Um não-texto sobre isso tudo que tá aí

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O texto hoje não é um texto exatamente, é um comentário. Um comentário que dialoga com o texto da Niara de ontem

Não é um texto porque eu, como todo mundo, tô olhando, tô vivendo, tô perplexa. E vou falar, sem nenhuma pretensão de análise fechada nem de síntese de nada. Um pouco como o movimento das ruas.

O movimento das ruas: tanta, tanta, tanta gente. Tanta gente que não dá pra simplesmente desprezar. Pra deixar de lado e fingir que não aconteceu. Tanta gente como não se via na rua desde … sim, isso mesmo. Desde os protestos contra a ditadura, desde as Diretas Já. Tanta gente querendo dizer. Dizer o quê? Ah, isso é outra conversa. O que a gente está vendo aqui começa com o Movimento Passe Livre. Mas começa mesmo?

Porque já tinha gente na rua. Gente protestando contra o Feliciano na Comissão de Direitos Humanos. Gente dizendo não ao PL da “cura gay”. Gente pedindo que o famigerado Estatuto do Nascituro não seja aprovado. Gente protestando contra as remoções bárbaras, que usam os megaeventos como justificativa para higienizar a cidade e levar a periferia para mais longe ainda. Isso pra me manter na pauta urbana. (Porque, claro, tem os protestos acontecendo já há tanto tempo em Belo Monte. Tem os indígenas dizendo “não” à remoção que é a deles, ao modelo de progresso-trator que tá devastando a Amazônia a bala. E isso é uma pauta em si, que insiro aqui porque não dá para esquecer nem pra deixar de lado.)

OrdemEProgressoO que a gente tá vendo agora, no asfalto do centro da cidade, é o que já vem acontecendo há tanto tempo. Nas favelas. Pinheirinho foi outro dia, com as pessoas correndo das casas sem nem conseguir tirar seus pertences. Os incêndios tão suspeitos que ajudam nas remoções em São Paulo, no Rio. Gente jogada fora. Gente que não importa.

E o silêncio das autoridades. E a falta de resposta, a falta de diálogo, a falta de prestação de contas. A insatisfação crescendo por tantos lados.

Mas divago.

O que eu queria dizer, mesmo, era o seguinte: como se pode chamar de democracia uma sociedade em que as chamadas “forças da ordem” avançam para cima dos que protestam, a balas de borracha ou reais, com seus cavalos, com suas motos? Em que se atira no rosto das pessoas que acompanham manifestações, em que se joga gás lacrimogêneo, spray de pimenta, bombas de efeito moral em gente que apenas está exercendo seu direito de ocupar a rua?

Não vou fazer relatos, eles estão aí pra quem quiser consultar. Começou em São Paulo e foi se espraiando.Tantos, tão variados, tão fartos. Imagens, videos, falas, indignação, dor, impotência.

“O que foi feito amigo/ de tudo o que a gente sonhou?”

Eu só queria dizer isso: não pode. Não pode chamar de democracia e reprimir manifestações do jeito que tem acontecido. E ameaçar quem reclama. E prender assim, à toa, como aconteceu e continua acontecendo.

A gente vai ter que se repensar, sim. E vai ter que começar por aí. Porque aí começa: no direito de estar na rua sem levar bala de borracha nem gás lacrimogêneo. E se não começar por aí… pode anotar: é que a vaca já foi pro brejo.

QuePaísFoiEsse

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