A Esquiva ou Somos Sempre Culpadas

Essa semana assisti “A Esquiva” um filme do qual nunca tinha ouvido falar (mas isso nem é novidade, sou mesmo desinformada, desligada e vários outros “de” como devassa, mas acho esse não vem ao caso dessa vez). O certo é que vi. “A Esquiva” (L’Esquive, 2003) é um daqueles filmes com cara de baratinho que agiganta sua forma via conteúdo. Dirigido pelo tunisiano Abdellatif Kechiche, tem um enredo aparentemente simples e lança um olhar sobre jovens de um bairro na periferia parisiense.

O filme me conquistou pela interpretação cativante dos atores e pelo movimento pendular entre dureza e delicadeza no tratamento dos dramas dos personagens, especialmente das meninas/mulheres. O filme está cheio de personagens femininos. São elas que conversam, que agem, que gritam. Qual não foi minha surpresa ao começar a me preparar pra escrever este post lendo (as poucas) resenhas que encontrei e vendo-as, todas, centradas no personagem masculino, Krimo, e sem nenhuma palavra sobre o que recai sobre as meninas: os julgamentos, as obrigações, os papéis sociais, as queixas, as responsabilidades pelo seu próprio desejo e pelo desejo do outro.

Elas falam, agem, gritam...e sofrem.

Elas falam, agem, gritam…e sofrem.

Mas vamos por partes, o cenário: a periferia de Paris, uma escola, os ensaios pra apresentação de uma peça.  Os personagens: adolescentes. Os pesos: as paixões em ciranda, o fato de serem minoria étnica, os padrões e reputações que “precisam” ser mantidos. Krimo é um adolescente retraído que, ao terminar um namoro, apaixona-se por uma colega de sala. Esta mesma colega é a atriz principal da peça ( “O Jogo do Amor e do Acaso”, de Marivaux) que é ensaiada na escola. Para estar perto dela, entre outras coisas, Krimo suborna um colega para atuar como par romântico na peça.

Uma das coisas mais interessantes do filme, na minha opinião, é o confronto entre a linguagem da peça ensaiada (rebuscada, elaborada) e a linguagem dos adolescentes (direta, corrente, simples). Outra coisa interessante é a forma como se relacionam “arte” e “vida”, como a trama da peça (pessoas que se fazem passar por outras pra seduzir) se enreda com os amores e dramas juvenis. Há ainda o mote da peça que se coloca como pergunta que atravessa o filme: somos determinados pela nossa classe social, geografia e cultura? Somos presos ao de onde viemos? A linguagem é mais um personagem na trama, ela não leva ao entendimento, ela é expressiva mas não faz convergir, antes isola, separa, cinde. É o que não se pode ou não se deve dizer que aflige os jovens.

Há muito a se falar sobre o filme, especialmente como ele foge dos lugares comuns sem, no entanto, subtrair-se das questões difíceis, sem calar-se sobre o cenário político e social que opera sobre os protagonistas. O filme não vai tratar de integração dos imigrantes, de roubos e marginalização, de diferenças culturais ou religiosas, mas está tudo lá, sutilmente implicado, os pais na prisão, a impaciência da professora, a brutalidade dos policiais. O pulo do gato está em imbricar estes elementos aos mais universais – o romance, as dificuldades de passar da infância à idade adulta, as relações de amizade – e, assim, criar uma dinâmica em que se ultrapassam os estereótipos comumente usados para tratar deste cenário.

Lydia (Sara Forestier) em "A Esquiva"

Lydia (Sara Forestier)

Mas eu não escolhi falar deste filme pra tratar de nada disso. Eu escolhi falar desse filme por causa da Lydia. A primeira vez que vemos Lydia ela está negociando o vestido com que interpretará a personagem principal da peça. É tocante o seu entusiasmo, a sua persistência, a sua entrega. É a Lydia que ocupará o centro da ação dramática embora ela tenha pouco interesse em qualquer outra coisa que não seja a peça. Mas, mesmo assim, independente do seu interesse ou desejo, ela é convocada. Eu explico. Krimo se apaixona por Lydia e, a partir daí, ela é cobrada por todos os lados como se tivesse uma obrigação por ter “despertado” esse sentimento. Ela é xingada de puta e oferecida pela ex-namorada do Krimo (como se o “bom moço” só pudesse ter sido envolvido de forma passiva, como se ele tivesse que ser seduzido pra desejar) quando ainda desconhecia que o amigo agora fosse um apaixonado. Quando Krimo enfim se declara e ela pede um tempo pra decidir se quer namorar ou não é julgada pelas amigas como se uma mulher não pudesse pensar pra decidir sobre si mesma, tem que saber “na lata”, se não agir assim é porque está jogando, “fazendo doce”, etc. A sua dificuldade de saber se quer ou não ou mesmo a sua dificuldade de ceder ou negar ao seu desejo é ignorada por todos e tratada com violência e segregação.

Lydia é como uma qualquer de nós na boca de tantos: biscate se enuncia seu desejo, biscate dissimulada se não é capaz de fazê-lo. Assisti com aquele desconforto de reconhecer tanta gente e tantas situações parecidas: a mulher é culpabilizada pelo que “provoca” no outro e qualquer violência contra ela é justificada com “alguma coisa ela deve ter feito pra merecer isso”, a mulher é responsabilizada por coisas diversas que passam por usar uma minissaia e assim está “pedindo” a cantada, a passada de mão, o estupro até a justificativa por ter sido espancada ou morta por não “avisar” ao parceiro que é uma mulher trans. O filme não foge a essa cobrança em relação à mulher (fico pensando se foi intencional, torço que sim), a todo momento parece que se pergunta: porque ela não se decide logo, ora? Como se fosse um grande favor do moço tão legal se interessar por ela.

À Lydia (e às meninas, moças, mulheres, de maneira geral) não é concedido o benefício da dúvida. Não é aceitável que ela pense, que ela pare, que ela não tenha certezas. Ela é um corpo de mulher a ser dado ou negado sem reflexão, automaticamente, porque o corpo feminino é público até ser requisitado por alguém. Aí passa a ter “dono” – que não é a pessoa a quem o corpo originalmente pertence, atente-se.

“A Esquiva” é um belo filme, daqueles tão ricos e complexos que, certamente, atinge os diversos expectadores de diversas formas. Eu acho que nunca vou esquecer o tapa que uma das personagens recebe apenas porque é mulher e amiga. Vai doer aqui nessa biscate aqui um tempão.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *