A Escada

Por Farley Valentim*, Biscate Convidado

A que se deve o erotismo de uma cena?
Às vezes, ao improvável!

Noite. Uma luz fraca ilumina a entrada de uma escada que conduz a um pavimento inferior. Ela desce para comprar algo. Vestido escuro, colado ao corpo, denunciando formas esguias, sinuosas. A cena é lenta, ritmada ao som de uma música dominada por três notas. Dilectatio Morosa, os prazeres da demora. Agora ela sobe. Seu corpo serpenteia em meio aos degraus. Sua silhueta esconde-se em meio às sombras. Finalmente emerge na rua, onde uma luz lôbrega lhe ilumina os olhos tristes.

Ele surge. Paletó escuro, cabelo engomado, jornal embaixo do braço. A escuridão o engole enquanto desce pelos mesmos degraus até que só reste sua sombra na parede. A cena continua lenta. A música domina. Nenhum outro som. Ele come.

Outro momento. A mesma escada. Agora ambos. Ela com o mesmo vestido justo, o corpo esguio. Ele de paletó entreaberto. O encontro. Entreolham-se e cumprimentam-se brevemente.

Escadas não são próprias para encontros, são locais de passagem, de trânsito. Conduzem a algum lugar, convidam ao movimento. Vários níveis em desnível. Lugar improvável para o encontro amoroso. Contudo, no espaço pequeno há profusão de sombras. Em cada uma, a ausência do olhar, uma negação das formas, um convite à fantasia. Na impossibilidade de ver, os amantes imaginam-se. Eros torna-se presente.

Ela sobe alguns degraus, ele desce outros tantos. A música se vai. Ambos maneiam levemente a cabeça. Buscam olhar-se. Um breve instante. Mas não ousam o suficiente. Ele desce. Mais acima, ela gira o rosto ainda uma vez. Não o vê. Emerge na rua e na luz, triste. Ambos se vão, mas Eros permanece.

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A escada, Tony Leung e Meggie Cheung

Amor à Flor da Pele, de Wong Kar Way, aos 14 minutos e 30 segundos.

 

farley*Farley Valentim é escritor “vez por outra”, cearense, psicólogo junguiano e apaixonado por literatura e cinema.

 

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