Do Que Você Gosta, Quando Gosta de Mim?

Mimo do meu amigo Cláudio, devidamente incorporado ao post

Mimo do meu amigo Cláudio, devidamente incorporado ao post

Vezes e vezes, nas narrativas das amigas e, algumas vezes, na minha alcova eu escuto, de forma direta ou nas entrelinhas, a pergunta de um amante a outro (amante como aquele que ama, podem ser namorados, casados, tico-tico no fubá): você gosta de mim? É uma pergunta de angústia e não é minha intenção zombar da questão. Mas me espanta, não só que seja enunciada como é, mas que reverbere nas canções, filmes e revistas “para mulheres”: como ter certeza que ele gosta de mim? que ele gosta de mim mesmo mesmo mesmo?

A pergunta completa, eu suspeito, é mais ou menos assim: você gosta de MIM, além de me beijar, de me comer, de me abraçar? você gosta de MIM, além de acariciar meu cabelo, esfregar o nariz no meu, segurar minha mão? Você gosta de MIM, além de encostar no meu peito, rir do meu riso no café da manha, engolir minha porra com um olhar contente? Você gosta de MIM além de conversar comigo por horas, ouvir minhas idéias e opiniões sobre tudo e qualquer coisa, olhar minhas fotos da infância e adolescência, sair com meus amigos e familiares? Você gosta de mim, de mim, de MIM?

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E eu fico no meu silêncio de alto-mar, tentando entender o que esse MIM, tão maiúsculo, quer dizer. Quando a pessoa pergunta você gosta de mim, será que acredita que existe um eu (ou melhor, um você) lá no fundo do âmago do ser que é diferente do corpo que é beijado, fodido, abraçado? Um eu (ou melhor, um você) que é outra coisa que não cabelo, nariz, mão, peito, porra, voz e riso, corpo e materialidade? Um eu (ou melhor, um você) que não está nas suas ideias, nas suas memórias, nas suas referências e relações? Um eu (ou melhor, um você) que se retrai, ofendido, porque x outrx só quer te comer?

A noção de um eu (ou melhor, um você) assim, essencial, para além da materialidade e das vivências é um dos elementos que constituem o ideal romântico do amor e dos relacionamentos (acho eu, uma eu que não é essencial) porque se vincula à ideia de imutabilidade, de permanência. Esse eu (ou melhor, você), esse MIM que não é o corpo, as lembranças, as palavras, as ideias, gostos, atitudes, enfim, que não é qualquer coisa submetida ao tempo, ao espaço e às relações, coloca-se como atemporal, ahistórico e, aparentemente, estável. Assim, pode demandar um amar que lhe corresponda em natureza: imutável.

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O amor romântico complementar se alicerça nessa premissa: somos, assim, em essência, um para o outro e, como essa essência não se modifica, esse vínculo que nos une não será tocado pela sombra, pela possibilidade de qualquer alteração. Fica tudo certinho e combinado, não é? Já que o Eu de um e o Eu do outro são estanques e se encaixaram que nem pecinhas do quebra-cabeça e metades da laranja, serão permanente e reciprocamente capazes de satisfazer todas as necessidades um do outro e, assim, viver felizes em harmonia. Qualquer alteração no estado de completude só parece apontar que, OPA, foi um terrível engano. Eu não gostava de você – esse você lá dentro, verdadeiro e permanente – e/ou você não gostava de mim – esse MIM maiúsculo, constante, essencial. O relacionamento não deu certo, proclama-se, em tom de lástima. 

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Na contramão, eu considero que todos os meus relacionamentos deram certo e que, a bem da verdade, eu nunca gostei de “você mesmo”, mas gosto mesmo de você, de todos os vocês, de quem você é quando estamos juntos. Não gosto do você do fundo do âmago do seu ser. Eu não gosto de você além dos beijos, do sexo, dos abraços. Não gosto além do cafuné, do nariz frio, das mãos quentes. Não gosto além do peito amplo, do riso rouco, do sabor da pele na minha língua. Não gosto além das ideias elaboradas, das histórias ternas e/ou divertidas, do jeito esquivo e constante de ir construindo vínculos. Não gosto além nem por causa. Gosto disso. De você. Do você que você é e da eu que esse você me faz ser. Gosto em relação. Movimento. Dos barcos. Dos quadris. Como andar: desequilíbrio e coragem. Gosto de você sem estabilidade. Sem pra sempre. Sem promessa. Sem eterno. Sem encaixe. Gosto que você não me preencha completamente. Gosto de não satisfazer todas as suas necessidades. Gosto de lhe fazer falta. Gosto de você no tempo e no espaço, quando e aqui. Disse o Bandeira – e eu com ele: “o que eu adoro em ti é a vida!”.

Querer, querer bem, querer tanto, querer muito é aceitar o risco – é assim que sinto, é assim que vivo. Um risco, outro, uma letra, um nome, uma história. A nossa. Não é todo dia que é fácil viver sem certezas nem amanhãs enfileirados. Mas eu troquei a âncora por velas e bússola. Vou navegar.

 

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13 ideias sobre “Do Que Você Gosta, Quando Gosta de Mim?

