Mãe, Feminista, Biscate, Perguntadeira, Operárix em Construção

Eu sou mãe já faz 16 anos. Digo-me feminista há, sei lá, 03 anos, acho. Uma coisa e outra não se determinaram e só chegaram a se cruzar bem depois. Várias pessoas narram que se sentiram e se engajaram feministas com a maternidade. Eu tenho minhas suspeitas do porquê isso não ter acontecido comigo e as suspeitas passam pelo Almir (pai do Samuel e marido, na época) e pelo meu entorno mais próximo, nomeadamente minha família nuclear original. Quando eu fiquei grávida e depois do Samuel ter nascido eu nunca ouvi das pessoas próximas: “não pode (ou não deve) fazer isso porque é mulher / porque vai ser mãe/ porque é mãe”. O Almir sempre cozinhou e lavou as roupas do Samuel e dividimos a arrumação da casa. Samuel sempre teve sono tranquilo, mas se eventualmente acordou, doente por exemplo, Almir levantava tal como eu, ia ao médico, aos exames, além disso foi a todas as reuniões da escola, alimentou o Samuel, colocou pra dormir. Nenhuma tarefa de cuidado tinha gênero, a não ser a amamentação e, mesmo essa, ele estava por perto, acariciando o Samuel ou me mimando. Na época eu estava terminando a faculdade e ia pras aulas e o Almir levava o Samuel pra mamar nos intervalos. E quando eu voltei aos estágios e, depois, ao trabalho, o Samuel ficava com o pai ou com minha mãe, ou com minha irmã ou com meu irmão. Cuidado também não teve gênero. Quando o Samuel tinha um ano, passei a viajar a trabalho e isso nunca foi uma questão. Agora, o Samuel mora com o pai desde o começo de 2012. Daí que questões centrais que se colocam pras mães normalmente como sobrecarga de obrigações, dificuldade de se recolocar no mercado de trabalho, creches, rompimento precoce (em relação ao desejo da própria pessoa e não em função de uma norma) da amamentação e coisas assim passaram em branco por mim.

Fui me nomear feminista em 2010 porque nessa época eu conheci várias blogueiras que assim se indicavam e com as quais eu passei a interagir. E aí a Rita me disse: “tu é feminista, isso aí que tu pensa sobre igualdade e direitos é feminismo” e como ela costuma estar certa, eu acreditei. Eu comecei a ler (os blogs, gente, não as teorias nem nada assim, porque, curiosamente, de lá pra cá minha vida foi tendo outras demandas que eu priorizei como fazer o doutorado e tal) e gostei das ideias, comecei a me identificar com as demandas, percebi que muito do que eu pensava e desejava para mim, pras pessoas ao meu redor, para o mundo de maneira geral tava ali, compartilhado por aquelas pessoas. E fui ficando, na lista das Blogueiras Feministas, publicando eventualmente no blog, participando das blogagens coletivas e, principalmente, aprendendo e trocando com essas pessoas, quase sempre mulheres.

maternidade_picasso

Nenhuma das duas coisas, “ser mãe” ou “ser feminista” me definem ou me explicam. Ser mãe é um nome que a cultura deu pra minha relação com o Samuel. O que me define é passar as noites em claro fazendo cafuné quando ele está doente, é cheirar o cabelo dele e fechar os olhos de felicidade, é alimentá-lo, conversar com ele, banhar, levar ao zoológico, é ter cuidado e continuar cuidando dele, me alegrando com ele, interagindo, aprendendo com ele. Não acho que meu amor ou meu vínculo com ele seja de natureza diferente do que o Almir ou minha mãe, pra ficar nas pessoas mais envolvidas no cuidado, tem com ele. Acho que é diferente porque eu sou uma pessoa diversa do Almir e da minha mãe, e só. Por isso a adjetivação, boa ou má, para mãe, não me importa. Se existe mesmo essa tal sabedoria intrínseca ao ato de ser mãe e que a pessoa só “sabe” algumas coisas depois que pare ou adota, o correio perdeu o manual e nunca chegou lá em casa. Eu continuo no sem saber e na construção diária das relações, inclusive com meu filho.

Ser feminista também não é um título que eu reivindique com empenho. Sou por afinidade de ideias, por identificação com gente que eu amo e/ou admiro, por considerar relevante politicamente engrossar fileira. Mas minha carteirinha eu nem mandei plastificar. Grande parte das coisas que penso hoje e que coadunam com o feminismo eu já pensava ou, antes, sentia, mesmo quando não tinha as palavras certas pra descrever. Então as coisas que faço que me identificam feminista: partilhar textos que eu considero relevantes , instrutivos ou esclarecedores, participar de manifestações a favor da legalização do aborto, militar pelos direitos das mulheres nos espaços e situações que se apresentam, escrever posts sobre temas que me comovem ou impactam, manter um blog chamado Biscate Social Club, tudo isso eu continuaria fazendo sem precisar me dizer – e, especialmente sem precisar que me digam – feminista.

