Coração selvagem

o meu coração selvagem tem essa pressa de viver

“Meu bem,

Guarde uma frase pra mim dentro da sua canção

Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão

Eu quero um gole de cerveja no seu copo no seu colo e nesse bar

Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja

Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja

Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo tenho pressa de viver ”

Essa semana passamos cá eu e o Belchior, e a Márcia Castro cantando seus versos na minha cabeça. Frases que se aninharam no meu peito e no meu coração selvagem, com toda pressa de viver que exala pelos poros de quem, como eu, não tem mãos fortes o suficiente para conter os desejos e as vontades de amor.

É sempre muito. E o muito é vermelho e tem pressa, pressa de vida e morte, pressa de respirar e exalar ar puro, de viver tudo que se tem para viver dos encontros que pulsam, e das pessoas que cruzam nosso caminho mexendo por dentro e nos contando que a existência pode ser partilhada em curiosidades e vivências diversas. Em sentimentos bons de trocar e agregar. Em sensações quentes e aberturas de novos mundos. Em mundos divididos pelo que vem do fluxo de ser.   

A gente tem pressa, Belchior me confirma que essa gente existe. Essa gente nossa que quer crescer a cada encontro, que quer somar, extravasar e ir além dos corpos, além do prazer, que quer desbravar os universos que se encontram por puro mistério do destino. A gente quer riso e gozo, quer se jogar na correnteza mais forte de estar viva, quer navegar junto quando os rios se cruzam e os segredos despontam em carne e ossos.

 “Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente

Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente

Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem

Tem essa pressa de viver”

E a gente tá aqui fitando o horizonte e abrindo os braços para o que vem. Acolhendo o que não sabemos, e o que sentimos arder por dentro. Vontades ainda sem nome. Coração selvagem, anseios sem endereço. Possibilidades que se multiplicam com o amor que aquece e invade as aberturas rasgadas com a coragem de quem vai.

Estrada imensa, curvas e descidas, subidas de montanhas e penhascos, praias nas margens, mar à vista, verde e concreto. A gente vai e leva o que consegue na bagagem de mão que nos acompanha. Poucas malas, o peito nu, fotografias nas retinas. Pouco peso, e muito chão. Para mais.  

Mas… nem sempre. Não, nem sempre os tempos batem, e os amores nos acompanham nessa jornada de quem tem pressa de vida. É preciso mais, além de um encontro forte e uma possibilidade de amor. Não, não é fácil embarcar assim, junto. Com disposição e sem medo. Com os mesmos tempos de viver. Com encontro de intensidades, com a vida aberta sem complicação para pular no vagão do trem e apenas ir, junto, porque junto tem brasa e vulcão que explode. Tem engrenagem que funciona, tem coração que bate e faz sentido. Não, não é sempre.

Tem muita coisa que precisa afinar para acontecer o tempo de ser junto. É tão simples quando é, mas tem tanto. Pode ter tanto desencontro dentro de um encontro bom. Pode ter tanto não. E quase nunca um coração selvagem está preparado para o não.

É, não é tarefa fácil acolher o não do encontro possível. Para quem tem pressa e está lá, descendo a ladeira sem freio, sem pouco, sem miséria, sem dublê, sem maquiagem, sem reserva… o breque é violento. Como, como acolher o não? Quem não pula, não pode, não dá? Quem não tem como, não tem esteio, não tem tempo, tem distância geográfica, tem história difícil, tem outra história, tem medo, tem falta?

“Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão,

O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver

E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza

E arriscar tudo de novo com paixão

Andar caminho errado pela simples alegria de ser

Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo.

 Vem morrer comigo, meu bem, meu bem, meu bem”.

 A gente canta com o Belchior, e chora e grita e se lastima e pula e faz barulho e morre um pouco por dentro. E morre de novo para renascer e ir em frente com essa mesma pressa de viver. Porque uma hora, em alguma curva do caminho, a gente acerta. E aí, sim, experimenta o que é viver e dividir todo esse algo mais que não se conta na canção, e em lugar algum.

A gente experimenta o indizível.

 

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6 ideias sobre “Coração selvagem

  1. “E não é tarefa fácil acolher o não do encontro possível”. Mas o não do não-encontro já é não, e desencontro também é vida, também é história pra contar, também é aprendizado e impulso pra andar mais para adiante.
    🙂

    • É querida Rê… é sim! como já disse o poeta: “a vida é a arte do encontro embora haja tantos desencontros pela vida”….simbora com nossa bagagem de sins e nãos né?! beijão !!

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