Essa tal Democracia: o que é e para que(m) serve???

“A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão com a fuga.
Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão”

(Aldous Huxley)

democracia

Estou com 24 anos de idade. Três desses anos, dedicados à militância e ao ativismo nas ruas e na internet em defesa de bandeiras que acredito (igualdade entre gêneros, combate à homofobia e ao racismo e democratização da comunicação, por exemplo). E é com perplexidade que afirmo: jamais imaginei que presenciaria, em pleno ano de 2013, eventos como as manifestações que ocorreram em nosso país.

Para elucidar a reflexão que pretendo propor, farei um breve resumo do que vivenciei e senti, particularmente, em 17 de junho, dia do 5º grande ato contra o aumento das tarifas do transporte público na cidade de São Paulo, organizado pelo Movimento Passe Livre. O desenrolar dos fatos, as mobilizações em nível nacional e a repercussão no mundo, creio eu, muitxs de vocês já sabem.

Assim como boa parte das pessoas do meu convívio, fiquei profundamente indignada com a truculência da Polícia Militar ao reprimir as manifestações. Eu não pude comparecer aos outros quatro atos porque era final de semestre na faculdade e tinha muitas coisas para terminar. No entanto, a causa que o MPL defende me representava ( e representa) demais para que eu deixasse de apoiar. Me organizei e fui para o Largo da Batata, acompanhada do meu namorado e de mais alguns amigos.

Era de encher os olhos. Um mar de gente. A Avenida Faria Lima completamente tomada pelos manifestantes. A multidão era tão grande, que quem ali estava ficava entorpecido. Eu mesma, confesso: me deslumbrei. Quase não tinha polícia. Tudo bem pacífico, como as emissoras TV adoram reforçar em seus noticiários. Acompanhamos o grupo que fez o trajeto Berrini-Ponte Estaiada ( previamente “desocupado” para a manifestação) e após a dispersão, voltamos para casa. E soube depois que o pessoal do MPL seguiu para a Avenida Paulista e que um pequeno grupo foi rumo ao Palácio dos Bandeirantes. Achei estranho isso, somado a um nacionalismo vazio que estava começando a dar as caras ali. Mas aquilo ainda não tinha sido o suficiente para tirar meu sono ou confundir a minha cabeça.

Como a revogação do aumento ainda não tinha acontecido, o 6º ato foi convocado para o dia seguinte, 18 de junho. E lá fui eu novamente, com namorado, amiga da facul e duas conhecidas, na Praça da Sé. Mas o clima estava mais pesado do que no dia anterior. Era muito ufanismo, nacionalismo exacerbado, pessoas bradando contra a corrupção ou a PEC 37 ( que já caiu antes mesmo de eu formular minha opinião a respeito), gente pedindo impeachment para a Dilma, galera contra a Coca-Cola Zero ou defendendo a volta do regime militar. Mas nada, absolutamente nada relacionado à tarifa. Tava mais para uma final de Copa do Mundo. E os manifestantes que carregavam bandeiras de partidos já estavam sendo rechaçados. Voltei para casa triste, confusa e com a sensação de ter feito papel de idiota por ter “endossado” pautas que não tinham foco. Ou até tinham, só que divergiam demais do que sempre acreditei.

Após a revogação do aumento em São Paulo, os atos continuaram e eu soube através de amigos, das redes sociais e de alguns blogs que tudo o que eu tinha visto no dia do 6º ato se intensificou de tal modo, que muita gente ( eu inclusa) temia que um golpe de estado pudesse ser articulado (porque o golpe midiático já estava em andamento, tendo em vista a forma “mágica” como a mídia tradicional passou a achar manifestções populares fofas, e a chamada massa de manobra ficando cada vez mais em evidência). E foi aí que confundi minhas bielas e parei de dormir direito à noite.

Hoje estou mais calma, mas não menos confusa. E tal confusão despertou em mim a necessidade de parar um pouco para pensar. Ainda que existam oportunistas de toda espécie tentando se apropriar e cooptar uma luta legítima para promover o caos em nome de interesses que não contemplam o povo, tenho consciência de que a maioria das pessoas que “acordaram” agora nunca tinha ido para a rua antes. Que a educação propositalmente defasada que receberam,  reforçada por (mais uma vez ela) uma mídia poderosa fez com que elas acreditassem que: política não se discute, que político é tudo igual e que nenhum partido deve ser capaz de representá-las.

periferiaPor isso, penso que meu papel, assim como o de quem se considera politizadx, esclarecidx e bem informadx seja, a partir deste momento, o de fazer um trabalho de formiguinha: tentar, aos poucos, conscientizar as pessoas de que vivemos em uma democracia sim, mas que só será plena quando um negro for tratado da mesma forma que um branco em qualquer lugar que vá; quando homens e mulheres tiverem EFETIVAMENTE direitos iguais; quando gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais puderem viver livres de preconceitos; quando aprendermos a diferenciar liberdade de expessão de liberdade de ofensa; quando o pessoal que mora lá na periferia conseguir usufruir da mobilidade urbana e do próprio espaço público da mesma forma que quem tem carro; que reforma política se faz nas urnas, de preferência lembrando bem quem foi que ajudamos a eleger… Etc. (muitas eteceteras aí)

Eu mesma, sou bisca aprendente.

A Babi Lopes tem um excelente texto falando sobre isso. A Maíra Kubik também.

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *