Ciúme é a merda do amor

Há quem não concorde com o título acima e ache que ciúme é perfume, bem como pensa o Poetinha. Pois eu estou com Caetano e não abro – e olhe que sou dessas que gosta de abrir. Os braços, a mente, as pernas…Ciúme é, para mim, uma coisa assim meio que posse misturado com insegurança. O ciúme não está no sorriso largo que a moça oferece ao moço do outro lado da mesa. O ciúme não está no abraço que o moço dá naquela que foi companheira enquanto ela enterra o avô. O ciúme está no olho de quem vê, no coração de quem sente.

Nada me deixa mais feliz do que ouvir aquelas duas belezuras chamadas Chico Buarque e Wilson das Neves e toda sua segurança de malandro. O malandro é tão malandro que sabe que não importa para quem ela bamboleia ou pra quem ela pisca o olho, porque no final – da noite, pelo menos – é com ele que ela fica. Diz aí como não sentir tesão por dois malandros tão seguros de si.

Ciúme também é posse. É querer se apoderar dos sentimentos, desejos, sonhos e pensamentos do outro. E há os que ainda querem controlar o incontrolável: o passado do seu Objeto de amor. Digo objeto porque quem quer ter tanto poder assim sobre o outro, não vê nele um sujeito autônomo, cheio de vontades, virtudes e defeitos, sobre o qual não há que se exercer controle, mas sim um objeto sobre o qual se pode dispor, como um quadro que enfeita a sala.

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Desconfio que quem saber tudo o que se passa com o outro não sabe o que se passa consigo mesmo. Quem ama – ou diz que ama – alguém com esse tipo de sentimento quer ser o centro da vida daquela pessoa, não admite que o outro possa ser feliz, sorrir, amar outros além dele. Gente que sente assim não admite que o outro possa ter outras formas de ser feliz que não o incluam.

Amar assim é fácil porque se elege o objeto de amor, trata-o como tal e coloca nele todas as expectativas de sua vida. Ele, o objeto, passa a ser o responsável pela sua (in) felicidade. Quem ama assim, tira a própria  responsabilidade de sua vida e é incapaz de perceber que cada um nasce e morre só e que o que acontece no meio disso só pode ser creditada a ele (por mais clichê que isso possa parecer).

Quem ama assim não admite que o mundo aconteça além dele; que as relações que seu objeto de amor estabelece com outros não são da sua conta. Não entende que ele ocupa um lugar na vida do outro e que não tem o direito de cobrar aquele amor todo que devota ao objeto amado. Quem ama assim quer ser presença todo o tempo sem saber que o amor também se faz nas ausências.

ciúme vem aliado a uma boa dose de machismo

ciúme vem aliado a uma boa dose de machismo

Não nego, contudo, que quem ama assim, sofre. Mas não sofre porque o outro é mau, canalha o tem um coração leviano. Sofre porque quer segurar, amarrar e guardar na gaveta aquilo que não é seu; e que nunca será. Quer ser dono daquilo que é matéria do outro e só a ele pertence.

Difícil é amar sabendo que a única certeza que se tem é dos próprios sentimentos, ou nem tanto assim, e que a vida do outro não é sua. Amar sabendo que o outro é senhor de si não é fácil, mas acredito que seja o mais honesto.

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11 ideias sobre “Ciúme é a merda do amor

  1. O que causa problemas no caso do ciúme como acontece com outras emoções, são os comportamentos mórbidos e perigosos que muitas vezes resultam. Ciúme é a emoção sofrimento, é a falta de segurança e também uma grande dependência afetiva.

  2. engraçado, achei esse post esse blog por um acaso… e o que mais me angustia hoje é tirar do meu peito um ciumes bestializante. Que faz a mente criar mil coisas, muitas delas prejudicam a mim somente a mim. Minha estima, minha paz… é um duelo do interior de minha alma para o externo de minhas atitudes. intimamente é minha luta diária contra a propriedade privada e o machismo.

    • Oi Nina. Espero que você consiga dominar ess “monstro de olhos verdes” como bem disse a Rê Lins num outro post. Sim, ciúme tem bem muito de machismo.

