Eu sou neguinha?

“era o que eu dizia:
eu sou neguinha?”

Enquanto neste final de semana rolava a Marcha das Vadias (não sabe o que é? tire suas dúvidas aqui) em algumas capitais do Brasil, eu, bisca escrevente deste club, vadia militante e adepta dos prazeres mundanos estava num convento. Não, eu não resolvi abdicar dos prazeres do mundo, mas é que foi na Casa das Irmãs da Misericórdia que aconteceu o segundo módulo do curso intitulado “gênero, raça, e enfrentamento a violência contra as mulheres”, oferecido por um coletivo feminista aqui do meu Estado.

Arrumei a mochila com poucas coisas e dois ônibus depois cheguei num local à beira mar, cercada de verde e expectativas. Iríamos tratar especificamente sobre racismo. Durante dois dias. E, bom, excetuando-se a companheira da Marcha que havia me convidado, eu não conhecia muita gente, na verdade quase ninguém.

Por pouco tempo.

Ao todo estavam presentes cerca de setenta mulheres. Índias, negras, mulheres de comunidades quilombolas, do sertão, da associação das empregadas domésticas, de diversas entidades feministas, de movimentos afro religiosos, enfim, mulheres como eu, mas também de realidades tão diversas da minha que me perguntei o que afinal de contas eu estava fazendo ali. Fiquei tímida ao me apresentar como “das vadias”, confesso. Logo eu. Pois é.

Aos poucos, nas conversas, nas trocas de experiências, no escutar atentamente o que dói em outras pessoas, vítimas de racismo cotidianamente, lembrei. Eu acredito na igualdade. Acredito, acredito mesmo. Com respeito às diferenças. E talvez por isso mesmo, não foi fácil reconhecer, que sim, tento disfarçadamente esconder a bolsa no ônibus ou acelero o passo na rua se avisto um negro.

Fotografia retirada da página de facebook da Cunhã Coletivo Feminista

Fotografia retirada da página de facebook da Cunhã Coletivo Feminista

Também não foi fácil compartilhar a história da minha família. Onde meu avó negro era citado como moreno e suas filhas tratadas de forma diferenciada por sua viúva filha de Portugueses. Principalmente depois de saber que houve no Brasil um ideário de branqueamento, mecanismo social pensado para que em 2012 a população Brasileira tivesse 80% de brancos. Sim, teve um cara chamado Lacerda que fez esses planos e cálculos, acreditem.

Que eu, filha de pai “quase europeu”, talvez tenha sido uma das netas “prediletas” por esse motivo. Por ser mais branquinha e “afiladinha”, sabem? Sim, não foi fácil admitir finalmente que minha amada e doce avó era racista. E que a distribuição de afeto na minha família era medida também por tais parâmetros. Que eu, mesmo de forma inconsciente ou simplesmente quando me calo diante de uma injustiça, ainda ajudo a perpetuar essa herança terrível.

Também não ajudou saber que apesar de sermos o segundo País de maior população negra depois da Nigéria, 40,9% das mulheres negras jamais realizaram uma mamografia, enquanto apenas 26, 4% das brancas não fizeram o exame. Que essas mesmas mulheres têm um índice de mortalidade maternal 65,1% maior que aquelas. E que enquanto o homicídio entre xs brancxs diminuiu 25, 5% em 08 anos, esse índice aumentou 29,8% entre xs negrxs.

E como podemos continuar fingindo que o racismo não é existente e cotidiano e escolhe muito bem suas vítimas, afirmando que negros também são preconceituosos com brancos quando vemos um filme como esse aí embaixo? E não, não adianta dizer que essa é a realidade estadunidense, porque isso é tão verdadeiro aqui quanto lá, eu sei e você deve saber também.

Ou como continuar calada diante da necessidade de cotas nas Universidades Brasileiras, por simples justiça social, e diante das disparidades numéricas, quando numa dinâmica de grupo, anoto das companheiras frases como essas para um cartaz que perguntava se elas notavam o racismo em seu cotidiano?

Quando as pessoas me veem passam a mão no cabelo para ver se está arrumado.” (A., Negra)

““Eles” ficam olhando desde o jeito que a gente anda até como pega na colher.” (M., Índia)

Eu estava de uniforme e com uma bandeja, só pela cara feia dele eu não entrei no elevador.” (G., Negra)

No quilombo mulher tem que estar na roça, não pode estudar não.” (J., Quilombola)

Minha cunhada diz ao meu marido: Tu, casado com uma negra?” (M., Negra)

Minha madrinha me arrumava e ela dizia: Vai levar a negrinha? Então eu não vou!” (L, Negra)

Na universidade pediram para uma branca passar na minha frente na fila para solicitar uma documentação.” (M., Negra)

Enfim, ainda não consegui dimensionar o que me aconteceu nesse encontro, sei que foi lá que escancarei de vez as janelas, e encostada no parapeito do meu (falso) privilégio não foi nada fácil conter o grito de horror com o cenário que eu avistei. Mas sei que posso sair daqui e ir gritar na rua, no meio da praça, para todo mundo ouvir, exigindo o cumprimento do estatuto da igualdade racial, a capacitação dos profissionais que perpetuam o racismo institucional, brigando para garantir o exercício da cidadania para todxs xs Brasileiros. Mesmo que como agora, escrevendo ao som de Vanessa da Matta e dos grilos lá fora.

Fotografia retirada da página de facebook da Cunhã Coletivo Feminista

Fotografia retirada da página de facebook da Cunhã Coletivo Feminista

E não gostaria de fazer isso por culpa histórica ou pessoal, compaixão (por mais “nobre” que seja esse sentimento) ou me apropriando de vivências que não são minhas (já tenho minha cota delas), mas simplesmente porque se o racismo se fundamenta na noção de inferioridade ou superioridade racial, não quero ser melhor nem pior que aquelas mulheres, tão humanas quanto eu, e que tive a honra de compartilhar histórias.

Ah, e se você nunca se fez a pergunta do título, que é uma forma que pode ser tanto preconceituosa quanto carinhosa (oi, Bahia amada!)  de se referir as pessoas negras, deixa eu te contar uma coisa… O IBGE considera pardxs e negrxs como sendo todxs negrxs, no final das contas.

PS. Quer pensar mais sobre isso? leia o Blogueiras Negras. 

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3 ideias sobre “Eu sou neguinha?

  1. Raquel,

    Adorei seu artigo. Que bom que contamos com vc em nossa atividade. Com certeza vc tb contribuiu com suas reflexões para o grupo. Nós conhecemos mais das Vadias com vc e acho que tb aprenderam com isto.

    Espero contar com vc no último módulo!!!

    Abs

  2. Olá!!!

    Sou pernambucana e por curiosidade vi um post no “menina do sótão” blog da Lunna Guedes, cujo o título era, “centro histórico” como costumo frequentar o centro histórico de JP quando vou á PB, me senti instigada a ler e levei um susto quando vi que se tratava do mesmo C.H. e de uma paraibana, por a Lunna ser de SP.
    Fiquei curiosa e procurei saber mais no google e as surpresas só aumentaram quando encontrei esse blog, adorei a energia, adorei a sinceridade e o desejo de mudança (embora seja igual em alguns momentos a “culpa” pela impotência).
    Beijo e adorei o espaço!

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