Esse preâmbulo – sim, sorry, isso foi só o preâmbulo – foi pra contextualizar porque, talvez, eu não entenda bem porque as pessoas se sentem pessoalmente atacadas ou agredidas quando se questiona qualquer um desses elementos que se ligam a essas identificações/identidades.

homem feminista

Mãe, pai, amigo, avô, cuidador, sem diferença.

Eu não me sinto pessoalmente contestada se alguém questiona a maternidade, a função social, o porque do foco no cuidado ser impingido às mulheres. Não me sinto nem um pouco constrangida de pensar se realmente a mãe é mesmo essencial às crianças, nessa relação dual que a sociedade em que me vejo inserida indica e cobra. Especialmente não tenho intenção de engrossar coro de nada que solicite que esse papel de cuidado se foque preferencialmente na mulher identificada como mãe.

Também não me sinto pessoalmente chateada quando questionam ou simplesmente indagam as premissas que dão suporte ou validade à minha atividade feminista. Daí, por exemplo, todo recorte que traz as questões das mulheres negras, trans, pobres, indígenas, do meio rural, etc. que estavam ou não presentes em certas demandas do meu discurso, eu reflito e incorporo sem me sentir ruim como pessoa ou algo assim.

Eu penso o mundo dialeticamente, as relações sociais dialeticamente, as construções da identidade dialeticamente. Assim, é justamente no cerne das contradições que eu identifico a possibilidade de mudança e transformação. Por exemplo: eu acho que o papel de mãe é um lugar simbólico e culturalmente construído para as mulheres de uma forma que restringe sua autonomia e plasticidade humana. Se eu encontrar na rua uma bandeira assim: Orgulho de ser mãe, eu e a maior parte das pessoas vamos relacionar ao termo um lugar de cuidado absoluto, dedicação, entrega e apagamento de si ante as demandas dos filhos e do lar. E não vamos identificar isso porque necessariamente acreditamos que isso é o que uma mulher DEVE fazer ao ser mãe, mas porque é assim que a sociedade qualifica esse lugar. Acontece que quem ocupa esse papel são pessoas concretas, reais, que podem ou não buscar ajustar-se a ele. Acredito assim: a maneira de viver o papel qualifica esse papel e pode reconstruí-lo ou reforçá-lo. As que não buscam o ajustamento criam contradição, suas novas demandas, sua forma de vivenciar e encarnar o lugar acabam por dar novas matizes a ele. É aí, no lugar de contradição, que as mudanças operam. Isso pode ser experenciado de forma reflexiva ou não. Tem gente que passa a vida em contradição com dado papel, reconstruindo e remodelando-o sem nomear isso. E tem gente que nomeia, fala disso e, em tempos de internet, escreve posts. Alguns deles, feministas. Outros, não. Como não tenho régua pra medir esse tipo de coisa, não acho que haja alguns melhores que os outros. Acho que há alguns com os quais me identifico mais. Confessadamente: os que questionam a divisão social do trabalho no viés de gênero, os que indagam sobre a socialização, os que se perguntam sobre a essencialização da mulher e/ou da mãe, os que se interrogam sobre a naturalização dos processos sociais. E, muito especialmente, tenho maior afinidade com as escritas (e pessoas) que não tem respostas certas e que não fogem, negam ou escamoteiam contradições.

 Então, é isso: eu sou mãe, eu sou feminista. Nem tudo que penso e faço na maternidade é feminista. Nem tudo que penso e faço no feminismo se vincula às questões da minha relação com a maternidade. Nem tudo que não é feminista é machista, lembrando, porque não são concepções espelhadas da realidade. Não acho que maternidade e feminismo são incompatíveis. Não acho que maternidade e feminismo são causais. Acho que o feminismo coloca questões de contradição à maternidade. Acho que o feminismo questiona não só a obrigação de ser mãe, mas especialmente a forma de vivenciar a maternidade. E acho que no dia em que mãe for o mesmo que pai, tio, vizinho nos cuidados com as crianças, estaremos em uma sociedade melhor, pras mulheres e pras crianças, sejam de que gênero forem.

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2 ideias sobre “Mãe, Feminista, Biscate, Perguntadeira, Operárix em Construção

    • Sharon, fico feliz que o post possa ser um canal de dialogo e entendimento quando o resto da comunicação ficou tão cheia de ruídos.

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