  3. Que boa reflexão. Sempre pensei assim e sempre tentei pensar assim, mesmo quando tomada de ciúme, é difícil administrar pensamento e sentimento, principalmente neste mundo onde a medida de tudo é a posse e é o que aprendemos desde criança.
    Nunca consegui expressar direito quando tentava explicar para outras pessoas o que pensava sobre o ciúme. Agora já tenho como! bjs.

  4. Aproveito o post para um desabafo, contando que quem passar por aqui poderá dar sua opinião. Acredito que já tenha vivenciado os dois lados, e podemos afirmar que ciúmes não faz bem para quem sente, para que é vítima dele e quem foi terceirizadamente envolvido e prejudicado por ele.

    Porém, algo sempre me incomoda quando se toca nesse assunto, talvez seja a questão de limites. Devido ao aprendizado com relacionamentos anteriores, aprendi a dar espaço, mas me pergunto as vezes se não dou espaço demais, até o ponto de me ferir por isso.

    Explico: estive num relacionamento onde o espaço era tanto que eu mesma não sabia lidar com isso, me feri muito e tudo acabou por esse mesmo motivo. O meu companheiro, ao decidir viajar sozinho com uma ex-namorada, ao invés de viajar comigo num feriado. É ciúme? é desrespeito? Quando ele mente dizendo que vai fazer x, e na verdade vai se encontrar com uma pessoa, é ciúme, ou é desrespeito? Quando admite que se interessa pelas amigas x, y, z, e tem fotos delas para admira-las de quando em quando, e que vira e mexe vai encontra-las sozinho, ganha presentinhos e mensagens via celular de “saudades” e “amo você”, isso não me diz respeito, é invasivo, é ciúmes? é ciúmes com razão? Compromissos desmarcados ou atrasados comigo, em prol de outras pessoas, é querer ter posse do outro? Mesmo ao tentar me expressar sobre como aquilo me feria, o meu sentimento era menosprezado e seu comportamento afirmado como normal.

    Não me incomodava o fato de ter contato com ex (afinal se é ex, terminou pq não havia razoes para estarem juntos certo?!), ou de falar com as pessoas, de sair, viajar sozinho nem nada disso. Mas muitas situações me senti desrespeitada, e optei terminar esse relacionamento que me feria. Neste momento ouvi que que era melhor não estar mesmo com alguém que não tinha confiança nele. (?) Eu enxergo que não podemos ter a posse dos desejos do outro e que isso é melhor guardar pra si, mas e quando as ações parecem ultrapassar o limite do espaço? Sinceramente, não sei o que pensar sobre o que vivenciei, e nem como agir daqui pra frente.

    Por favor, deixe sua opinião.

    • Oi, Thata,

      eu não sou a autora do post em questão, mas também escrevo aqui no Biscate 🙂

      eu acho que, nos relacionamentos – sejam amizade, namoro, viver junto, etc – a gente tem que conhecer bem os nossos limites/desejos e ouvir/estar aberto a saber os limites/desejos do outro. Porque nem sempre o que esperamos da relação é o que o outro quer, não é? Além disso, também acho legal deixar algumas coisas claras: o relacionamento é monogâmico ou aberto? Isso faz muita diferença na forma de lidar com as situações que você descreveu. Também acho que há uma diferença entre alguém me dizer claramente que vai viajar com outra pessoa e não comigo e a pessoa mentir dizendo que vai fazer outra coisa, né? Todos estes aspectos, penso eu, devem ser ponderados.

      • Oi Borboleta!

