De Amor e Partidas

De amor e partidas

De amor e partidas

Dessa vez que o amor partiu ela não correu. Era uma mulher com um amor partido, e tão inteiro. Inteiro ao ponto de adentrar-lhe as janelas de si mesma, aquecendo suas tantas incógnitas e vontades de vida. O amor lhe abraçava por dentro.

Dessa vez que ele partiu ela não sentiu vontade de fumar uma carteira de cigarros, um atrás do outro, ligados por brasas ainda acesas. Nem de se perder em outros corpos de forma quase desesperada, a conter-lhe a dor da ausência. Dor que já havia lhe doido fisicamente, como uma mão pesada comprimindo o peito. Nem, ainda, de sair pelas noites em copos cheios e risadas altas, para ensurdecer-lhe o choro que riscava a pele.

Ela acomodou-se. Deitou a cabeça no vazio, aninhando-se na tristeza macia da partida. Abraçou as lembranças e o corpo dela ainda ali, ao lado, misturado ao seu e à vida partilhada na intimidade estranha do amor. Eram íntimas e misteriosas, ligadas pelo sentimento que existia para além do corpo. Sentimento que sobreviveu aos muros intransponíveis da distância e dos tantos obstáculos da vida. Sentimento vasto que mudava a cada encontro, e apontava os dedos desajeitados para um futuro desconhecido. O porvir. Sim, o porvir.

Dessa vez ela acendeu uma vela, e pediu aos Deuses proteção de solidão. Que ela pudesse voltar para si e carregar esse amor nos ossos. Que ela pudesse ficar só na ausência partilhada do amor. Que o silêncio branco dos dias lhe crescesse em harmonia interior. E que ela pudesse suportar a si mesma.

A solidão podia ser doce. Sorriu, de repente, de alegria. Sim, tinha tocado um amor para além de si. Entendeu que isso era um presente. Raro, de cores vivas e perfume de flor. Um segredo.

Escreveu um bilhete rápido para conseguir dormir naquela noite de despedida e aeroporto cheio. Com os olhos marejados e a força das mãos juntas que não queriam desgrudar-se:

“Eu te amo lá de dentro do mar, submersa, em uma dimensão atemporal. Para além de mim. Para semear outras águas, que inundarão amantes muitos. Aventureiros desse mar livre de sentires.”

E assim seguiu navegando pelos seus rios de incontidos. Uma hora elas voltariam juntas para esse mar. Até lá, ou até que, recostava-se no aprendizado de deixar ir, sem fugir para longe do susto. Acolhendo o triste e o bonito, sentindo a si mesma com as pernas bambas e as emoções em pulso de girar a consciência.

Repetia para si mesma baixinho, velando a madrugada que lhe preparava os novos tempos: Deixar ir. Abrir as mãos, ainda em prece, e deixar escorrer pelos dedos o que não se pode reter junto ao corpo. Crescer por dentro em amor. Deixar ser.

Sem saber para onde, seu tempo se expandia em respostas suspensas. Ela deixava-se, acreditando que, logo, ela seria.

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5 ideias sobre “De Amor e Partidas

  1. Chorei enquanto lia, parece uma descrição do meu hoje..uma despedida, ela partindo, somente eu e essa doce-amarga solidão… 🙁

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