que aprendi a lutar. Mesmo o cavalheirismo: é problema do homem se ele acha que eu tenha alguma dívida quanto minhas ações, pensamentos ou palavras simplesmente pelo fato dele abrir uma porta, pagar um jantar, levar minhas malas, deixar-me passar primeiro a porta, dar-me a mão para subir em um navio ou plataforma em alto-mar (acreditem, vocês iriam precisar desse cavalheirismo), moderar o linguajar na minha frente… Se uma mulher é incapaz de deixar claro isso, desculpe, ainda não é feminista. E nem está lutando para que os homens não confundam a gentileza deles com a sua liberdade. Acho que, mais uma vez, você comente o mesmo erro ao se negar a dar uma entrevista. Mesmo que esta venha sob um ponto de vista que não é o seu. Tenho acompanhado este assunto, porque sigo a Cynara Menezes, que levantou o ponto que cavalherismo não seria machismo e, pelo que entendi (porque, mais uma vez, o feminismo cibernético se expressa nas entrelinhas), foi quem lhe fez o convite da entrevista. Isso é digno de discussão, sim. Por que você não abre o debate para o contraditório ao invés de se limitar a receber reforço positivo? Por que não disse a ela exatamente o que disse aqui? Muitas jovens mulheres poderiam se beneficiar dessa sua atitude. O que eu irei dizer agora não é uma ofensa, mas uma crítica: medo e distanciamento não combinam com ativismo. Quando você se propõe a discutir um assunto com quem tem visão diametralmente oposta a sua, os dois saem ganhando e, quem observa, também. Quando você se contenta em permanecer em seu nicho, ridicularizando quem pensa diferente de você, o resultado é rancor e retrocesso.

    • Acho que omitir uma opinião quando a discussão se torna absolutamente infrutífera é muito válido. Dispensa gastos maiores de energia (que já estavam sendo enormes naquela conversa) à toa, já que sabemos que não haverá acordo.

      Quando vi o texto dela, imediatamente tentei desfazer o mal entendido. Fui chamada de ingênua. No mais, ela agiu de má fé ao inventar que seria essa a ofensa para justificar toda sua opinião de que nosso feminismo é falácia. Má fé, não tem outro nome. De maneira alguma houve indisposição ao diálogo. O que aparece nessa página do youpix é um resumo, é só o tema, a conversa foi muito longa. Em momento algum ela foi ridicularizada, a tentativa de ridicularizar algo foi dela.

      Sorte a sua que esteve em ambientes tão amigáveis que nunca sentiu o machismo de maneira mais violenta, que nunca precisou brigar para se impor. Você é uma feliz exceção. Mas dizer que o cavalheirismo é um problema do homem é como se isentar de uma luta só porque você não se sente diretamente oprimida. Se a gentileza é unicamente um viés do cavalheirismo, acredite, é um problema seu, você pode achar que não te afeta, mas mais cedo ou mais tarde você vai sentir o peso de um homem que ao ser cavalheiro te cobra a postura de uma dama, no mais, a História já seria suficiente para que rejeitássemos essa possibilidade.

      E sobre a entrevista, eu não gostaria de ver as minhas palavras sendo encaixadas nos termos que a jornalista estava usando para fazer o convite e que eu sequer considero válidos. No mais, eu disse a ela exatamente o que eu disse aqui no texto e o que eu recebi como resposta só me fez ter certeza de que minha decisão foi a mais acertada possível. Não há medo, nem distanciamento, eu só quero estar segura de que minhas palavras serão reproduzidas como foram pensadas e aqui estão. De maneira alguma creio que ter me negado a falar para a revista, mas ter escrito meu texto aqui tenha sido um gesto de rancor/ retrocesso. O Biscate é um espaço que caminha, o link vai longe e recebi respostas maravilhosas de pessoas que discordaram de mim, mas legitimaram o discurso; pessoas que acabaram repensando sua opinião sobre o assunto e gente divulgando o texto porque apoia e quer ver esse pensamento disseminado.

      Obrigada pela disposição de debater o texto e espero que eu tenha respondido todas as suas questões.
      Gentilmente,

    • muito obrigada, maycon. responder à discussão em si é o que menos importava, foi só um gancho pra falar mais sobre isso, sobre como o machismo está naturalizado num nível em que as pessoas nem percebem incoerências em seus discursos.

      escrevo, sim, pode deixar =]

  2. Cíntia, pegar o argumento da menina “no pulo”, apontando sua inconsistência lógica, já foi, para mim, todo o necessário para a credibilidade do seu texto. O restante já foi tripudiar. rsrs. Meus parabéns!

    João Carlos

  3. Eu tenho uma duvida sobre o lance do cavalheirismo.. eu sou feminista mas essa eh uma questao que tenho minhas duvidas… se o cara eh “cavalheiro, gentil” com uma prostituta por exemplo.. ou com uma biscate e nao apenas com as “pudicas”, submissas que eles consideram as ideais ainda sim é machista? nao pode ser apenas educado? sei la, assim como uma mulher abrir a porta pra outra, ou ajudar a carregar as coisas enfim.. se o cara eh gentil apenas para ser carinhoso.. isso ainda sim eh machista? eh claro que tavez seja dificil perceber a diferença.. mas acho que exite..

    • Eu entendo assim, Doris: se o cara é gentil e atencioso com todas as pessoas, não apenas com mulheres, ele é gentil, não cavalheiro. Se o gesto é de cavalheirismo, não de gentileza, é machista, porque o cavalheirismo pressupõe, em si mesmo, a existência de uma dama que seja objeto merecedor do gesto. E a noção de dama é sempre machista.

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