        Nosso relacionamento era monogâmico, conversamos muito sobre isso desde o começo do relacionamento. No entanto, ele soube por mim mesma, que eu desejava a felicidade dele, e que ele não deveria se privar de algo que quisesse fazer, por minha causa. Ele sabia, e assim foi, que eu jamais o proibiria de coisa alguma. E assim era recíproco. Tanto que eu fui viajar, sozinha, e ele, no fim, ficou chupando o dedo pq a ex mudou de planos. Mas eu fiquei super triste durante minha viagem, me perguntando se era esse tipo de “companheiro” que queria pra mim.
        Era uma ex que não era bem ex relacionamento, era um ex envolvimento, uma modelo que ele chamava de doida desequilibrada, mas não escondia sua enorme atração pela beleza da moça, e por ela, me deixava a espera-lo nos compromissos, chegando atrasado, desmarcando, mentindo sobre sua programação para poder encontra-la…

        Era difícil pra mim lidar com essa situação. E ela não era a única, essa era a bonitona sem escrúpulos que usava ele nas horas vagas, mas haviam outras que também literalmente se declaravam apaixonadas com seus presentes e sms, com as quais ele jamais cometeria a grosseria de dizer que parassem.

        De qualquer maneira, ele insistia que não queria ficar com mais ninguém, apesar do desejo. Mas que ele não ia deixar de ser legal com ninguém por minha causa. Mas e aí ser legal comigo e honrando os compromissos? Parecia que todas eram namoradas dele, menos eu. =(

        O que pensar?
        Não quero ser uma doida controladora, mas há um limite?
        Juro que não sei!

        • Bom, uma coisa que eu acho legal é não transferir responsabilidades, sabe. Quem tinha um relacionamento com você era ele, não ela – ou elas – daí que eu acho que chamá-la de bonitona sem escrúpulos não é legal, sabe (tem este texto no blogueiras feministas que eu gosto muito: http://blogueirasfeministas.com/2012/10/cultura-do-estupro-e-slut-shaming/, tem esse outro bem esclarecedor: http://escrevendoumafeminista.blogspot.pt/2012/10/slut-shaming-e-porque-e-errado.html).
          Outra coisa que eu acho importante é a gente entender bem em que contexto está: ou bem é monogâmico ou bem a pessoa não precisa/deve se privar de nada. Não dá pra ser as duas coisas, né?
          Assim, acho eu, entendendo que os limites e a dinâmica da relação é estabelecida pelas pessoas envolvias (e quem tá fora, como a ex dele, por exemplo, não tem nada com isso e não é responsável pela manutenção ou quebra dos compromissos) e conhecendo seus próprios limites é mais fácil passar longe do “doida controladora”, acho eu. 😉

  5. Escrevi esse novo pq ali estava ficando muito estreito!

    Eu entendo o que você diz Borboleta, mas em momento algum eu transferi a responsabilidade pra alguém, nem a elas, nem a ele, como eu disse de início, minha questão era exatamente essa, “qual foi o meu erro?” Não conhecer meu próprio limite até então, talvez, ou não deixar claro se era um relacionamento aberto ou fechado, talvez, ter me envolvido com alguém que não merecia a liberdade que eu posso oferecer, talvez, pois se alguém não está nem disposto a dialogar sobre como me sinto não me dá razão e nem vontade de ter uma relação com essa pessoa. Tanto é que acabou.

    E outra coisa, eu considero a moça bonitona e sem escrúpulos, por ela usar as pessoas em geral, em momento algum a julguei como “vadia”… considera-la sem escrúpulos é um adjetivo que eu poderia dar independente do gênero, não estou julgando sua sexualidade ou seu aspecto feminino e sim seu aspecto humano. Eu concordo feministicamente que não é legal esteriotipar e diminuir a outra pela maneira que ela é, como se veste ou por gostar de sexo, mas pessoas que não tem sensibilidade ou respeito umas pelas outras, não é uma questão que se encaixa aí. E nem disse que este é o caso dela, pq nem mesmo sei. Não acho que por gostar de sexo ou por se vestir como quiser e por ser amaparada pelos conceitos feministas a mulher – ou qualquer outro ser – possa sair por aí fazendo o que der na telha sem se importar com os sentimentos das pessoas que estão a sua volta. Feminismo sim, mas com riqueza de espírito, respeito pelo que todo ser sente, Acima de seus caprichos, é uma questão de humanidade, de equilíbrio, de harmonia.

    Enfim, sigo analisando “onde foi que eu errei”.
    😉

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