Enquanto

Você me perguntou e eu disse sim. Eu sempre digo sim pra você. Suspeito que sempre vou dizer. Enquanto eu quiser. Enquanto você quiser. Porque é tão bom gostar de você. Tão fácil. Simples, gostar de você é simples. Não é assim o prazer? Simples, fácil, bom.

vida-a-dois

Você me perguntou e eu disse sim. Eu sempre digo sim pra você. Suspeito que sempre vou dizer. Enquanto eu quiser. Enquanto você quiser. Porque você não tem medos. Ou ainda, tem tantos, mas nenhum deles é de deitar no meu colo e dizer: tenho medo. Medo dos silêncios. Medo da entrega. Medo das partidas. Medo do hoje que vai se fazendo tempo. Medo do lado da cama, imprevisivelmente vazio. Medo da mão que dorme, a noite toda, na sua.

Você me perguntou e eu disse sim. Eu sempre digo sim pra você. Suspeito que sempre vou dizer. Enquanto eu quiser. Enquanto você quiser. Porque nunca saímos do campo do improvável. Nunca pedimos. Nunca negamos. Estamos. Usamos as palavras como fantasias em festas imaginárias. Eu digo: chamego, cafuné, manga, ontonte, saudade e você sorri com uns olhos que se estreitam e um abraço que se alarga. Você diz em vermelhos: vitrola, coberta, massagem, morango e eu me dilato em calor e desejo.

Você me perguntou e eu disse sim. Eu sempre digo sim pra você. Suspeito que sempre vou dizer. Enquanto eu quiser. Enquanto você quiser. Porque você sempre acolhe o meu querer junto ao seu. Um querer que se faz pêndulo. Um gostar que se faz riso. Porque você é grande. Porque eu não sou. Porque eu pergunto muito, porque você responde: sempre. Porque eu digo: moçx. Porque você diz: meninx. Porque às vezes completamos a frase um do outro. Porque às vezes completamos a frase um do outro, mas erramos. Porque nos perdemos na conversa e um não sabe do que o outro está falando.

Você me perguntou e eu disse sim. Eu sempre digo sim pra você. Suspeito que sempre vou dizer. Enquanto eu quiser. Enquanto você quiser. Porque você diz que eu me tornei seu padrão de qualidade e eu digo que você se tornou meu ponto fora da curva. Você exige minhas curvas, mas chama de protuberâncias. Brincamos de deslizar nos significantes, de mergulhar no olho do outro, de flertar com o abismo. Eu faço pontes até você, você faz ninhos pra mim. Eu lembro da sua mão, você se esquece na minha boca.

Você me perguntou e eu disse sim. Eu sempre digo sim pra você. Suspeito que sempre vou dizer. Enquanto eu quiser. Enquanto você quiser. Porque nós implicamos. Nós discordamos. Nós apertados. Fazemos planos, não um com o outro, não um para o outro, mas tangenciando estradas. Nosso querer é de sim, é de quando, é de tanto. Eu morri cem vezes por amor e nenhuma dessas foi por você. Você viveu cem mudanças de rota e nenhuma delas pra encontrar a minha. Mas já brincamos de morrer no cruzamento da minha estrada com a sua e foi bom. Muito bom. Eu já chorei tanto no chão da cozinha, mas a única vez que sentei no chão por sua causa espiávamos a maior lua do ano e explodi em gargalhadas numa conversa que deveria ser de cinco minutos e que fez uma noite ser madrugada e logo depois dia.

Deito no seu colo, você recorta estrelas de papel e pinta o sol na janela, sussurra a lua em meu ouvido, transformando o tempo, fazendo das madrugadas, dias, fazendo dos dias, noites. Mil e uma, talvez. Em todas elas, espero, você só queira me comer.

 

 

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