  1. Ah, mas o condicionamento cultural é tão forte… concordo com vc em tudooo, tudo mesmo, mas tenho uma dificuldade absurda de colocar isso em prática.
    Mal começa, e meio sem querer, sem perceber, já formei milhões de expectativas e, óbvio, depois são milhões de frustrações e lágrimas.
    Mal acaba, e já penso: “mas existe alguém lá fora que vai me completar”, “eu vou encontrar alguém”, mesmo sabendo que eu não preciso de ninguém e que já sou completa. freuds…
    comofas? =(

    • Oi, Lia, que bom que gostou (gostou, né?) do post. Olha, já cantava a Fafá de Belém, “viver não é fácil não, pergunte ao eu coração”. Vou falar de mim, certo? O que eu fiz e faço. Também fui submetida a essa socialização que demanda de nós, especialmente das mulheres, uma postura de espera do grande-e-perfeito-amor. Mas descobri que não é nisso que acredito e não é isso que quero pra mim. Então, tem aquela outra música: “viver é afinar um instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro”. Resolvi que não adiantava esperar “mudar a minha forma de sentir” pra agir diferente. Era preciso agir diferente pra ir mudando minha forma de sentir. Então eu procuro agir de acordo com a pessoa que eu quero ser e, pouco a pouco eu vou sendo essa pessoa, sabe. A outra coisa que faço é tentar separar ou inverter algumas coisas que nos ensinam como juntinhas como sexo e amor, precisar de alguém e ser completa por alguém… Por exemplo: eu acho que a gente precisa de alguéns mesmo e que não funciona bem pensar: eu não preciso de ninguém, porque dá aquela hora que queremos sexo, que queremos dormir de conchinha, que queremos passar a tarde bebendo cerveja e conversando (e aí, pra mim, pode ser – ou não – com a mesma pessoa, por isso eu coloco no plural). Por outro lado eu estou convicta que somos seres de incompletude e nem vários alguéns nem um alguém especial vai alterar essa que é uma condição da minha humanidade então isso faz com que eu tenha mais paciência com meus relacionamentos, que eu não espere que ele (relacionamento) e/ou ele (moço) me completem, me satisfaçam inteiramente, acabem com qualquer dúvida ou vazio.
      Ficou um comentário enorme, quem sabe qualquer dia transformo em post 😉

      • Um belo texto, claro, cristalizado… meigo. O comentário, uma condensação de outras vidas, outras pessoas sentem igual, eu sinto igual…

  2. Coisas mais lindas esse texto e esse comentário! Caíram como luvas para a minha atual situação! Queria muito entender e saber expressar tudo o que eu quero. Tudo o que procuro num relacionamento.

  3. Esse papo de “não deu certo” quando um relacionamento acaba é muito chato e traz uma série de culpas nada a ver. Guardemos com carinho as lembranças boas e sigamos em frente, oras!.
    Mas, quando se diz isso para amigas que estão ocupadas demais se martirizando olhares de estranhamento e imediatamente aciona-se o “amorômetro” (mede quantidade de amor: se você não morrer de sofrer é insensível e não sabe o que é amar, ponteiro lá embaixo… rs).
    Deu certo sim, ué! E como deu! Só que agora não faz mais bem. Que venham outros amores (ou não).
    O que temos, vivemos, amamos é tangível e nos completa na exata medida da nossa incompletude.
    Outro ponto é que sabendo da finitude e ficando no plano do real precisamos cuidar, o que requer um tantico de esforço e dá uma pregui.. melhor o MIM grandão e imutável…
    Perfeito o seu texto! Só isso. Abs.

  4. Pingback: Você Não Acredita No Amor? | Biscate Social ClubBiscate Social Club

  5. Confesso que, desde que conheci o Biscate, já li esse texto trocentas vezes e sempre tem uma nuance nova, uma coisa que bate de um jeito diferente depois de lido, de novo e novamente. Ora inquieta, ora acalma. É difícil sim, como todo mundo já disse, pelos condicionamentos sociais e muitas expectativas que trazemos, viver a vida assim sem tantas certezas definitivas. (?!) As certezas, apenas aquelas que estão situadas no tempo e no espaço, nesse caso não bastam. Mas sinto que você deu uma dica muito preciosa e absurdamente precisa. (no comentário) Nesse campo o “sentir” vai sempre nos trair, nos arremessar para longe da pessoa que queremos ser, nos envolver numa cortina de fumaça e quando abrirmos os olhos, tragadas, de novo, fomos. Assim, é muito importante a gente tentar ser quem queremos ser apesar de sentirmos uma outra coisa, inicialmente. A mente nos manda de volta aos condicionamentos e a gente, se quiser se apartar disso, precisa ir vivendo longe ‘desse sentir’ e ir sentindo outra coisa, inicialmente estranha, é verdade. Hoje não tenho um (a) parceiro (a) ao meu lado para dividir a cerveja, uma cadeira na praia no sábado (daqui a pouco tô indo para Boa Viagem), ou as discussões do dia a dia (não mais se a bola entrou ou não nos jogos da copa, já que a tecnologia tá fazendo isso com perfeição), mas tenho aprendido a me sentir mais , a me olhar mais e, sobretudo a me amar mais. Esse texto tem mudado muito minha vida, obrigada Lu. Bj

  6. Pingback: Borboletas na alma | Biscate Social ClubBiscate Social Club

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