Das lutas inadiáveis

Eu não nasci feminista e nem antirracista. Eu fui me tornando, construindo quem eu sou, reconhecendo privilégios e me somando na luta daquelas e daqueles que sonham com um outro mundo possível.

Embora desde que comecei a ver o mundo de uma outra forma, questionando essas coisas que pareciam estar dadas, eu tenha descoberto que ser negrx e ser brancx no Brasil não é a mesma coisa, talvez nunca tenha me atentado para a perversidade disso. Principalmente, para as mulheres.

Daí que meu feminismo foi muito pautado pela lógica de que todas as mulheres sofrem as mesmas opressões. De que somos todas vítimas de uma mesma lógica de relação de poder. O sexismo era a violência que sofríamos e que nos restava sermos solidária e enfrentarmos juntas o machismo. Mas daí que a gente vai vendo que não.

Hoje penso ser impossível, para mim, um feminismo que não seja intrinsecamente antirracista. Construir um feminismo em que a luta das mulheres negras não seja visto como “à parte”, mas como a única maneira de enfrentarmos as opressões. Não consigo vivenciar um feminismo em que as mulheres negras são tratadas como “criadoras de caso”.

Como feminista branca não experiencio, nem nunca vivenciei, o racismo contra mim, contra o meu corpo, a minha pele, o meu cabelo, o cabelo da minha filha, o trabalho doméstico da minha mãe. Eu faço parte das estatísticas de quem tem acesso ao abortamento seguro – ainda que ilegal -; de quem não precisa de oito a onze anos de estudo a mais que os homens brancos para conseguir um emprego no setor formal; de quem não tem a imagem deturpada pelo machismo e pelo racismo nos meios de comunicação. A minha beleza não é chamada de “beleza exótica”.

O privilégio da raça é algo do qual não posso abrir mão. No entanto, o feminismo – e as feministas – deve ter como pauta central a luta contra o racismo. E isso não se faz agindo com condescendência com as companheiras negras que nos apontam os nossos privilégios e os nossos racismos. Não vamos enegrecer o feminismo e a nossa luta excluindo as feministas negras dos debates centrais; colocando-as apenas nas discussões sobre raça/etnia e classe como se a elas coubesse apenas essa migalha com que deixamos nossas consciências tranquilas.

negra

Marcha das Vadias de São Paulo, foto: Antonio Miotto

Um feminismo que realmente deseja um mundo justo, livre de toda e qualquer forma de opressão – sexista, racista, lesbofóbica, classista, transfóbica – deve repensar suas práticas e suas teorias. E reconhecer que isso é urgente, é um primeiro passo.

Este texto faz parte da Blogagem Coletiva 25 de Julho, Dia da Mulher Afro-Latina-Americana e Caribenha, convocada pelo Blogueiras Negras.
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