Guia Biscate Para Homens (módulo 01): Como Andar na Rua

Aqui, no nosso clube, diariamente re-afirmamos que a vida vem sem bula. Que o como viver é sem receita, modelo ou prescrição. Sem guia. O como é a medida da individualidade. Mas também re-afirmamos que o como não é um dado natural, estático, imutável, mas um processo a ser construído, diariamente, em interação. O como vai se fazendo na medida em que somos capazes de assumir e nos responsabilizarmos por nossas escolhas e, assim, nos aproximarmos de sermos capazes reconhecer e respeitar o direito do outro escolher e se responsabilizar por suas escolhas. Neste movimento, acreditamos, nos tornamos um tantinho mais livres de avaliações e julgamentos das nossas escolhas e das escolhas alheias. É por isso que, aos domingos, aqui brincamos de contradição. Porque se há pouca coisa menos biscate que modelos, fôrmas, padrões, é muito biscate subverter as receitas e torná-las caminhos pra um viver assim, menos dolorido.

Propomos, então, um guia de convivência bem biscate. Começamos com esse ótimo texto do Everson, mas estamos abertas (ui!) pra sugestões e textinhos de vocês. Quem gostaria de escrever, por exemplo, “como chegar junto em baladas sem ser um babaca” ou “elogiando sem agredir”? Por agora, leiam e aprendam, #ficadica.

Guia Biscate Para Homens: Como Andar na Rua, por Everson Fernandes*

Eu tenho lido bastante blogs, feministas principalmente,  e conversado bastante com as feministas e uma das coisas importantes que eu aprendi se chama ter empatia. Com isso em mente, somando-se aos vários relatos de violências cotidianas pelas quais as mulheres passam, adotei uma tática simples para tentar minimizar situações de tensões em determinados momentos. Conversei com algumas amigas para saber se essa tática ajudava em algo e a maioria delas respondeu que sim. Então resolvi repassar para outros homens.

Quando você, homem, estiver numa rua – principalmente quando for uma rua com pouca movimentação e à noite – e houver alguma mulher por perto, você pode “ajudar” com alguns passos simples:

1 – caso não seja possível não caminhar atrás dela (evite sempre, pois ela não está vendo você, mas nota sua presença poderá se sentir ameaçada) mantenha a distância, reduzindo a velocidade dos passos, se for preciso;

2 – se estiver atrás dela e estiver com pressa, atravesse a rua para ultrapassá-la, sempre mantendo distância;

3 – caminhe do outro lado da rua, quando possível;

4 – se já estiver caminhando na frente dela, mantenha a distância, acelerando o passo, se for preciso; e, se possível, não reduza a velocidade ou atravesse a rua;

5 – nunca, em hipótese alguma, dê cantadas ou assovios ou tente qualquer interação;

6 – caso veja outro homem se aproximando dela de forma que considere agressiva ou suspeita ou mesmo interagindo com ela de modo que a incomode, intervenha. Nem que seja somente de modo a se mostrar presente e vigilante para o possível agressor (consideremos inclusive agressão simbólica), que pode desistir da agressão somente por se perceber observado.

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Cantada de Rua é assédio, não elogio.

Isso serve, pelo menos, para tentar demonstrar que naquele momento e naquele trajeto, ela não precisa se preocupar (tanto) com você. Porque, veja, você é um desconhecido para ela. E nunca se sabe o que um desconhecido pode fazer.

Que fique claro que essas sugestões não são uma medida de combate ao machismo. Não são essas atitudes que vão dar segurança de fato às mulheres na nossa sociedade. Isso serve APENAS para evitar tensões em determinados momentos. Além do mais, isso não custa nada, não atrapalha em nada, não faz perder tempo, só exige boa vontade.

Ps. 1: agradeço à Ariane Silva que reescreveu o item 1 e acrescentou o item 6, à Lucya Tobleronne por ter revisado e a todas as outras que tiveram paciência de ler e opinar

Ps. 2: esse texto foi publicado depois de mostrado a algumas amigas feministas e ter sido discutido.

Ps. 3: quando se trata da situação da(s) mulher(es), deem ouvidos a elas, conversem com elas, inspirem-se nelas. Elas vêm dizendo tudo isso há muito tempo.

everson*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

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